quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Um Feliz Natal

- Lourdinha! Ô Lourdinha! Vem cá, criatura de Deus! – gritou lá da da sala.

 
Da cozinha veio a resposta:

 
- Já tou indo, dona Sofia!

 
Pouco tempo depois, Lourdinha apareceu na sala, ofegante.
   
- Oi, dona Sofia, desculpe a demora! Tava de olho na panela de arroz, se não queima.
   
Dona Sofia, os olhos fixos na grande mesa de centro da sala, nem prestou atenção.

 
- Ô Lourdinha, minha filha, vá lá no armário do meu quarto e traga umas toalhas de mesa que tem lá, que eu não tô gostando da decoração dessa mesa.

 
- Tou indo lá, dona Sofia.

 
Saiu da sala de mansinho, sem chamar atenção, deixando dona Sofia parada na sala, falando sozinha:

 
- Esse arranjo não ficou bom... Nenhum pouco bom... - Repetia a toda hora, enquanto olhava para o arranjo de flores que ficava no centro da mesa.

****



Dona Sofia ainda murmurava alguma coisa quando Lourdinha voltou à sala, nas mãos carregava um monte de toalhas de mesa, a maioria nunca usada.

 
- Muito bem, minha filha, agora me ajude a arrumar isso aqui.

 
Começou, então, uma história de arrumar os panos da mesa, mudar as posições das cadeiras e trocar o arranjo de flores de lugar que parecia não ter fim. Foi somente lá pelo meio dia que dona Sofia ficou satisfeita com a decoração.   

- Pronto, minha filha, muito obrigado. Agora pode voltar a fazer a comida.

- Tá certo, dona Sofia.

- E, Lourdinha, minha filha, depois que a comida ficar pronta, você passe um pano pela casa, que o chão tá imundo.

- Passo sim, dona Sofia.

- Pois tá certo, Lourdinha. Vá lá.

Saiu da sala de mansinho, ajeitando a parte de cima do vestido com as mãos.


****


Passou a tarde toda andando de um lado para o outro da casa. Ora passava o pano, ora fazia algum outro pequeno serviço a pedido de dona Sofia.


Era trabalho demais, parecia que não tinha fim.


Enquanto passava o pano pela casa, os movimentos que fazia com o rodo a lembravam do cavalinho de talo de carnaúba que tinha em casa.


- Lourdinha, minha filha, pode ir tomar banho, que o povo deve tá chegando – disse dona Sofia, lá pelas cinco horas.


Lembrou-se da mãe. O coração apertado, cheio de saudades.


- Tá certo, dona Sofia, tou indo!


Guardou o rodo na despensa e foi se saindo de mansinho na direção do banheiro. As costas doendo. 

O coração apertado.


Começou a chegar a saudade da mãe e do cavalo de talo de carnaúba.



 ****

O chuveiro do quarto de empregada era ruim, a água era pouca, caía feito bica. Com uma das mãos ficou se ensaboando, de leve, pensamentos na casa dos pais. Lá, o natal dela era diferente, era bom. 

Ela não precisava trabalhar, podia passar o dia todo brincando no terreiro com os primos. À noite, então, era só fartura. Tinha peru, galinha com farofa e bolo de milho pra comer. Podia comer até não aguentar mais e ficar com vontade de vomitar. Mas na cidade o natal era diferente, era ruim. Aqui só tinha trabalho, o dia todo. Era um tal de fazer a comida ali, arrumar a casa acolá.


Era trabalho demais, nunca acabava.


Ainda nem tinha terminado de se enxugar direito, quando escutou três fortes batidas secas na porta do quarto.


- Lourdinha! Ô Lourdinha! Termine logo de tomar esse banho, que o povo já deve estar chegando – gritou dona Sofia, do lado de fora do quarto.


****


Os convidados foram chegando aos poucos. Um a um, dona Sofia recebia todos com o mesmo sorriso estampado do rosto.

