domingo, 30 de janeiro de 2011

A Fantástica Fábrica de Consciências


Passei a vida inteira tentando enriquecer. Com esse intuito, passei grande parte dela desperdiçando meu tempo e o pouco dinheiro que possuía nas mais absurdas ideias que o leitor possa imaginar; pois não existe maneira mais rápida e fácil de enriquecer do que com uma grande ideia e assim, por causa desses devaneios, encontrava-me em péssimas condições financeiras.
Consciente da minha situação, eu sabia que com mais um passo em falso atingiria a miséria e, por isso, o pouco dinheiro que ainda me restava deveria ser usado em uma ideia que valesse realmente a pena. Mas assim fiquei com um grande problema na cabeça; como diabos irei saber se uma idéia vale realmente a pena? Todas as outras pareciam tão plausíveis no princípio...
Com a percepção de que estava as portas da miséria absoluta, decidi que o melhor a fazer era me dedicar totalmente ao desenvolvimento da minha grande idéia, que resolveria todos os meus problemas financeiros. Para isso, tranquei-me em minha modesta casa e coloquei a cabeça para trabalhar.
Logo nos primeiros dias consegui desenvolver idéias muito boas e rentáveis, mas para o meu desespero, descobri que alguém já havia pensando nelas antes e assim, em pouco tempo, percebi que todas as boas idéias do mundo já haviam sido pensadas por alguém. “Malditos aproveitadores, sempre roubando as idéias que ainda não tive”, era o meu pensamento. Como tudo o que pensava já havia sido inventado, não tive alternativa, passei a desenvolver planos pouco ortodoxos, que envolviam o ganho de muito dinheiro em cima do sofrimento alheio. Mas aí surgiu outro grande problema, nunca conseguia desenvolver plenamente tais planos, pois eles sempre iam de encontro a minha consciência.
Por isso, passei a desenvolver um ódio mortal para com a minha consciência, esta maldita estava sempre a atrapalhar meus planos. Comecei a pensar em um modo de resolver meu problema rapidamente, pois meu dinheiro não duraria muito tempo, mas não consegui pensar em nada útil. Até que finalmente, por um acaso do destino, eu tive a minha grande idéia.
Era um dia como outro qualquer, estava novamente pensando em resolver meus problemas e amaldiçoando minha consciência quando comecei a pensar: “Quantas boas idéias deixaram de ser postas em práticas por culpa de crises de consciência? Quantas milhares de almas não sofrem esse mesmo problema? Oh, o que não daria para me ver livre da minha consciência”.
Após esse último pensamento, algo estranho aconteceu em minha cabeça. Estava sozinho em casa, mas caso houvesse outra pessoa comigo nesse momento, ela poderia escutar o barulho das engrenagens do meu cérebro sendo postas para funcionar.
Sem saber bem o motivo, comecei a repetir a última frase que havia passado por minha cabeça: “Oh, o que não daria para me ver livre da minha consciência... Oh, o que não daria para me ver livre da minha consciência... Oh, o que não daria para me ver livre da minha consciência!”
- É isso! – Gritei a plenos pulmões.
Eu acabava, sem querer, de ter a minha grande idéia. Aquela que resolveria todos os meus problemas financeiros. Era algo simples e original: minha consciência estava a atrapalhar completamente minha vida, ao ponto de eu pagar qualquer coisa para me ver livre dela. No mundo havia milhões de pessoas com o mesmo problema, portanto tudo que eu precisava fazer era inventar uma máquina que retirasse a consciência das pessoas, e claro, cobrar um bom preço por isso.
Com a idéia pronta, estava na hora de pôr-la em prática. Foi nesse momento que surgiram os problemas. Percebi que construir uma máquina não era uma coisa fácil, principalmente porque não entendia quase nada sobre o assunto... Assim, a primeira que tive que fazer, foi comprar vários livros e passar horas e horas lendo para tentar entender o funcionamento de uma máquina, essa atividade me custou alguns meses.
Resolvido o primeiro problema, comecei a construir minha máquina, mas logo surgiu o segundo problema. Na metade da construção, o pouco dinheiro que tinha acabou e assim, vi-me obrigado a procurar um banco para pedir um empréstimo. Chegando ao local, fui pessimamente atendido, coisa normal para quem procura um banco. Tive que esperar horas e horas, até finalmente ter uma oportunidade de falar com o gerente.
O gerente, mostrando ser um homem sem visão, mostrou-se relutante em conceder o empréstimo. Passei horas tentando convencê-lo da rentabilidade do negócio que estava lhe propondo, mas nada parecia fazê-lo mudar sua opinião. Como nada parecia funcionar, resolvi apelar; comecei a falar que estava desesperado, que tinha cinco filhos, três cachorros e um papagaio para criar e mais um bocado de baboseira sentimentalista. Falei que todos eles dependiam de mim e que sem o dinheiro do empréstimo, iríamos parar na rua e na miséria absoluta.
