sábado, 27 de março de 2010

[Contos Reais] A coroa do rei

I

Antes de iniciar a narração desta história, faz-se necessário, para evitar longas e frívolas digressões, contar ao leitor um fato curioso sobre os reis da Rurânia. Os monarcas desse pequeno reino são conhecidos internacionalmente por nunca, em nenhuma hipótese, tirarem suas coroas reais da cabeça.

Sim, amigo leitor, por mais curioso que isso possa parecer, o Rei da Rurânia costuma dormir, comer e tomar banho com a coroa real na cabeça.

Mas qual será o motivo de tamanha extravagância? Existirá, por trás desse ato, algum motivo oculto? É o que o leitor mais curioso deve estar se perguntando agora.

Eu, de minha parte, vos peço calma. Limitar-me-ei a contar nas próximas páginas a história de um dos reis da Rurânia.

Deixarei, portanto, a cargo do amigo leitor, as respostas destas perguntas.

II

Eram pouco mais de nove horas da manha quando o Rei da Rurânia foi acordado, com alguma dificuldade, pelo seu fiel criado. Ao ser acordado de forma tão brusca, lançou em volta de si um olhar irritado e, com muito esforço, conseguiu levantar-se da cama.

Ao levantar-se, ainda de mau humor, o Rei dirigiu-se ao banheiro e lá, com um olhar atento, ficou se observando em frente ao espelho.

“Mais que bela coroa eu tenho. Existirá, em algum outro reino, alguma coroa mais bonita e bem cuidada que a minha? Não acredito. A minha é a mais bonita que já existiu nesse mundo.”, murmurava para consigo, todo orgulhoso.

Quase uma hora depois, ele finalmente saiu do banheiro, todo arrumado.

Em passos largos, pelo meio de uma fila de criados, o Rei caminhou até a sala, onde o seu café da manha real estava posto em uma grande mesa. Era de se ver o misto de curiosidade, respeito e devoção que se via nos rostos dos criados.

Enquanto comia, um barulho vindo do lado de fora do seu palácio, chamou sua atenção.

Com a mão direita, o Rei fez um gesto na direção do criado e este prontamente apareceu.

- O que se passa do lado de fora do meu palácio?

- O povo, majestade. O povo deseja lhe ver – respondeu com muito entusiasmo.

Saciada sua curiosidade, o Rei dispensou o criado e continuou a comer. Terminado o café da manha, levantou-se e caminhou, ainda comendo um biscoito, até a janela.

- Viva o Rei! Hurra! Viva o Rei! Hurra! – gritou ao lhe ver, a multidão enlouquecida que lhe aguardava do lado de fora do palácio.

Um pedaço do biscoito que o Rei tinha na mão caiu na rua, causando um alvoroço na multidão. Ao ver o alvoroço que isso provocara na multidão, o Rei ordenou que lhe trouxessem um prato cheio de biscoitos e despejou-o do alto da janela. As pessoas enlouquecidas se jogaram na direção dos biscoitos, muitas delas foram pisoteadas e agredidas.

A confusão gerada pelos biscoitos durou alguns minutos, e foi observada pelo Rei com muita satisfação. Somente quando todos os biscoitos foram comidos ou destruídos, é que a multidão se acalmou e novamente voltou a gritar em direção do Rei.

- Viva o Rei! Hurra! Viva o Rei! Hurra!

Em todos os rostos havia o mesmo entusiasmo e devoção. Algumas pessoas na multidão choravam copiosamente.

- Hurra! Hurra! Viva o Rei! – continuou a gritar a multidão.

Passado alguns minutos, o Rei, farto daquele espetáculo, recolheu-se e a multidão começou a se dispersar.

III

Durante a tarde, o Rei limpava cuidadosamente a sua coroa, em um ritual que se repetia todos os dias. Enquanto isso se lembrava das palavras que seu finado pai, o antigo Rei da Rurânia, disse-lhe no leito de morte: “Meu filho, não importa o que aconteça, nunca, em nenhuma hipótese, tire a coroa de sua cabeça. Durma, coma, tome banho, faça tudo com ela na cabeça.”.