-
 Lourdinha, minha filha, traga um refrigerante e uns salgadinhos que o homem deve tá com fome – dizia ela a cada novo convidado que chegava.


Foi assim durante toda a noite. Os convidados iam chegando e Lourdinha ia lhes servindo. Aqui e acolá alguém notava a sua presença:

 
- Lourdinha, menina, como tu cresceu! Tá até mais gorda!


Ao escutar os elogios, Lourdinha não falava nada, só sorria, de mansinho, toda envergonhada.


- É, minha filha, tá pensando o quê? Que ela ainda tá naquele fim de mundo que ela morava antes? Essa ai já é quase da família – dizia dona Sofia, toda orgulhosa, a cada elogio que Lourdinha recebia.



 ****

 Correram-se as horas.


Perto da meia-noite os convidados se reuniram próximos a mesa da sala para a oração natalina. Quando a oração acabou, dona Sofia, o sorriso de orelha a orelha, realizou um pequeno discurso onde criticava o consumismo das pessoas no natal e exaltava o verdadeiro espírito da comemoração. 

Quando o discurso terminou, os convidados correram para mesa e o banquete começou.


Enquanto a comilança corria solta entre os adultos, as crianças corriam feito loucas pela casa. Sem ter quem as vigiassem, algumas delas se juntaram e, comandadas por Zezinho, um dos sobrinhos de dona Sofia, de vez em quando uma delas se aproximava de Lourdinha e lhe dava um bico bem no meio das canelas finas.


- Cambito fino! – gritava a meninada.


Lourdinha urrava de dor, passava a mão pelas canelas, fazia gestos ameaçadores, mas na realidade não podia fazer nada contra elas.


- Cambito fino!

 
O coração apertado, o bolo subindo pela goela, tinha vontade de chorar. Ah! Como queria estar em casa para ensinar uma lição para essas pestes...


- Cambito fino!


Vez ou outra, quando uma delas era pega em flagrante por uns dos convidados, ela era repreendida:


- Faça isso com a Lourdinha, não, ela é quase da família...


Mas era só ele dar as costas que a molecada recomeçava.


- Cambito fino!



 ****

Pouco a pouco a casa foi se esvaziando após a meia-noite. Quando o último convidado finalmente foi embora, Lourdinha ficou perambulado pela casa, a procura de copos e pratos sujos para lavar. Com muito trabalho, ela conseguiu recolher três pilhas de objetos sujos e pôs-se a lavá-los ainda de madrugada.


Lá pelas três horas da manha, dona Sofia, cara de sono, já de pijama, apareceu na cozinha com um pratinho de comida nas mãos.

- Guardei pra você, minha filha.

- Ou, dona Sofia, não precisava.


Abraçaram-se.


- Feliz natal, minha filha! Que tudo de bom aconteça na sua vida.

- Obrigado, dona Sofia. Pra senhora, também.

- Minha filha, você sabe que já é quase da família. Qualquer problema que você tiver pode nos contar, viu.

- Sei sim, dona Sofia.


Largaram-se. Dona Sofia, já bocejando, olhou para pilha de louça suja e disse:


- Minha filha, deixe de ser besta, termine isso amanha. Vá dormir, vá.

- Não, dona Sofia, eu quero terminar logo hoje, amanha, quero só descansar.

- Você que sabe, minha filha. Boa noite

- Boa noite, dona Sofia.


Ficou sozinha. As costas doendo, as canelas inchadas. Quando terminou de lavar a louça, comeu a comida trazida por dona Sofia e foi para o quarto. Lá, enquanto passava gelo em suas canelas inchadas, lembrou-se com saudade de sua casa e do cavalinho de talo de carnaúba. O coração oprimido, o bolo subindo a goela, pôs-se a chorar.


Fortaleza, 24/12/2009

Mal-estar

“Tic-tac, tic-tac...”, o barulho dos ponteiros preguiçosos do relógio era ouvido por toda a sala. “Tic-tac, tic-tac...”.

