quinta-feira, 31 de março de 2011

O vendedor de indulgências


As nuvens negras ao longe evidenciavam que uma grande tempestade estava prestes a chegar à cidade. Nas ruas, o povo andava apressado tentando escapar do vento frio que castigava seus rostos.
Ao cair da noite, quando ele chegou montado em seu cavalo, encontrou as ruas da cidade vazias. Como se já conhecesse o lugar, o cavaleiro dirigiu-se diretamente à prefeitura, onde exigiu uma audiência com o prefeito.
- Mas é muito dinheiro – disse o prefeito. – A prefeitura não dispõe de tudo isso, não podemos pagar tanto.
- É o preço da salvação – respondeu o cavaleiro.
- Mesmo assim não posso pagar tanto. Se você abaixasse um pouco o preço, quem sabe...
- Se não está interessado, adeus. Há muitas outras cidades interessadas nisso.
- Espere um pouco – disse o prefeito. – Dada a importância de sua oferta, vou marca uma audiência com a população da cidade para amanha. Lá decidiremos sobre isso.
- Muito justo – respondeu o cavaleiro. – Até amanha.
****************
Pela manhã, toda a população da pequena cidade compareceu a audiência marcada pelo prefeito. A notícia sobre a chegada de um estranho cavaleiro espalhou-se rapidamente e todos os moradores, sem exceção, estavam curiosos para descobrirem quem era esse homem.
O prefeito chegou ao local acompanhado do cavaleiro, que trazia consigo um pequeno baú. Logo que os dois chegaram, uma imensa agitação espalhou-se pelo local. Via-se em todos os rostos a mesma expressão de curiosidade.
- Silêncio!!! – gritou o prefeito.
- Convoquei essa reunião hoje por um motivo muito especial. Este homem – disse apontando para o cavaleiro. – Tem uma oferta para nos fazer.
- Senhores – disse o cavaleiro com uma voz grave e cheia de importância. - Venho de longe, das Terras Santas, e trago comigo o maior tesouro deste mundo. Neste baú, existe a salvação para todos os habitantes dessa cidade.
O cavaleiro abriu o pequeno baú e retirou de dentro dele três pequenos fracos de vidros.
- Esses fracos contêm em seu interior um líquido retirado diretamente das costelas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Uma gota, uma única gota desse líquido, é capaz de retirar todos os pecados de uma pessoa e garantir o seu lugar no paraíso.
- Assim, eu ofereço a vocês, por apenas trezentas moedas de ouro, esses três frascos que contém a salvação para as suas almas.
Ao ouvir essas palavras, os moradores agitaram-se como loucos. Por todos os cantos do local ouviam-se gritos e injurias contra o cavaleiro.
- Isto é um absurdo, uma blasfêmia. Este homem é um aproveitador. Vá embora daqui seu ladrão – foi o que se ouviu da população revoltada.
O cavaleiro, irritado com aquelas injurias, caminhou até o baú e, com uma das mãos, jogou um dos fracos no chão, destruindo-o.
- Agora!!! – gritou o cavaleiro. – Ofereço a vocês, estes dois fracos que contém sua salvação, por trezentas moedas de ouro – disse dando ênfase na palavra salvação.
Essa atitude deixou a população do lugar impressionada. Alguns moradores já demonstravam alguma hesitação, outros gritavam que “trezentas moedas de ouro não eram nada perto da salvação”, mas a maioria dos presentes ainda considerou o cavaleiro um farsante e continuou a ofendê-lo. Irritado com aquilo, o cavaleiro foi até o baú e jogou mais um frasco no chão
- Agora, são trezentas moedas de ouro por esse frasco.
Impressionados, os moradores se reuniram e após muitas confusões, brigas e ameaças, resolveram aceitar a proposta do cavaleiro.
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Depois de terem comprado o frasco, os moradores da cidade resolveram fazer uma nova audiência, para decidirem como usá-lo. Na audiência, ficou decidido que, devido à pequena quantidade, cada habitante da cidade teria direito a usar apenas uma gota do frasco, o suficiente para garantir o ingresso ao paraíso para todos.
Nesse ponto, houveram poucas discussões. Os problemas surgiram quando chegou a hora de decidi o momento de usar o frasco.
- Já que vamos ter nossos pecados limpos. Não é melhor esperar um tempo, para que possamos pecar mais um pouco? – gritou um dos moradores.
- Isso. Vamos esperar – gritaram várias vozes.
A reunião durou vários dias e, somente depois de muitas brigas, ficou decidido que os moradores da cidade teriam o prazo de um mês para cometerem todos os pecados que gostariam. Após esse prazo, todos teriam que receber suas gotas da salvação, e voltariam a suas vidas normais.
Findada a reunião, a pequena cidade transformou-se e os pecados começaram. Primeiro foram às orgias, bebedeiras e traições. Depois começaram as brigas, os roubos, estupros e assassinatos em massas.
Passados menos de duas semanas do início do prazo de um mês, a cidade ardia em chamas e os seus moradores estavam todos mortos ou gravemente feridos.
Do alto de uma colina o cavaleiro observava a cidade destruída com um estranho sorriso no rosto. Ao cair da noite partiu, ainda havia muitas cidades para visitar