sábado, 29 de janeiro de 2011

No confessionário

- Padre, eu sou um pecador.

- Todos nós somos, meu filho.

- Mas eu cometi um grande pecado, padre.

- Que pecado, meu filho?

- Eu matei uma pessoa.

- Como?

- Eu matei, na verdade, vou matar uma pessoa.

- Mas você não pode fazer isso, meu filho. É abominável, inaceitável.

- Por que, padre?

Dentro do confessionário foram ouvidas algumas tossidas.

- Porque esse é um pecado imperdoável – disse o padre.

- Matar é sempre um pecado, padre?

- Claro, meu filho. Deus disse não matarás.

- Em qualquer situação, padre?

- Sim, meu filho, matar é sempre um pecado.

- Mesmo que seja por legítima defesa ou um aborto em caso de estupro?

- Sim, em qualquer caso a vida tem que ser defendida.

- O que acontece com que mata outras pessoas, padre?

- Vai para o inferno, meu filho.

- E Moises padre? Quando mandou matar os adoradores do Bezerro de Ouro? Ele foi para o inferno também?

- Mas ai foi diferente, meu filho, eles eram pecadores...

- Então eu posso matar pecadores?

- Não foi isso que eu quis dizer, meu filho. Só que, veja bem...

- Como é o mandamento padre?

- Não matarás.

- Só?

- Sim.

- Não existe por acaso alguma ressalva? Algo como: não matarás, exceto os pecadores.

- Não, meu filho, não existe.

- Então Moises pecou e foi para o inferno?

O acesso de tosse do padre aumentou. Dentro do confessionário o homem sorria discretamente.

- Meu filho, você está distorcendo minhas palavras. Além disso, a questão a ser debatida não é essa.

- E qual é a questão, padre?

- O fato de você pretender matar alguém, meu filho, isso é errado, isso é pecado.

- No início da conversa, você disse que todos nós somos pecadores. Lembra-se?

- Sim, meu filho. Mas isso não vem ao caso.

- Sim, isso vem ao caso, padre. Se todos somos pecadores, o senhor também é. E se o senhor é um pecador, seguindo a sua própria teoria sobre Moises, eu posso matá-lo, sem cometer nenhum pecado. Sem ir para o Inferno.

- Mas o que isso tem haver com o seu caso – disse irritado. – Já estou perdendo a paciência, meu filho.

- Eu vim matar o senhor, padre.

- O quê?

- Eu vim matar o senhor, padre. Mas... Para provar que sou uma pessoa bondosa, vou lhe dar uma chance. Aqui, – disse o homem, jogando um embrulho para dentro da cabine do padre, – está uma arma carregada. Para se salvar, basta me matar.

- Eu não posso fazer isso, meu filho, é loucura.

- Pode sim, padre, e se quiser sobreviver é melhor fazer.

- Não vou fazer. Meu filho, acabe com essa brincadeira idiota e saia daqui antes que eu chame a policia...

- Eu vou contar até três, padre, e se você quiser se salvar vai ter que atirar em mim.

- Pare com isso, meu filho, eu vou, eu vou...

- Então, padre, como vai ser? O que é mais forte? Tua fé no mandamento, tua interpretação literal dele, que como o senhor mesmo me disse, impede o assassinato em qualquer hipótese ou tua vontade de viver, teu instinto de sobrevivência que vai fazer você me matar para se salvar?

- Nenhum dos dois, sai daqui, antes que eu...

- Um.

- Pare com isso, meu filho, essa brincadeira não tem graça...

- Dois.

- Pare com isso agora, você ainda tem tempo e...

- Três.

- Não! – gritou o padre.

Ouviu-se um estampido. O confessionário ficou cheio de uma fumaça negra e com cheiro de pólvora. Quando a fumaça baixou, o padre ainda estava com a arma apontada para o homem, suas mãos estavam trêmulas e o seu dedo ainda estava no gatilho.

- HAHAHAHAHAHAH! – riu o homem do confessionário.

- Mas... Como? – perguntou o padre.

- Festim, padre. Essa arma está cheia de festim.

- Você acha que eu realmente iria lhe dar uma arma carregada? – perguntou o homem.

- Mas... Por quê? - disse o padre.

- Por quê? Por que você atirou? Sobrevivência, ninguém resiste à sobrevivência. Nem mesmo um padre. Quando nossas vidas estão ameaçadas, qualquer crença moral ou religiosa e tudo aquilo que possa ser chamado de princípio, valem menos que poeira ao vento.

- Mas, por que tudo isso? Por que essa brincadeira? Tudo isso, toda essa tensão, foi feita por puro sadismo?

- Sadismo? Não. Eu vim aqui para te matar, padre.

- Então tudo isso foi brincadeira? Depois de tudo isso você ainda vai me matar? Como ainda tem coragem de dizer que não é por sadismo?

- Eu já matei – disse o homem, levantando-se do confessionário.

- Matou o quê?

- Eu matei tua hipocrisia, padre – disse o homem antes de sair da igreja.

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