Não fez nada a tarde toda. Pensativo, olhava pra parede. Girava-se sobre a cadeira, mudava os objetos da mesa de lugar, rabiscava papeis. Os pensamentos voavam longe.

“Tic-tac, tic-tac...”, coçou a cabeça, consultou o relógio. Estava próximo das cinco horas, era pouco provável que algum cliente aparecesse naquele horário.

Decidido, levantou-se, colocou o paletó e lentamente foi até a sala ao lado, onde ficava o seu sócio, no escritório de advocacia.

- Eduardo, já vai dar cinco horas, vou ao fórum com a Larissa. Você aguenta as pontas sozinho?

O sócio sorriu.

- Vai ao fórum com a Larissa? Hora extra, hoje?

- Acho que sim.

Puseram-se a rir.

- Vai, vai... Pode ir lá se divertir – disse o sócio, fazendo um gesto displicente com uma das mãos. - Só toma cuidado pra tua mulher não descobrir o que tu tanto faz nesse fórum. Do jeito que ela é amiga da minha mulher, é bem capaz de sobrar pra mim.

Ainda sorrindo, saiu de mansinho da sala e foi até a mesa da secretária.

- Larissinha, meu amor, são cinco horas, tá afim de ir comigo ao fórum hoje?

Ela sorriu de leve, pelo canto da boca e sem olhar pra ele, respondeu:

- Não sei, doutor. Tenho tanta coisa pra fazer ainda...

- Vamos, meu amor, eu prometo que eu compenso isso mais tarde.

Fitou-o nos olhos e, ao perceber o discreto sorriso zombeteiro que se formava em seu rosto, disse igualmente sorrido.

- Tá certo, eu vou. Mas, primeiro, eu vou ao banheiro. Volto já.

“Tic-tac, tic-tac...”, enquanto a esperava, os zumbidos dos ponteiros do relógio martelavam a sua cabeça. O olhar perdido, a testa contraída, parecia impaciente. “Meu Deus, que demora, espero que consiga chegar lá antes das seis!”, disse para consigo, quando meia hora depois a secretária finalmente saiu do banheiro.

Já estava escuro quando eles chegaram ao fórum, que era na verdade um motel bem distante do centro da cidade, escondido de tudo e todos - perfeito para quem não queria ser visto.

O quarto onde foram acomodados era abafado. No ar, havia um forte cheiro de azedo e perfume barato, motivo pelo qual ele ficou levemente enjoado.

Por mais de uma hora, tudo o que se ouvia no quarto era o ruído de dois corpos sem preocupações em busca de prazer barato. Quando terminaram, a secretária foi novamente ao banheiro, deixando-o deitado na cama.

“Tic-tac, tic-tac...”, impaciente, durante vários minutos esperou-a sair do banheiro. Estava tarde, queria ir pra casa. O cheiro de perfume barato o incomodava, dava-lhe dor de cabeça, fazia-lhe sentir-se sujo. Por que ela sempre tem que demorar tanto no banheiro? O que raios ela tanto fazia lá? Por que não podia fazer em casa? Sentia nojo dele, por acaso?

A cabeça latejando. O calor tornou-se insuportável. O suor escorria pela testa. O corpo estava preguento, fedia a azedo. Começou a arrepende-se de estar ali.

“Tic-tac, tic-tac...”, o arrependimento ia crescendo, sentia-se sujo. Não agüentou mais. Decidiu esperá-la do lado de fora, no carro.

Enquanto a esperava, um carro estacionou ao lado do seu. Quando as portas se abriram, quase teve um troço. A mulher do seu sócio acabara de sair do carro com outro homem. Ficou branco, o sangue fugiu da cabeça. O coração acelerado, as pernas tremendo. Abaixou-se rapidamente e ficou esperando que ela não reconhecesse seu carro, e nem cruzasse com a secretária pelo caminho. Não era religioso, mas as rezas e promessas que fez durante aqueles minutos foram tão intensas que, se estivesse na presença de alguma testemunha, certamente seria confundido com um santo.

