domingo, 22 de agosto de 2010

O mendigo e a baleia

Em uma manhã muito fria, um homem velho encontra-se deitado sobre um pedaço de papelão. Ele está com muito sono, pois não conseguiu dormir bem durante a noite, sendo acordado por qualquer barulho, por menor que fosse. Dormir nas ruas nunca foi algo agradável e seguro para ele, no entanto, ultimamente, tornou-se algo insuportável e assustador, devido ao crescente número de violentes ataques a mendigos.

Após passar algum tempo deitado, o senhor decide levantar-se. O velho mendigo guarda o pedaço de papelão - que ele chama de ‘cama’-, e sai à procura de algo para comer. Ali perto há um grande depósito de lixo onde ele, talvez, encontre um pão velho ou uma fruta estragada para comer.

Aquele homem já vivia nas ruas há muitos anos, tantos, que ele já nem se lembrava com exatidão quantos eram. Com o tempo, ele acostumou-se a ser alguém invisível. Na verdade, ele até gostava de, na maioria das vezes, não ser notado, pois quando isso acontecia o único sentimento que ele provocava nas pessoas era o medo. Mas ele não as culpava.

Com o passar dos anos, ele acabou descuidando-se da aparência, ostentando, então, um cabelo desgrenhado com uma barba grande e medonha. Além disso, costumava usar roupas velhas e muito sujas. Tudo isso reunido dava-lhe um aspecto assustador. Mesmo com essa aparência assustadora o velho não sentia vontade de se cuidar, afinal “ninguém me enxerga mesmo” - ele pensava.

Certa vez, ele estava sentando na escadaria que dava acesso ao fórum da cidade, lugar freqüentado, como ele próprio costuma dizer, por doutores engravatados - a maioria passava pelo velho mendigo como se ele não estivesse ali -, até que repente um desses doutores aproximou-se dele e pediu-lhe informações sobre um local da cidade.

Ao perceber que ele fora notado, e logo por um doutor tão distinto como aquele, o velho instantaneamente levantou-se, inflou o peito e passou a mão gordurosa nos seus cabelos desgrenhados para deixá-los com uma aparência melhor. Ele que tem uma postura muito curvada, quase corcunda, manteve uma postura completamente ereta enquanto prestava as informações.

Depois de dada as informações, o doutor despediu–se do velho, que estava quase histérico de tanta alegria. Ao sair do fórum o mendigo dirigiu-se ao beco onde guardava as poucas coisas que possuía, chegando ao local ele cortou o cabelo e fez a barba; teria também trocado sua roupa esburacada por outra melhor se pudesse. Quando terminou, ele começou a pensar naquele doutor com quem acabará de conversar, “Com certeza é um doutor muito importante, provavelmente o mais importante deles”. Após esse dia o velho não cortou mais os cabelos e nem fez mais a barba.

Enquanto fazia uma de suas andanças pela cidade em busca de algo para comer, o velho passou em frente a uma grande loja de departamento. Na vitrine havia dezenas de televisões dos mais variados tamanhos e preços. As televisões estavam todas sintonizadas no noticiário que mostrava uma matéria sobre uma baleia que havia encalhado na praia.
O velho estava pronto para seguir o seu caminho, quando uma coisa chamou a sua atenção: havia um enorme número de pessoas, bombeiros, biólogos, ambientalistas e dezenas de transeuntes, todos dispostos a ajuda a baleia. O velho ficou parado, com um olhar perdido, durante toda a reportagem.

A cada dia que se passava, viver nas ruas tornava-se mais complicado, arranjar comida, agora, era mais difícil e ele estava ficando velho e cheio de doenças. Foi, então, que ele lembrou-se da reportagem sobre a baleia e teve uma grande idéia.

À noite ele foi para um depósito de lixo para começar a pôr o seu plano em prática. Primeiro ele pegou vários colchões velhos e um grande pedaço de lona. Durante vários dias o velho desenvolveu secretamente o seu plano: ele passava horas e horas no depósito de lixo trabalhando sobre as matérias-primas, o colchão e o pedaço de lona. Até que o grande dia chegou, aquilo em que ele tanto trabalhou finalmente ficou pronto.

Durante a madrugada o velho saiu do lixão em direção a praia carregando algo grande com dificuldade. Horas depois ele estava na praia mais movimentada e badalada da cidade, que naquele momento encontrava-se completamente vazia. Ele pegou o seu material: uma grande fantasia de baleia, e dirigiu-se para o meio da areia da praia, onde vestiu o disfarce e fingiu ser uma pequena baleia encalhada. Era uma fantasia de baleia toscamente trabalhada que ele construiu com os colchões e as lonas velhas.