Ele nunca entendeu o motivo daquele conselho, mas vem cumprindo-o a risca há mais de vinte anos.

Pensativo, nem reparou a chegada do criado, que vinha lhe trazer um aviso.

- Meu Rei amado, os cavalos para o seu passeio já estão prontos e a sua espera.

- Já estou indo – respondeu o rei, colocando apressadamente coroa, para que o criado não o visse sem ela na cabeça.

Com a coroa na cabeça, o Rei saiu, juntamente com o seu criado, em direção ao estábulo do palácio, de onde saiu sozinho, pouco tempo depois, montado em seu belo cavalo branco.

Ele costumava cavalgar, sempre sozinho, pelos arredores do palácio todas as tardes.

Fazia um dia lindo, claro e não quente demais. Um vento alegre e fresco ia de encontro ao seu rosto, trazendo-lhe uma intensa sensação de prazer. Por isso, ele acabou cavalgando por horas e horas.

Somente quando o sol já estava próximo de se pôr e a estrela vespertina começava a surgir no céu, é que o Rei resolveu voltar para o seu palácio.

Na volta, como já estava quase escurecendo, ele decidiu pegar um atalho que passava ao lado de um desfiladeiro. Durante a travessia, um rato surgiu na sua frente, fazendo com que o cavalo se assustasse e empinasse várias vezes, quase lhe derrubando.

Com muito esforço, ele conseguiu domar o cavalo, e retomou o caminhou de casa. Porém, algum tempo depois, já perto de casa, percebeu que alguma coisa estava errada e parou o cavalo. Passou rapidamente a mão pela cabeça e, espantado, percebeu que havia perdido a sua coroa, provavelmente ela havia caído enquanto ele tentava controlar o cavalo.

Ficou branco, o sangue lhe fugiu da face.

Voltou o mais rápido que pôde para o local onde o cavalo havia se assustado com o rato. Ao chegar, iniciou uma busca desesperada pela sua coroa, mas sua busca se mostrou infrutífera, ela havia sumido, provavelmente havia caído no desfiladeiro.

Já havia escurecido quando ele desistiu de procurá-la e iniciou o penoso caminhou de volta para o palácio. Lembrou-se durante todo o caminho da derradeira conversa que havia tido com o seu pai. “Nunca tire a coroa da sua cabeça ou coisas ruins podem lhe acontecer”, disse o velho rei, minutos antes de morrer.

“Que coisas ruins seriam essas? O que a falta de uma coroa pode significar? Por que eu estou me preocupando com isso? Tudo isso são bobagens ditas por um velho louco à beira da morte. Tudo isso são tolices, não há de acontecer nada.”, pensou durante o caminho.

IV

No dia seguinte, o Rei acordou tarde, muito tempo após o seu horário habitual. Pela primeira vez, nos últimos vinte anos, o seu fiel criado não apareceu para lhe acordar. Por causa disso, levantou-se de péssimo humor. Em passos apressados, saiu do quarto em direção a sala.

Faminto, ele esperava encontrar o café da manha real já posto a mesa.

Pelo caminho encontrou alguns criados, mas dessa vez havia algo de errado com eles. Em seus rostos não se via mais o respeito e a admiração que lhes eram tão característicos.

Quando chegou a sala, viu a mesa vazia. Ficou irado, o sangue lhe ferveu na cabeça. Como costuma acontecer muitas vezes com os homens impulsivos, o Rei não podia dominar a cólera que o tomava, embora procurasse ainda sobre quem lançá-la.

Acabou escolhendo o fiel criado.

Vermelho de raiva passou a procurá-lo em todos os cômodos do palácio. Quase uma hora depois, ele finalmente o encontrou, do lado de fora do palácio, conversando com um guarda real.

- Seu inútil, onde você estava? – disse gritando. – Por que não me acordou? Por que meu café não está pronto?

O criado fingiu que não escutou aquelas injurias proferidas pelo Rei e continuou a sua conversa com o guarda.

