domingo, 22 de agosto de 2010

O mendigo e a baleia

Em uma manhã muito fria, um homem velho encontra-se deitado sobre um pedaço de papelão. Ele está com muito sono, pois não conseguiu dormir bem durante a noite, sendo acordado por qualquer barulho, por menor que fosse. Dormir nas ruas nunca foi algo agradável e seguro para ele, no entanto, ultimamente, tornou-se algo insuportável e assustador, devido ao crescente número de violentes ataques a mendigos.

Após passar algum tempo deitado, o senhor decide levantar-se. O velho mendigo guarda o pedaço de papelão - que ele chama de ‘cama’-, e sai à procura de algo para comer. Ali perto há um grande depósito de lixo onde ele, talvez, encontre um pão velho ou uma fruta estragada para comer.

Aquele homem já vivia nas ruas há muitos anos, tantos, que ele já nem se lembrava com exatidão quantos eram. Com o tempo, ele acostumou-se a ser alguém invisível. Na verdade, ele até gostava de, na maioria das vezes, não ser notado, pois quando isso acontecia o único sentimento que ele provocava nas pessoas era o medo. Mas ele não as culpava.

Com o passar dos anos, ele acabou descuidando-se da aparência, ostentando, então, um cabelo desgrenhado com uma barba grande e medonha. Além disso, costumava usar roupas velhas e muito sujas. Tudo isso reunido dava-lhe um aspecto assustador. Mesmo com essa aparência assustadora o velho não sentia vontade de se cuidar, afinal “ninguém me enxerga mesmo” - ele pensava.

Certa vez, ele estava sentando na escadaria que dava acesso ao fórum da cidade, lugar freqüentado, como ele próprio costuma dizer, por doutores engravatados - a maioria passava pelo velho mendigo como se ele não estivesse ali -, até que repente um desses doutores aproximou-se dele e pediu-lhe informações sobre um local da cidade.

Ao perceber que ele fora notado, e logo por um doutor tão distinto como aquele, o velho instantaneamente levantou-se, inflou o peito e passou a mão gordurosa nos seus cabelos desgrenhados para deixá-los com uma aparência melhor. Ele que tem uma postura muito curvada, quase corcunda, manteve uma postura completamente ereta enquanto prestava as informações.

Depois de dada as informações, o doutor despediu–se do velho, que estava quase histérico de tanta alegria. Ao sair do fórum o mendigo dirigiu-se ao beco onde guardava as poucas coisas que possuía, chegando ao local ele cortou o cabelo e fez a barba; teria também trocado sua roupa esburacada por outra melhor se pudesse. Quando terminou, ele começou a pensar naquele doutor com quem acabará de conversar, “Com certeza é um doutor muito importante, provavelmente o mais importante deles”. Após esse dia o velho não cortou mais os cabelos e nem fez mais a barba.

Enquanto fazia uma de suas andanças pela cidade em busca de algo para comer, o velho passou em frente a uma grande loja de departamento. Na vitrine havia dezenas de televisões dos mais variados tamanhos e preços. As televisões estavam todas sintonizadas no noticiário que mostrava uma matéria sobre uma baleia que havia encalhado na praia.
O velho estava pronto para seguir o seu caminho, quando uma coisa chamou a sua atenção: havia um enorme número de pessoas, bombeiros, biólogos, ambientalistas e dezenas de transeuntes, todos dispostos a ajuda a baleia. O velho ficou parado, com um olhar perdido, durante toda a reportagem.

A cada dia que se passava, viver nas ruas tornava-se mais complicado, arranjar comida, agora, era mais difícil e ele estava ficando velho e cheio de doenças. Foi, então, que ele lembrou-se da reportagem sobre a baleia e teve uma grande idéia.

À noite ele foi para um depósito de lixo para começar a pôr o seu plano em prática. Primeiro ele pegou vários colchões velhos e um grande pedaço de lona. Durante vários dias o velho desenvolveu secretamente o seu plano: ele passava horas e horas no depósito de lixo trabalhando sobre as matérias-primas, o colchão e o pedaço de lona. Até que o grande dia chegou, aquilo em que ele tanto trabalhou finalmente ficou pronto.

Durante a madrugada o velho saiu do lixão em direção a praia carregando algo grande com dificuldade. Horas depois ele estava na praia mais movimentada e badalada da cidade, que naquele momento encontrava-se completamente vazia. Ele pegou o seu material: uma grande fantasia de baleia, e dirigiu-se para o meio da areia da praia, onde vestiu o disfarce e fingiu ser uma pequena baleia encalhada. Era uma fantasia de baleia toscamente trabalhada que ele construiu com os colchões e as lonas velhas.

Ele ficou lá parado, até que finalmente os primeiros freqüentadores da praia apareceram e o viram. Apesar de a fantasia ser muito tosca, as pessoas foram perfeitamente enganadas por ela e correram para ajudar o que pensaram ser um pobre filhote de baleia encalhado.

Horas depois já havia na praia todo tipo de gente dispostas à ajuda a pobre baleia. As pessoas tentaram devolver a baleia de todas as formas para o mar, mas ela insistia em voltar para a areia. Por isso, eles chegaram à conclusão de que ela deveria estar ferida e confusa, então resolveram que o melhor a ser feito seria levá-la a um centro de recuperação.

No centro de recuperação o velho disfarçado de baleia foi tratado de uma forma que ele nunca antes havia sido: ele foi bem alimentado, medicado e recebeu total atenção das pessoas ao seu redor. A sua farsa durou cerca de uma semana, até que um dos veterinários descobriu que aquilo não se tratava de uma pequena baleia ferida e sim de um homem velho e sujo.

As pessoas ficaram iradas com o mendigo. Como alguém poderia ser capaz de fazer um plano tão maquiavélico? Como alguém pode se fingir de um animal tão inocente e indefeso como uma baleia? E pior, como ele pôde desperdiçar o tempo e os recursos dessas pessoas?

A polícia foi chamada para conter a situação, levando-o para a delegacia. O caso chegou aos jornais, a população pedia a condenação do velho aproveitador. Por isso, o velho passou algumas semanas na cadeia, pois a polícia precisava dar uma resposta para a sociedade.

Nesse período ele teve o direito a três refeições diárias, algo que ele não tinha há muito tempo. Quando finalmente o caso esfriou, e os jornais pararam de noticiar sobre ele, o velho, a contragosto, pois depois de semanas sendo tão bem tratado e alimentado, foi solto.

Ps: o texto, em si, é uma porcaria, no entanto, gosto muito dele, pois foi um dos meus primeiros contos (e foi com ele que eu ganhei meu primeiro prêmio literário)

Um comentário:

  1. É uma critica social, gostei muito dele. È realmente cruel a forma que essas pessoas são tratadas pela sociedade e abandonadas pelo governo. Como no seu conto, que me vez refletir sobre a degradação da vida humana e os seus valores.

    abraço.

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