Ele ficou lá parado, até que finalmente os primeiros freqüentadores da praia apareceram e o viram. Apesar de a fantasia ser muito tosca, as pessoas foram perfeitamente enganadas por ela e correram para ajudar o que pensaram ser um pobre filhote de baleia encalhado.

Horas depois já havia na praia todo tipo de gente dispostas à ajuda a pobre baleia. As pessoas tentaram devolver a baleia de todas as formas para o mar, mas ela insistia em voltar para a areia. Por isso, eles chegaram à conclusão de que ela deveria estar ferida e confusa, então resolveram que o melhor a ser feito seria levá-la a um centro de recuperação.

No centro de recuperação o velho disfarçado de baleia foi tratado de uma forma que ele nunca antes havia sido: ele foi bem alimentado, medicado e recebeu total atenção das pessoas ao seu redor. A sua farsa durou cerca de uma semana, até que um dos veterinários descobriu que aquilo não se tratava de uma pequena baleia ferida e sim de um homem velho e sujo.

As pessoas ficaram iradas com o mendigo. Como alguém poderia ser capaz de fazer um plano tão maquiavélico? Como alguém pode se fingir de um animal tão inocente e indefeso como uma baleia? E pior, como ele pôde desperdiçar o tempo e os recursos dessas pessoas?

A polícia foi chamada para conter a situação, levando-o para a delegacia. O caso chegou aos jornais, a população pedia a condenação do velho aproveitador. Por isso, o velho passou algumas semanas na cadeia, pois a polícia precisava dar uma resposta para a sociedade.

Nesse período ele teve o direito a três refeições diárias, algo que ele não tinha há muito tempo. Quando finalmente o caso esfriou, e os jornais pararam de noticiar sobre ele, o velho, a contragosto, pois depois de semanas sendo tão bem tratado e alimentado, foi solto.

Ps: o texto, em si, é uma porcaria, no entanto, gosto muito dele, pois foi um dos meus primeiros contos (e foi com ele que eu ganhei meu primeiro prêmio literário)

sábado, 27 de março de 2010

[Contos Reais] A coroa do rei

I

Antes de iniciar a narração desta história, faz-se necessário, para evitar longas e frívolas digressões, contar ao leitor um fato curioso sobre os reis da Rurânia. Os monarcas desse pequeno reino são conhecidos internacionalmente por nunca, em nenhuma hipótese, tirarem suas coroas reais da cabeça.

Sim, amigo leitor, por mais curioso que isso possa parecer, o Rei da Rurânia costuma dormir, comer e tomar banho com a coroa real na cabeça.

Mas qual será o motivo de tamanha extravagância? Existirá, por trás desse ato, algum motivo oculto? É o que o leitor mais curioso deve estar se perguntando agora.

Eu, de minha parte, vos peço calma. Limitar-me-ei a contar nas próximas páginas a história de um dos reis da Rurânia.

Deixarei, portanto, a cargo do amigo leitor, as respostas destas perguntas.

II

Eram pouco mais de nove horas da manha quando o Rei da Rurânia foi acordado, com alguma dificuldade, pelo seu fiel criado. Ao ser acordado de forma tão brusca, lançou em volta de si um olhar irritado e, com muito esforço, conseguiu levantar-se da cama.

Ao levantar-se, ainda de mau humor, o Rei dirigiu-se ao banheiro e lá, com um olhar atento, ficou se observando em frente ao espelho.

“Mais que bela coroa eu tenho. Existirá, em algum outro reino, alguma coroa mais bonita e bem cuidada que a minha? Não acredito. A minha é a mais bonita que já existiu nesse mundo.”, murmurava para consigo, todo orgulhoso.

Quase uma hora depois, ele finalmente saiu do banheiro, todo arrumado.

Em passos largos, pelo meio de uma fila de criados, o Rei caminhou até a sala, onde o seu café da manha real estava posto em uma grande mesa. Era de se ver o misto de curiosidade, respeito e devoção que se via nos rostos dos criados.

Enquanto comia, um barulho vindo do lado de fora do seu palácio, chamou sua atenção.

Com a mão direita, o Rei fez um gesto na direção do criado e este prontamente apareceu.

- O que se passa do lado de fora do meu palácio?