Trêmulo dos pés a cabeça, ofegante, tamanha era a ira do Rei, que ele parecia capaz de se rolar no chão, num ataque de raiva.

- Por que você está me ignorando, seu inútil? Ficou louco, por acaso? Eu sou o seu rei, me obedeça agora.

O criado novamente o ignorou, e continuou a sua conversa. Dominado pela cólera, o Rei se lançou sobre o Criado, de punhos erguidos, gritando e cobrindo-o de grosseira injurias.

- Seu desgraçado, como ousa me ignorar? Seu inútil, você não serve para nada. Até um cachorro seria um melhor criado – dizia ele para o criado.

Enquanto gritava, o Rei parecia sofrer uma dor física. Como era possível que ele, o magnânimo rei da Rurânia, homem com poderes como ainda outro não tivera em todo o reino, se visse numa situação dessas, ridicularizado por um criado qualquer? E a dor física que sentia era a mesma que se lhe tivessem aplicado um castigo corporal. Não podia deixar de soltar gritos de raiva e dor. Não tardou, porém, que as forças o abandonassem, e compreendendo então que se zangara demais, voltou-se para o guarda e disse:

- Prenda esse homem! – disse apontando para o criado.

Mas para a sua surpresa e total desespero, o guarda não só não prendeu o criado, como lhe prendeu e o levou para o centro de polícia local.

Quando chegou ao local, o guarda disse ao chefe de polícia.

- Prendi esse homem por querer se passar por nosso amado rei.

- Mas eu sou o seu amado Rei – disse com uma expressão de ira. - Não estão me reconhecendo? – perguntou incrédulo. - De todo modo, vou ordenar que você seja morto e jogado aos cães – disse para o guarda que lhe prendeu.

- Está vendo chefe? O lunático acha que é o nosso amado rei – disse rindo, o guarda.

- Levem esse impostor para a cela – gritou o chefe de polícia. – Antes que eu perca a cabeça e lhe de uma lição aqui mesmo. Onde já se viu querer se passar pelo nosso rei? Onde está o respeito desse povo? – resmungou por fim.

O guarda carregou o Rei pelo braço e o jogou em uma cela, tendo ele ficado trancafiado lá, sem comer, durante todo o dia. A noite recebeu um pouco de comida: um pão velho e uma sopa de repolho. Quase de madrugada, foi avisado pelo chefe de polícia que o juiz do lugar havia sido chamado e já havia marcado o julgamento do seu caso para da-li uma semana.

O Rei não conseguiu dormir essa noite.

Durante a madrugada, enquanto estava deitado na péssima cama da cela, um pensamento o atormentava constantemente.

“Nunca tire a coroa da sua cabeça ou coisas ruins podem lhe acontecer”.

V

Uma semana depois, ele foi levado para ser julgado no tribunal, sob a acusação de tentar se passar por rei.

O caso chamou a atenção de todo o reino e uma multidão se aglomerou do lado de fora do tribunal à espera do acusado.

Quando chegou ao tribunal, para entrar no prédio, o Rei teve que passar pelo meio da multidão. Enquanto passava, sofreu inúmeras injurias e até algumas tentativas de agressões, por parte da mesma população que, há pouco mais de uma semana atrás, gritava juras de amor a ele.

“Estas pessoas há pouco mais de uma semana me idolatravam, agora estão me injuriando. O que mudou nesse tempo? Tudo isso por causa de uma simples coroa?”, indagou-se antes de entrar no prédio.

Assim que entrou, o Rei foi posto em uma cadeira, de onde pôde ver o interrogatório de todas as testemunhas do caso.

As testemunhas consistiam basicamente em empregados do palácio. O juiz, ao interrogá-las, fez a todas elas a mesma pergunta: conheciam ou não aquele homem que dizia ser o Rei da Rurânia? Todas, para o desespero do Rei, responderam a mesma coisa: não.

Quase quatro horas de julgamento já haviam se passado quando o juiz chamou para depor o fiel criado do Rei: a mais importante, e última testemunha do caso.

- Você trabalha no palácio real? – perguntou o juiz.