Foi quando uma coisa estranha aconteceu, o gerente começou a fazer perguntas sobre o papagaio. Eu que não tinha um papagaio, comecei a fantasiar coisas sobre um. Disse-lhe que era um belo espécime, muito colorido, dócil e alegre. A cada novo adjetivo que inventava, o gerente parecia mais interessado. Seus olhos esbugalhados brilhavam e após alguns minutos pude perceber que ele estava emocionado com a minha história.
Percebendo sua emoção, decidir dar o golpe de misericórdia.
Falei que o pobre papagaio sofria de uma doença rara e que, por isso, precisava de uma ração especial para sobreviver, essa ração, obviamente, era muito cara, e assim, sem o dinheiro do empréstimo, o pobre papagaio provavelmente morreria.
Nesse momento lágrimas começaram a verter dos olhos esbugalhados do gerente, que ficou a chorar por vários minutos, até que finalmente se recompôs e disse:
- Enquanto eu viver, nenhum papagaio inocente irá morrer, irei conceder o seu empréstimo – disse dando um soco na mesa.
- Que sociedade é essa em que vivemos? Meu Deus, um pobre papagaio, um pobre e inocente papagaio... – disse balançando a cabeça negativamente.
O gerente ainda me alugou por um bom tempo, falando sobre como a sociedade atualmente estava cruel, “como as pessoas deixaram as coisas chegarem a esse ponto?”, falava isso a toda hora. Depois ficou um bom tempo falando sobre papagaios - o gerente aparentemente gostava muito de papagaios - até que, finalmente, após longas horas, meu empréstimo foi concedido e eu estava pronto para terminar a minha máquina.
Ironicamente, tudo graças a um ataque de consciência motivado por um papagaio.
Com o dinheiro em mãos, tratei de comprar o restante das peças que faltava e me coloquei a trabalhar, de modo que, pouco tempo depois, havia terminado minha grande obra prima. Com a máquina pronta, há única coisa que faltava agora era testá-la, problema que tratei logo de resolver, sendo eu mesmo a cobaia para o teste.
O procedimento, inventando por mim, para a retirada da consciência era simples. Primeiro o paciente deveria sentar-se em uma cadeira. Depois uma espécie de capacete, com duas almofadinhas úmidas, seria colocado em sua cabeça, de onde seria retirada a consciência, que depois disso, seria transportada para a parte de trás da máquina, que servia como uma grande cela, onde a consciência do paciente ficaria até ser levada para um local apropriado.
Sentei-me na cadeira. Coloquei o capacete em minha cabeça e liguei a máquina. Nesse momento houve uma tremenda explosão; uma luz muito branca, ofuscante, invadiu a minha mente por alguns segundos, fazendo com que todas as coisas na sala girassem ao meu redor. Quando tudo voltou ao normal, lembrava-me de que eu era e de onde estava, mas em algum lugar do meu cérebro havia uma vasta área vazia, como se uma parte do meu cérebro tivesse sido tirada.
Ao final do procedimento, senti-me um pouco confuso e desorientado. Minha cabeça doía um pouco e eu ainda não tinha certeza se o motivo dessa dor era o fato da máquina ter funcionado ou se eu apenas havia levado um tremendo choque elétrico. Confuso, permaneci sentando na cadeira por um tempo. Quando me sentir melhor, fui à parte de trás da máquina para verificar se a experiência havia funcionado. Ao chegar, olhei pela pequena janelinha de vidro que havia na porta da cela e tive uma grande surpresa; a minha consciência era linda, a coisa mais bonita que já havia visto em minha vida.
Tenho certeza que, se não tivesse acabado de retirá-la da minha cabeça, teria ficado com pena dela e a colocaria de volta.
No outro dia, fui cuidar dos negócios. Dirigi-me a um jornal de grande circulação e fiz um anúncio oferecendo os meus serviços. Esperava com isso que, um grande número de pessoas procurassem o meu serviço nos dias seguintes ao anúncio, mas essa medida se mostrou um grande fracasso e por vários dias não tive nenhum cliente. Já estava ficando desesperado, quando o primeiro cliente finalmente apareceu e para a minha grande surpresa era alguém que conhecia.
Levei um grande susto quando vi que o gerente do banco havia procurado meus serviços. Ele me contou chorando que não era a primeira vez que ele concedia um empréstimo por causa de um papagaio - aquele homem, sabe-se lá por que, adorava papagaios - e que por causa dessas suas atitudes, seu emprego estava ameaçado, assim ele necessitava urgentemente se livrar da sua consciência.
Depois de acalmá-lo, levei-o diretamente a máquina e realizei o procedimento de retirada. A consciência daquele homem era algo realmente estranho: baixa, fraca e muito peluda, pêlos esses que pareciam com penas! Acho que era daí que vinha a sua fixação por papagaios...
O fato é que depois de realizado o procedimento o homem ficou muito feliz e contou para os seus amigos o que havia ocorrido. Esses por sua vez, procuraram-me e satisfeitos com o resultado logo contaram para seus amigos e assim, boca a boca, eu fui conquistando um grande número de clientes e em pouco tempo me tornei o homem mais rico do país.