- O povo, majestade. O povo deseja lhe ver – respondeu com muito entusiasmo.

Saciada sua curiosidade, o Rei dispensou o criado e continuou a comer. Terminado o café da manha, levantou-se e caminhou, ainda comendo um biscoito, até a janela.

- Viva o Rei! Hurra! Viva o Rei! Hurra! – gritou ao lhe ver, a multidão enlouquecida que lhe aguardava do lado de fora do palácio.

Um pedaço do biscoito que o Rei tinha na mão caiu na rua, causando um alvoroço na multidão. Ao ver o alvoroço que isso provocara na multidão, o Rei ordenou que lhe trouxessem um prato cheio de biscoitos e despejou-o do alto da janela. As pessoas enlouquecidas se jogaram na direção dos biscoitos, muitas delas foram pisoteadas e agredidas.

A confusão gerada pelos biscoitos durou alguns minutos, e foi observada pelo Rei com muita satisfação. Somente quando todos os biscoitos foram comidos ou destruídos, é que a multidão se acalmou e novamente voltou a gritar em direção do Rei.

- Viva o Rei! Hurra! Viva o Rei! Hurra!

Em todos os rostos havia o mesmo entusiasmo e devoção. Algumas pessoas na multidão choravam copiosamente.

- Hurra! Hurra! Viva o Rei! – continuou a gritar a multidão.

Passado alguns minutos, o Rei, farto daquele espetáculo, recolheu-se e a multidão começou a se dispersar.

III

Durante a tarde, o Rei limpava cuidadosamente a sua coroa, em um ritual que se repetia todos os dias. Enquanto isso se lembrava das palavras que seu finado pai, o antigo Rei da Rurânia, disse-lhe no leito de morte: “Meu filho, não importa o que aconteça, nunca, em nenhuma hipótese, tire a coroa de sua cabeça. Durma, coma, tome banho, faça tudo com ela na cabeça.”.

Ele nunca entendeu o motivo daquele conselho, mas vem cumprindo-o a risca há mais de vinte anos.

Pensativo, nem reparou a chegada do criado, que vinha lhe trazer um aviso.

- Meu Rei amado, os cavalos para o seu passeio já estão prontos e a sua espera.

- Já estou indo – respondeu o rei, colocando apressadamente coroa, para que o criado não o visse sem ela na cabeça.

Com a coroa na cabeça, o Rei saiu, juntamente com o seu criado, em direção ao estábulo do palácio, de onde saiu sozinho, pouco tempo depois, montado em seu belo cavalo branco.

Ele costumava cavalgar, sempre sozinho, pelos arredores do palácio todas as tardes.

Fazia um dia lindo, claro e não quente demais. Um vento alegre e fresco ia de encontro ao seu rosto, trazendo-lhe uma intensa sensação de prazer. Por isso, ele acabou cavalgando por horas e horas.

Somente quando o sol já estava próximo de se pôr e a estrela vespertina começava a surgir no céu, é que o Rei resolveu voltar para o seu palácio.

Na volta, como já estava quase escurecendo, ele decidiu pegar um atalho que passava ao lado de um desfiladeiro. Durante a travessia, um rato surgiu na sua frente, fazendo com que o cavalo se assustasse e empinasse várias vezes, quase lhe derrubando.

Com muito esforço, ele conseguiu domar o cavalo, e retomou o caminhou de casa. Porém, algum tempo depois, já perto de casa, percebeu que alguma coisa estava errada e parou o cavalo. Passou rapidamente a mão pela cabeça e, espantado, percebeu que havia perdido a sua coroa, provavelmente ela havia caído enquanto ele tentava controlar o cavalo.

Ficou branco, o sangue lhe fugiu da face.

Voltou o mais rápido que pôde para o local onde o cavalo havia se assustado com o rato. Ao chegar, iniciou uma busca desesperada pela sua coroa, mas sua busca se mostrou infrutífera, ela havia sumido, provavelmente havia caído no desfiladeiro.

Já havia escurecido quando ele desistiu de procurá-la e iniciou o penoso caminhou de volta para o palácio. Lembrou-se durante todo o caminho da derradeira conversa que havia tido com o seu pai. “Nunca tire a coroa da sua cabeça ou coisas ruins podem lhe acontecer”, disse o velho rei, minutos antes de morrer.

“Que coisas ruins seriam essas? O que a falta de uma coroa pode significar? Por que eu estou me preocupando com isso? Tudo isso são bobagens ditas por um velho louco à beira da morte. Tudo isso são tolices, não há de acontecer nada.”, pensou durante o caminho.