O calvário não durou muito. Em poucos minutos a mulher do sócio desapareceu pelo motel. Por sorte, não reconheceu o seu carro e nem cruzou com a secretária. Quando esta chegou ao carro, ele ainda estava pálido, suando frio.

Durante todo o caminho de volta, ficou em silêncio. O rosto sério, a testa contraída, não sorria. Com tristeza, lembrou-se de seu sócio e sem saber bem o porquê, não conseguiu parar de pensar na amizade que existia entre as suas mulheres.

Na sua alma, sentia o mesmo mal-estar que no estômago.



Fortaleza, 14/12/2009


sábado, 14 de setembro de 2013

Ossos do ofício

Eram pouco mais de oito horas da manhã quando o oficial de justiça Antônio Uchoa chegou ao local designado. Acompanhado por um policial, ele se dirigiu ao oitavo andar do prédio.

Ao chegar lá, caminhou até o apartamento número oitocentos e dois e tocou a campainha.
Por cinco minutos, a única coisa que ouviu foram os latidos raivosos de um cachorro. Coçou a cabeça, consultou o relógio e, irritado, apertou novamente o botão da campainha. Novamente ninguém apareceu. Somente os latidos do cachorro foram ouvidos, agora ainda mais estridentes e irritantes.


- Será que não tem ninguém em casa? – perguntou o policial que lhe acompanhava.
- Impossível. Antes de nós subirmos, perguntei ao porteiro e ele me garantiu que ele estava aqui.
- Então deve tá se escondendo... - retrucou o policial.

Não respondeu.
Limitou-se a consultar o relógio e a tocar a campainha pela terceira vez.

- Meu Deus, que cachorro irritante!reclamou o policial.
Dessa vez, porém, finalmente ouviram-se passos do lado de dentro do apartamento.
- Cala a boca, mel! – gritou alguém do lado de dentro do apartamento, que aparentemente brigava com o cachorro.

Os passos chegaram até a porta. Curiosos, escutaram um barulho na fechadura. Lentamente, a porta foi parcialmente aberta, revelando um par de olhos curiosos por entre a fresta.

- Pois não? - perguntou uma voz feminina.
- Este é o apartamento do Sr. Lucas Alves?
- Sim, senhor. Quem gostaria?
- Bom dia! Eu sou oficial de justiça, e trago comigo um Mandado de Penhora assinado pelo juiz da terceira vara cível da comarca de F., que me autoriza a entrar no apartamento, utilizando a força se necessário for, para apreender tantos bens quantos forem necessários para o pagamento do débito contraído pelo proprietário deste apartamento, junto ao banco B..

- Espera um instantinhodisse a voz feminina, assustada, fechando completamente a porta.
 Não transcorreram nem dez segundos em silêncio e gritos foram ouvidos do lado de dentro do apartamento:
 - Pai! Pai! Acorda, pai! Tem um homem do lado de fora dizendo que é oficial de justiça!
 Os gritos foram diminuindo, o apartamento foi ficando silencioso.

O sobrolho levantado, a testa contraída, Uchoa ficou olhando o teto. Visivelmente irritado, ainda teve que esperar por alguns minutos até que, finalmente, saísse do apartamento um homenzinho miúdo, rosto molhado, cabelos despenteados e cara de quem havia acabado de acordar.
- Bom dia! – disse ele.
- Bom dia. O senhor se chama Lucas Alves?perguntou Uchoa.
- Sou eu, sim.

Com uma das mãos entregou o mandado ao proprietário.