- Sim, senhor.

- Há quantos anos?

- Mais de vinte.

- Vinte anos? Então podemos dizer que o senhor conhece muito bem o rei.

- Conheço sim, senhor.

- Então, com todo o seu conhecimento, você é capaz de afirmar que esse homem ali sentando, não é o nosso amado Rei – disse o juiz, apontando para o Rei.

- Com toda certeza.

- Mas isso é um absurdo – vociferou o Rei. – Ele está mentindo. Não é possível que você não esteja me reconhecendo. Sou eu, seu amado rei.

- Você não é meu amado Rei. O meu Rei era forte, belo, inteligente, magnânimo e possuía uma bela coroa. Já você não passa de um homem feio e gordo, além de tudo mentiroso – disse com desdém.

- Meu Deus, como isso é possível? – disse o Rei, com uma voz desesperada. – Como vocês não me reconhecem? Sou eu, seu amado Rei. Eu só perdi a maldita coroa. Como pode uma coroa fazer tanta diferença assim? – disse chorando.

O Rei ainda tentou argumentar de todos os modos, mas todo o seu esforço foi em vão, no final ele acabou sendo condenando a morte, por enforcamento.

A sentença foi aplicada no mesmo dia.

VI

Do outro lado da cidade, no mesmo dia em que o Rei era enforcado, um cachorro vira-lata passeava pelos arredores da cidade em busca de comida. Era um cachorro de porte médio, muito sujo e magro, cheio de pulgas e carrapatos, vazado de um olho e cheio de sardas por todo o corpo.

Na sua procura por comida, o vira-lata deu a sorte de encontrar a coroa real. Curioso, ficou um bom tempo cheirando e mexendo aquele objeto brilhante. Sem querer, enquanto mexia nela, a coroa ficou presa em sua cabeça.

O cachorro tentou de todas as maneiras tirá-la de lá, mas todos os seus esforços foram em vão. A coroa estava muito bem presa em sua cabeça.

O vira-lata passou horas e horas procurando comida nos arredores da cidade e não encontrou quase nada.

Cansado e faminto, o cachorro, ainda com a coroa na cabeça, voltou para cidade.

Assim que entrou na cidade, ele foi visto por um dos guardas reais. Esse, ao ver o cachorro com a coroa, correu com lágrimas nos olhos na sua direção.

Chorando muito, o guarda pegou o cachorro com as mãos e correu imediatamente para o palácio. No palácio, entregou o vira-lata para o criado do Rei. Este por sua vez, pegou o vira-lata e, chorando, levou-o para o quarto real, onde pôs o vira-lata para dormir.

No outro dia, eram pouco mais de nove horas da manha, quando o vira-lata foi acordado pelo criado e avisado que o café da manha já estava pronto.

Enquanto o cachorro comia vorazmente o café da manha real, o povo, que havia sido avisado da volta do rei, aglomerou-se do lado de fora do palácio e se pôs a gritar, comemorando o retorno do monarca.

- Viva o Rei! Hurra! Viva o Rei! Hurra!

O criado, ao escutar os gritos do povo, dirigiu-se até o vira-lata e cheio de entusiasmo lhe avisou:

- O povo, majestade. O povo deseja lhe ver.

Satisfeito depois de comer o seu café da manha, o cão dirigiu-se até a varanda, onde encontrou com o povo que, ao lhe ver, fez um imenso silêncio.

Com um olhar curioso, o vira-lata olhou para multidão do lado de fora do palácio e, com uma das patas, coçou sua orelha cheia de carrapatos e pulgas, antes de dizer suas primeiras palavras como rei.

- AU!AU!

O povo foi ao delírio.

2 comentários:

  1. Muito boa a estória, pois ´pode ser contada tanto para crianças como para adultos e com mensagem interessanteque nos faz refletir sobre o poder, a aparência, o pensamento coletivo... através de uma linguagem criativa, simples e bem humorada. Parabéns!

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  2. Olá, Paulo.
    Encontrei seu blog numa comunidade do Orkut.
    Bem legal sua história.

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