IV

No dia seguinte, o Rei acordou tarde, muito tempo após o seu horário habitual. Pela primeira vez, nos últimos vinte anos, o seu fiel criado não apareceu para lhe acordar. Por causa disso, levantou-se de péssimo humor. Em passos apressados, saiu do quarto em direção a sala.

Faminto, ele esperava encontrar o café da manha real já posto a mesa.

Pelo caminho encontrou alguns criados, mas dessa vez havia algo de errado com eles. Em seus rostos não se via mais o respeito e a admiração que lhes eram tão característicos.

Quando chegou a sala, viu a mesa vazia. Ficou irado, o sangue lhe ferveu na cabeça. Como costuma acontecer muitas vezes com os homens impulsivos, o Rei não podia dominar a cólera que o tomava, embora procurasse ainda sobre quem lançá-la.

Acabou escolhendo o fiel criado.

Vermelho de raiva passou a procurá-lo em todos os cômodos do palácio. Quase uma hora depois, ele finalmente o encontrou, do lado de fora do palácio, conversando com um guarda real.

- Seu inútil, onde você estava? – disse gritando. – Por que não me acordou? Por que meu café não está pronto?

O criado fingiu que não escutou aquelas injurias proferidas pelo Rei e continuou a sua conversa com o guarda.

Trêmulo dos pés a cabeça, ofegante, tamanha era a ira do Rei, que ele parecia capaz de se rolar no chão, num ataque de raiva.

- Por que você está me ignorando, seu inútil? Ficou louco, por acaso? Eu sou o seu rei, me obedeça agora.

O criado novamente o ignorou, e continuou a sua conversa. Dominado pela cólera, o Rei se lançou sobre o Criado, de punhos erguidos, gritando e cobrindo-o de grosseira injurias.

- Seu desgraçado, como ousa me ignorar? Seu inútil, você não serve para nada. Até um cachorro seria um melhor criado – dizia ele para o criado.

Enquanto gritava, o Rei parecia sofrer uma dor física. Como era possível que ele, o magnânimo rei da Rurânia, homem com poderes como ainda outro não tivera em todo o reino, se visse numa situação dessas, ridicularizado por um criado qualquer? E a dor física que sentia era a mesma que se lhe tivessem aplicado um castigo corporal. Não podia deixar de soltar gritos de raiva e dor. Não tardou, porém, que as forças o abandonassem, e compreendendo então que se zangara demais, voltou-se para o guarda e disse:

- Prenda esse homem! – disse apontando para o criado.

Mas para a sua surpresa e total desespero, o guarda não só não prendeu o criado, como lhe prendeu e o levou para o centro de polícia local.

Quando chegou ao local, o guarda disse ao chefe de polícia.

- Prendi esse homem por querer se passar por nosso amado rei.

- Mas eu sou o seu amado Rei – disse com uma expressão de ira. - Não estão me reconhecendo? – perguntou incrédulo. - De todo modo, vou ordenar que você seja morto e jogado aos cães – disse para o guarda que lhe prendeu.

- Está vendo chefe? O lunático acha que é o nosso amado rei – disse rindo, o guarda.

- Levem esse impostor para a cela – gritou o chefe de polícia. – Antes que eu perca a cabeça e lhe de uma lição aqui mesmo. Onde já se viu querer se passar pelo nosso rei? Onde está o respeito desse povo? – resmungou por fim.

O guarda carregou o Rei pelo braço e o jogou em uma cela, tendo ele ficado trancafiado lá, sem comer, durante todo o dia. A noite recebeu um pouco de comida: um pão velho e uma sopa de repolho. Quase de madrugada, foi avisado pelo chefe de polícia que o juiz do lugar havia sido chamado e já havia marcado o julgamento do seu caso para da-li uma semana.

O Rei não conseguiu dormir essa noite.

Durante a madrugada, enquanto estava deitado na péssima cama da cela, um pensamento o atormentava constantemente.

“Nunca tire a coroa da sua cabeça ou coisas ruins podem lhe acontecer”.

V

Uma semana depois, ele foi levado para ser julgado no tribunal, sob a acusação de tentar se passar por rei.

O caso chamou a atenção de todo o reino e uma multidão se aglomerou do lado de fora do tribunal à espera do acusado.