- Pois bem, como eu disse anteriormente, sou oficial de justiça e possuo aqui comigo uma ordem de penhora em desfavor do senhor. Tenha a bondade de mostrar o apartamento.
Alves, os olhos a saltar-lhe das órbitas, leu rapidamente o mandado; viu seu nome, o nome do banco e o tamanho da dívida, todos em negrito.
Sorrindo azedo, por alguns segundos colocou o seu olhar imóvel nos visitantes não convidados.
- Pois não! Façam o favor de entrar.
Cuidadosamente, os dois adentraram a sala. Uchoa, olhos atentos a todos os objetos da sala, anotava alguma coisa em uma prancheta, que tirou da maleta que trazia consigo.
- O senhor teria a bondade de nos mostrar o apartamento?perguntou novamente para o proprietário.
- Claro, pois não. Me acompanhem.
Não deu nem dois passos e parou. Desgostoso, olhou para os visitantes e disse:
- Os senhores vão que me desculpar a bagunça, mas é que eu não estava esperando por isso. Não faz nem dois dias que liguei para o banco para renegociar a dívida, eu consegui um emprego esses dias, eu ia pagar. precisava de mais tempo...
- Pelo visto eles decidiram não esperarinterrompeu Uchoa, com uma voz entediada, de quem estava habituado a ouvir essas coisas.Agora o senhor poderia nos mostrar os cômodos?
- Claro, pois não.

Alves, sorrindo azedo e esfregando as mãos, conduziu os visitantes pelo apartamento. Uchoa pôs os óculos e, com o jeito de um turista-conhecedor que examina coisas notáveis, passou a inspecionar a propriedade. Primeiro foram a cozinha, onde ele viu que os eletrodomésticos, apesar de antigos, estavam em boas condições. Procurou também por alguma prataria, mas não encontrou nada, somente um conjunto de pratos e copos de plástico vagabundo, sem qualquer valor comercial. De foram até o quarto da filha. O quarto era bonito, bem pintado, móveis planejados - sinal de que os proprietários passaram por tempos melhores - mas fora isso, não havia quase nada lá. Somente uma televisão e um som velho. Chegaram até ao quarto do casal. Este, igual aos outros, também não possuía muita coisa de valor. Próximo a cama, em um criado-mudo, havia o retrato de uma mulher. Curioso, o policial que acompanhava Uchoa perguntou ao proprietário:
- É sua mulher?
- É.
- Muito bonita, ela.
- Obrigado. Ela era muito bonita, mesmo. Essa foto ai foi tirado pouco tempo antes dela descobrir que estava doente.
- Doente de quê? – perguntou o policial, cada vez mais curioso e animado.
- Um tipo raro de câncer no intestino. Foram três anos de muita luta e dor. O plano de saúde não quis pagar o tratamento. Disse que era uma doença pré-existente. Tivemos que arcar sozinhos com tratamento. Tratamento caro... Remédio importado... Cada um deles custava pra mais de mil reais a cartela... Por isso tive que pedi um empréstimo no banco... Pouco tempo depois, acabei perdendo meu emprego, faltava demais por causa da doença dela...
- Bando de safados – disse indignado, o policial.

Uchoa, que até então revistava as gavetas em busca de alguma joia ou objeto de valor, resolveu interromper a conversa:
- Não incomode o homem, jôjô – disse para o policial.
E, virando-se para o proprietário, disse:
- Pronto, podemos ir para o quarto.

Chegaram, então, ao quarto do filho, que se parecia muito com o da irmã. Móveis planejados, bem pintado... Mas quase vazio. Em cima de um móvel, próximo a estante, Uchoa encontrou um vídeo-game de última geração. Ficou feliz. Juntando com ele, talvez conseguisse o valor quem o banco desejava receber. Talvez fosse ganhar aquela gratificação que o banco pagava por fora, toda vez que ele conseguia achar o valor que eles pediam.

