quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Entre a morte e a glória

Cresceu lendo romances.

Desde criança já sonhava com uma morte gloriosa, como as dos heróis dos livros que lia. “Morrerei de amor, como Romeu. Não, melhor, morrerei defendendo minha amada das garras de um malfeitor.”, dizia para consigo, cheio de entusiasmo, a cada novo romance lido na infância.

Veio a adolescência. Decidiu que agora queria morrer servindo o seu país. “Morrerei lutando em uma guerra sangrenta. Na batalha final, a decisiva, aquela que selará o destino dos homens, eu serei cercado por meus inimigos. Mas não me renderei. Vou morrer lutando e meu sacrifício servirá para inspirar meus colegas de armas e, assim, venceremos a guerra. Depois disso, serei enterrado com honras. Virarei um herói nacional, nome de rua, praça, bairro... Quem sabe até de cidade.”, pensava cheio de orgulho, durante as aulas de história.

Olhava com desprezo para os colegas de sala. “Todos esses que ai estão, morrerão de acidentes, doenças, velhice... Morte lenta, sem graça, sem glória... Morrerão esquecidos, cheio de dores e sofrimento. Enquanto isso, eu morrerei cedo, jovem, mas cheio de glória. Virarei um herói para as gerações futuras, enquanto eles serão esquecidos pela história.”, dizia para si mesmo, com um sorriso no rosto.

Cresceu. Veio a primeira namorada, a faculdade, o primeiro emprego. Casou. Teve filhos, virou um pai de família amoroso e responsável.

Um dia, ao voltar do trabalho, recebeu um pedido da filha mais nova. Menina dos seus seis anos, de lindos olhos pretos, a preferida do pai...

- Papai, antes de eu dormir, ler uma historinha pá eu?

Como resistir a aqueles olhinhos brilhantes? Ele não sabia. Pediu um momentinho a filha e foi procurar alguma coisa para ler. Achou em uma caixa, jogada em um dos quartos, os velhos romances de infância.

Com um livro em mãos, foi para o quarto da filha.

Era de se ver a cara de angustia, medo, raiva e alegria que a pequena fazia a cada nova passagem do livro.

- Papai, eu te amo! Eu te amo! – disse a menininha, sentada no colo do pai, quando este terminou de ler o livro.

Ao escutar isso, ele, que estava com a filha nos braços, ergueu os olhos para ela e, ao ver o embaraço que se pintava em seu rosto, entrelaçou-a com o outro braço, beijou-lhe o cabelo e disse:

- Eu também!

- Tomou-a, então, nos braços, ergueu-a no ar, empoleirou-a nos ombros, segurou-a pelas pernas e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.

Nesse momento, pai e filha estavam no céu. Seria impossível, achar em todo o planeta, alguém mais feliz que os dois.

- Papai, eu te amo, papai! Papai, eu te amo! – dizia a pequena, toda sorridente, empoleirada em seus ombros.

Entregou-se, a um galope, à volta do quarto, com a filha a cavalo. Quando ficou sem fôlego, tirou-a dos ombros e apertou-a contra o peito. Os passos que acabara de dar lembravam-lhe passos de baile e ao contemplar aquele rostinho redondo e resplandecente de alegria pensou no que ela viria ser mais tarde, quando ele, já velho, levasse-a ao baile de quinze anos.

E ao pensar nisso, sorriu.

“Ah! Nunca, nunca em minha vida pensei que alguém pudesse ser tão feliz, com algo tão simples!”, disse para consigo, sorridente.

Pôs a pequena para dormir, deu-lhe um beijo, desejou-lhe boa noite e foi para o seu quarto. Lá, deitado em sua cama, lembrou-se dos antigos devaneios de infância. “O que existe entre a morte e a glória?”, indagou-se. Um turbilhão de imagens surgiu em sua mente: as viagens, os amigos, a esposa, os filhos...

Riu de si mesmo.

- Como eu era tolo nessa época - murmurou baixinho.

Ficou com sono. Pesaram-lhe as pálpebras.

- Boa noite, meu amor – disse para a esposa.

- Boa noite – respondeu ela, dando-lhe um abraço e um beijo.

Dormiu feliz, satisfeito com a sua vida.

6 comentários:

  1. Realmente, as coisas simples da vida, fazem toda diferença! Belo texto, um beijo.

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  2. " o que existe entre a morte e a glória?". de fato.

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  3. Momento menininha boba: Que texto lindinho! =)

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  4. Obrigada por passar pelo meu blog.

    Incrível, tão singelo!
    Belo texto!


    Adorei seu blog.

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  5. Me vi no começo da história (ainda faço faculdade). Não lia muito, mas lia, e o livro querendo ou não, influencia na sua vida.

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