Quando chegou ao tribunal, para entrar no prédio, o Rei teve que passar pelo meio da multidão. Enquanto passava, sofreu inúmeras injurias e até algumas tentativas de agressões, por parte da mesma população que, há pouco mais de uma semana atrás, gritava juras de amor a ele.

“Estas pessoas há pouco mais de uma semana me idolatravam, agora estão me injuriando. O que mudou nesse tempo? Tudo isso por causa de uma simples coroa?”, indagou-se antes de entrar no prédio.

Assim que entrou, o Rei foi posto em uma cadeira, de onde pôde ver o interrogatório de todas as testemunhas do caso.

As testemunhas consistiam basicamente em empregados do palácio. O juiz, ao interrogá-las, fez a todas elas a mesma pergunta: conheciam ou não aquele homem que dizia ser o Rei da Rurânia? Todas, para o desespero do Rei, responderam a mesma coisa: não.

Quase quatro horas de julgamento já haviam se passado quando o juiz chamou para depor o fiel criado do Rei: a mais importante, e última testemunha do caso.

- Você trabalha no palácio real? – perguntou o juiz.

- Sim, senhor.

- Há quantos anos?

- Mais de vinte.

- Vinte anos? Então podemos dizer que o senhor conhece muito bem o rei.

- Conheço sim, senhor.

- Então, com todo o seu conhecimento, você é capaz de afirmar que esse homem ali sentando, não é o nosso amado Rei – disse o juiz, apontando para o Rei.

- Com toda certeza.

- Mas isso é um absurdo – vociferou o Rei. – Ele está mentindo. Não é possível que você não esteja me reconhecendo. Sou eu, seu amado rei.

- Você não é meu amado Rei. O meu Rei era forte, belo, inteligente, magnânimo e possuía uma bela coroa. Já você não passa de um homem feio e gordo, além de tudo mentiroso – disse com desdém.

- Meu Deus, como isso é possível? – disse o Rei, com uma voz desesperada. – Como vocês não me reconhecem? Sou eu, seu amado Rei. Eu só perdi a maldita coroa. Como pode uma coroa fazer tanta diferença assim? – disse chorando.

O Rei ainda tentou argumentar de todos os modos, mas todo o seu esforço foi em vão, no final ele acabou sendo condenando a morte, por enforcamento.

A sentença foi aplicada no mesmo dia.

VI

Do outro lado da cidade, no mesmo dia em que o Rei era enforcado, um cachorro vira-lata passeava pelos arredores da cidade em busca de comida. Era um cachorro de porte médio, muito sujo e magro, cheio de pulgas e carrapatos, vazado de um olho e cheio de sardas por todo o corpo.

Na sua procura por comida, o vira-lata deu a sorte de encontrar a coroa real. Curioso, ficou um bom tempo cheirando e mexendo aquele objeto brilhante. Sem querer, enquanto mexia nela, a coroa ficou presa em sua cabeça.

O cachorro tentou de todas as maneiras tirá-la de lá, mas todos os seus esforços foram em vão. A coroa estava muito bem presa em sua cabeça.

O vira-lata passou horas e horas procurando comida nos arredores da cidade e não encontrou quase nada.

Cansado e faminto, o cachorro, ainda com a coroa na cabeça, voltou para cidade.

Assim que entrou na cidade, ele foi visto por um dos guardas reais. Esse, ao ver o cachorro com a coroa, correu com lágrimas nos olhos na sua direção.

Chorando muito, o guarda pegou o cachorro com as mãos e correu imediatamente para o palácio. No palácio, entregou o vira-lata para o criado do Rei. Este por sua vez, pegou o vira-lata e, chorando, levou-o para o quarto real, onde pôs o vira-lata para dormir.

No outro dia, eram pouco mais de nove horas da manha, quando o vira-lata foi acordado pelo criado e avisado que o café da manha já estava pronto.

Enquanto o cachorro comia vorazmente o café da manha real, o povo, que havia sido avisado da volta do rei, aglomerou-se do lado de fora do palácio e se pôs a gritar, comemorando o retorno do monarca.

- Viva o Rei! Hurra! Viva o Rei! Hurra!

O criado, ao escutar os gritos do povo, dirigiu-se até o vira-lata e cheio de entusiasmo lhe avisou:

- O povo, majestade. O povo deseja lhe ver.

Satisfeito depois de comer o seu café da manha, o cão dirigiu-se até a varanda, onde encontrou com o povo que, ao lhe ver, fez um imenso silêncio.