Quase sem conseguir esconder a satisfação que sentia, Uchoa começou a mentalmente calcular o valor de todos os objetos encontrados no apartamento. As cadeiras, as mesas e o sofá da sala são de madeira boa, valem muito, ai deve ter uns quatro mil... Tem também os arranjos, os tapetes, a prataria, os castiçais... Acho que uns mil... Na cozinha, juntando tudo, uns dois paus...

O som de alguém chorando baixinho foi ouvido pelo quarto.

...No quarto da menina não tem muita coisa, mas acho que consigo alguma coisa pelos móveis, tudo planejado, trabalhado, madeira boa... mil e quinhentos paus deve valer, fora o som e a televisão... No quarto do pai tem a cama de casal, cama boa, vale muito, os quadros, os porta retrato, os móveis, acho que consigo uns dois paus... ai, juntado tudo, eu acho que quase os dez contos que eles me pediram, e ainda tem o quarto do menino que...

O que era um choro baixinho logo se transformou num berreiro gigante e fez com que Uchoa se perdesse nas contas. Visivelmente irritado, ele perguntou:
- Vem cá, quem é que tá chorando ai?
- É meu filho.
- Tá chorando por quê? Insistiu Uchoa.
- Por causa do vídeo-game.
- Que é que tem ele?
- Depois que a mãe dele morreu, ele ficou muito triste. Por isso, eu e minha filha nos juntamos e compramos esse vídeo-game pra ele de presente de aniversário. Ele ficou super feliz, foi a melhor coisa que aconteceu a ele nos últimos três anos. Ainda nem términos de pagá-lo...

Os soluços foram aumentando, o choro ia longe.

- Esses meninos são tudo doido por esse bixo. em casa, o meu também é doido por um bixo dessesdisse Uchoa, subitamente lembrando-se do seu filho.O chororô é tanto, que eu prometi até dar um desses de aniversário pra ele.

Uchoa ficou calado, pensativo. Coitado do menino, sofreu tanto na vida, bem que ele podia fingir que não viu o vídeo-game. Por outro lado, porém, ele tinha que consegui arrecadar pelo menos dez mil, se não era adeus comissão do banco. Dinheiro bom, tinha precisão dele. Lembrou-se, ainda, do filho e da promessa que havia feito a ele. Mentalmente, calculou novamente quanto havia de ter arrecado com os objetos. Com sorte, devia ter conseguido um pouco mais de dez mil. Mas ele não tinha certeza, calculou tudo de cabeça, alguns objetos estavam antigos, podia dar menos no leilão. O vídeo-game era a garantia que ao menos nos dez mil ele chegava. O que devia fazer então? Uchoa ficou frio... Cruel instante! Por que foi inventar de ser justamente oficial de justiça? Por que não estudou o suficiente pra ser juiz? Uma hora dessas, ia no gabinete, sem fazer nada...

Uma nuvem negra passou-lhe pelos olhos.

Sim, bem que ele podia fingir que não o vídeo-game do menino, mas isso poderia significar a perca da comissão que ele tanto esperava e contava.

O choro do menino ecoando pela sala.

Olhou para o pai e pro policial. Os dois lhe olhando. Olhares fixos, apreensivos, de quem estar a espera de um veredito.

O choro do menino ecoando pelos seus ouvidos.

Lembrou-se do filho. O aniversário dele tava chegando, era no próximo mês. O bixim ia ficar tão feliz se recebesse o vídeo-game de presente. A mulher iria parar de atanazar a mente. Ademais, ele prometeu, e promessa é promessa. Ficou decidido. Com uma das mãos pegou a caneta e anotou na prancheta: vídeo-game.

Depois, virou-se para o pai e disse:

- Às três horas o caminhão vem buscar os produtos.

Com uma das mãos fez um gesto chamando o policial e os dois foram caminhando até a saída. No caminho, em um dos quartos, encontraram o menino aos berros deitado no colo da irmã.

- Chora não, maninho, chora não! A gente compra outro desses pra vocêrepetia ela a toda hora, enquanto acariciava os cabelos do irmão.