No início, a minha clientela era basicamente constituída por jovens recém formados que não queriam que suas consciências atrapalhassem as suas carreiras, mas logo ela passou a ser composta por qualquer pessoa que queria fazer algo de errado sem sentir culpa disso: ladrões, políticos corruptos, infiéis, pais ausentes...
Toda essa enorme clientela me fez o homem mais rico do mundo; mas isso era pouco, eu queria mais e mais. Acontece que em alguns anos todos aqueles que podiam pagar o alto preço que era exigido para o procedimento já o haviam feito e assim, não me restavam mais clientes com poder aquisitivo. Mas como deseja mais dinheiro, resolvi facilmente o problema, passei a dividir o custo do procedimento em dezenas de parcelas e logo depois passei até mesmo a alugar consciências para aqueles que não tinham dinheiro sequer para as parcelas.
Em virtude disso, tornei-me o homem mais rico da história e, naturalmente, sentia-me nesse momento o homem mais feliz do mundo. Nessa época achava que minha felicidade havia atingido o seu ápice e que nada poderia abalá-la, entretanto, o tempo mostrou que eu estava completamente enganado...
Comecei a ter inúmeros problemas. Sem suas consciências, às pessoas ficaram loucas e a sociedade acabou voltando à lei do mais forte. Primeiro as pessoas deixaram de trabalhar, passaram a passar seus dias bebendo e vadiando pelas ruas, depois quando o dinheiro acabou, começaram os roubos, os saques e finalmente os assassinatos e estupros em massa.
Há princípio, isso não me preocupou muito, pois estava trancado em minha mansão, completamente alheio a esses distúrbios, mas logo a situação mudou. Meus próprios empregados, antigos clientes da minha fabrica de consciência, passaram a me roubar, e assim, não tive escolha, e acabei demitindo todos eles. Acabei me tornando um homem solitário e paranóico, imaginava a todo o momento minha casa sendo invadida por um grupo de ladrões sem consciência.
Para o meu desespero, semanas depois, meu grande medo estava muito próximo de se concretizar. A turba de maníacos em que a sociedade havia se transformado, depois de ter destruído quase toda a cidade, passou a invadir e destruir as últimas construções que ainda restavam na cidade: as mansões.
Uma a uma, todas as mansões foram sendo invadidas e destruídas restando em pouco tempo apenas a minha. Com a iminente invasão e destruição da minha mansão e do meu provável assassinato, percebi que todo o dinheiro que tinha não serviria de nada nessa situação e assim tomei a decisão mais difícil da minha vida: resolvi recolocar a minha consciência.
Depois de libertá-la, não tive muito tempo para pensar nos meus erros. A turba de maníacos assassinos já estava nos meus portões, por isso tratei de libertar todas as consciências que havia retirado das pessoas ao longo dos anos. E foi somente com a volta de suas consciências aquele grupo de animais maníacos, transformou-se novamente em seres humanos. Embora, muito tempo depois desses acontecimentos, descobrir, acidentalmente, que existiu um erro no armazenamento de algumas consciências, causando com isso o perecimento das mesmas, ficando alguns ex-clientes sem suas consciências para sempre.
Foi somente com o retorno da minha consciência e que pude perceber a dimensão dos meus erros. Sem as suas consciências, as pessoas tornaram-se verdadeiros animais; destruindo inúmeras cidades e cometendo milhares de crimes, pelos quais fui indiretamente responsável. Passei várias noites sem dormir atormentando pela culpa que sentia. Como pude ser tão egoísta? Essa pergunta me vinha à cabeça a todo o momento.
Durante longos dias, tive incríveis crises de consciência, até que finalmente decidi que o melhor a fazer era usar toda a minha imensa fortuna, construída em cima de tantas desgraças, para ajudar na reconstrução das coisas que foram destruídas durante o período que as pessoas viveram sem suas consciências, e desse modo acabei por gastá-la completamente.
Essa, leitor, é a minha história, de como me tornei o homem mais rico do mundo e de como gastei toda a minha fortuna, devido a uma crise de consciência, para ajudar as pessoas. Esta minha aventura poderá parecer, aos olhos do leitor, demais absurda. Afinal, onde já se viu um homem rico usando seu dinheiro para ajudar as pessoas sem nenhum interesse obscuro por trás desse ato? E ademais, como um homem rico pode ser vítima de um ataque de consciência? “Não, essa história é demais absurda, eu não a compreendo de modo algum.” Estará o leitor pensando agora...
Entretanto, garanto ao leitor que, por mais extraordinária que a história pareça e que por mais que se diga que aventuras como essa não acontecem nesse mundo, eu garanto que o que lhes contei é a mais absoluta verdade. Você, caro leitor, talvez até já tenha topado por aí com alguns dos meus ex-clientes...

Um comentário:

  1. essa coisa de conflitos de consciência é sempre um mote perfeito. lembra muito o crime e castigo do dostoievski! gostei muito :)

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