Com um olhar curioso, o vira-lata olhou para multidão do lado de fora do palácio e, com uma das patas, coçou sua orelha cheia de carrapatos e pulgas, antes de dizer suas primeiras palavras como rei.

- AU!AU!

O povo foi ao delírio.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Entre a morte e a glória

Cresceu lendo romances.

Desde criança já sonhava com uma morte gloriosa, como as dos heróis dos livros que lia. “Morrerei de amor, como Romeu. Não, melhor, morrerei defendendo minha amada das garras de um malfeitor.”, dizia para consigo, cheio de entusiasmo, a cada novo romance lido na infância.

Veio a adolescência. Decidiu que agora queria morrer servindo o seu país. “Morrerei lutando em uma guerra sangrenta. Na batalha final, a decisiva, aquela que selará o destino dos homens, eu serei cercado por meus inimigos. Mas não me renderei. Vou morrer lutando e meu sacrifício servirá para inspirar meus colegas de armas e, assim, venceremos a guerra. Depois disso, serei enterrado com honras. Virarei um herói nacional, nome de rua, praça, bairro... Quem sabe até de cidade.”, pensava cheio de orgulho, durante as aulas de história.

Olhava com desprezo para os colegas de sala. “Todos esses que ai estão, morrerão de acidentes, doenças, velhice... Morte lenta, sem graça, sem glória... Morrerão esquecidos, cheio de dores e sofrimento. Enquanto isso, eu morrerei cedo, jovem, mas cheio de glória. Virarei um herói para as gerações futuras, enquanto eles serão esquecidos pela história.”, dizia para si mesmo, com um sorriso no rosto.

Cresceu. Veio a primeira namorada, a faculdade, o primeiro emprego. Casou. Teve filhos, virou um pai de família amoroso e responsável.

Um dia, ao voltar do trabalho, recebeu um pedido da filha mais nova. Menina dos seus seis anos, de lindos olhos pretos, a preferida do pai...

- Papai, antes de eu dormir, ler uma historinha pá eu?

Como resistir a aqueles olhinhos brilhantes? Ele não sabia. Pediu um momentinho a filha e foi procurar alguma coisa para ler. Achou em uma caixa, jogada em um dos quartos, os velhos romances de infância.

Com um livro em mãos, foi para o quarto da filha.

Era de se ver a cara de angustia, medo, raiva e alegria que a pequena fazia a cada nova passagem do livro.

- Papai, eu te amo! Eu te amo! – disse a menininha, sentada no colo do pai, quando este terminou de ler o livro.

Ao escutar isso, ele, que estava com a filha nos braços, ergueu os olhos para ela e, ao ver o embaraço que se pintava em seu rosto, entrelaçou-a com o outro braço, beijou-lhe o cabelo e disse:

- Eu também!

- Tomou-a, então, nos braços, ergueu-a no ar, empoleirou-a nos ombros, segurou-a pelas pernas e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.

Nesse momento, pai e filha estavam no céu. Seria impossível, achar em todo o planeta, alguém mais feliz que os dois.

- Papai, eu te amo, papai! Papai, eu te amo! – dizia a pequena, toda sorridente, empoleirada em seus ombros.

Entregou-se, a um galope, à volta do quarto, com a filha a cavalo. Quando ficou sem fôlego, tirou-a dos ombros e apertou-a contra o peito. Os passos que acabara de dar lembravam-lhe passos de baile e ao contemplar aquele rostinho redondo e resplandecente de alegria pensou no que ela viria ser mais tarde, quando ele, já velho, levasse-a ao baile de quinze anos.

E ao pensar nisso, sorriu.

“Ah! Nunca, nunca em minha vida pensei que alguém pudesse ser tão feliz, com algo tão simples!”, disse para consigo, sorridente.

Pôs a pequena para dormir, deu-lhe um beijo, desejou-lhe boa noite e foi para o seu quarto. Lá, deitado em sua cama, lembrou-se dos antigos devaneios de infância. “O que existe entre a morte e a glória?”, indagou-se. Um turbilhão de imagens surgiu em sua mente: as viagens, os amigos, a esposa, os filhos...

Riu de si mesmo.

- Como eu era tolo nessa época - murmurou baixinho.

Ficou com sono. Pesaram-lhe as pálpebras.

- Boa noite, meu amor – disse para a esposa.

- Boa noite – respondeu ela, dando-lhe um abraço e um beijo.

Dormiu feliz, satisfeito com a sua vida.