sábado, 8 de outubro de 2011

[Contos Reais] Sobre o Amor e suas Consequencias


I
Durante muitos e muitos anos os reis da Cracóvia tentaram ter um filho. Na esperança de conseguirem isso, fizeram os mais diversos tratamentos que o leitor possa imaginar. Quando os tratamentos se mostraram inúteis, passaram as simpatias. E quando estas também se mostram infrutíferas, apelaram para fé.
Nada funcionou.
Por todos os cantos do reino, não se falava de outro assunto. A infeliz infertilidade dos reis era o assunto principal das discussões entre os súditos.
No início, era um somente um assunto sem importância. Mas com o passar dos anos, o problema tornou-se grave.
Sem um filho, a milenar linhagem real dos reis da Cracóvia ficava seriamente ameaçada. Isso sem falar na real possibilidade de invasão do reino pela Neerlândia, reino vizinho, cujo rei julgava-se dessedente distante dos reis da Cracóvia.
Por tudo isso, tal qual não foi à felicidade de todos, quando a rainha apareceu grávida.
Sua gravidez foi anunciada pelos quatro cantos do reino. Festas foram dadas quase diariamente para comemorar o feito.
Com a notícia da gravidez da esposa, o Rei atingira esse supremo instante de felicidade em que tudo é perfeição e bondade e em que não se pode acreditar nem no mal, nem na desgraça, nem na dor.
Todavia nem tudo foi felicidade. Mal sabia ele que seus problemas estavam apenas começando...
II
Após o anúncio da gravidez da Rainha, houve por todo o reino, durante vários dias, festas e festas para comemorar o feito.
Quando a emoção finalmente foi controlada e a razão retomou o seu lugar na cabeça dos homens, os melhores médicos do reino foram chamados para consultar a rainha.
Dezenas de exames foram feitos e muitas discussões aconteceram até que os médicos chegassem a um consenso: a gravidez da Rainha era de extremo risco.
Praticamente um milagre.
Com isso, os meses seguintes foram muito tensos. A rainha era acompanhada de perto pelos médicos e qualquer mal-estar, típico de uma gravidez, era motivo de muita apreensão.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe. Chegou o oitavo mês, mês de angustias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.
Um dia, já no nono mês de gestação, a Rainha tomava tranquilamente seu café da manha, quando sentiu um súbito mal-estar. Os médicos foram chamados e constaram que a Rainha acabara de entrar em trabalho de parto.
Uma confusão iniciou-se.
Servos corriam por todo o palácio, sem saber o que fazer.
A Rainha foi levada para o quarto.
Quando o Rei finalmente foi avisado da notícia, a Rainha já estava trancada em um quarto, junto com vários médicos e ajudantes, realizando o trabalho de parto. Tremendo-se de nervoso, foi para o quarto ao lado e pôs-se a andar de lado para o outro. Queixumes que mais pareciam gemidos de um animal ferido eram ouvidos através da porta.
“O que estará acontecendo naquele quarto”, pensava, suando frio.
Um tremor nervoso tomava de conta do seu corpo.
Os gemidos aumentavam cada vez mais.
Continuou a andar de um lado para o outro do quarto. Vez ou outra, inutilmente, pedia informações sobre o estado de saúde da Rainha, para uma das servas.
“Que demora, será que ocorreu alguma coisa? E esses gritos horrendos... Que dor, que sofrimento... Mas parecem um animal... Um animal mortalmente ferido... Alguma coisa deve ter acontecido, não é possível...”, indagou-se.
A demora, os gritos, e a expectativa fizeram com que o Rei começasse a se perguntar sobre o seu problema. E, de pergunta em pergunta, de dedução em dedução, abriu-se no espírito do Rei campo para um suspeita dolorosa: algo de muito ruim devia estar acontecendo.
Ele estava justamente pensando nisso, quando os gemidos cessaram: decorreram ainda alguns segundos. De repente ouviu-se um grito pavoroso, que nada tinha de humano.
Como acontece muitas vezes depois de longas e violentas inquietações, tomou-se de conta dele um terror irracional, convenceu-se de que o filho ou a mulher, ou pior; que os dois estavam mortos.
Tudo quanto via e ouvia parecia confirmar seus pavores.
Correu para o quarto onde estava a Rainha. Com alguma dificuldade conseguiu entrar.
Pelo caminho encontrou alguns médicos. Todos sérios, casmurros.
“Acabou tudo”, pensou, e um suor frio lhe cobriu o rosto.
Ouviu então um choro de criança.
E ao ouvir isso, de súbito compreendeu a alegria que este grito significava; os olhos incharam-se de lágrimas, correu até a Rainha e lhe abraçou amorosamente.
- Meu amor... – disse a Rainha, ainda convalescendo.
- Sim, querida, diga, diga.
- Um filho... Tivemos um varão.
De tão feliz que estava, havia até esquecido do filho.
Quando olhou para o lado, viu o filho enrolado em manta.
- Sim, querida, tivemos um filho e ele será o melhor rei que já existiu nessa terra – disse soluçando feito uma criança.
Naquela noite ninguém conseguiu dormir no palácio.
A notícia logo se espalhou e, antes do amanhecer, já haviam festas por todo o reino, para comemorar o nascimento do novo monarca.
III
Após o nascimento do filho, o Rei, muito orgulhoso, deu uma grande festa para comemorar o fato. Foram convidados para a festa os monarcas de todos os reinos próximos.
Findada a festa, o Rei, a Rainha e o filho, dirigiram-se ao oráculo real.
Antes de continuar com a história, faz-se necessário dizer ao leitor alguma coisa sobre os oráculos e o seu papel na vida dos habitantes da Cracóvia. Infelizmente, não me sinto competente na matéria, vou tentar, porém, dar-vos uma ligeira idéia.
Não se sabe ao certo quando e como os oráculos surgiram no reino. Sabe-se apenas que eles existiam antes mesmo da invenção da escrita, pois até mesmo nos mais antigos pergaminhos eles são citados. Fato que levou muitos cronistas do reino a afirmarem que eles já existiam antes mesmo da fundação do lugar.
Vejamos, porém, o que são esses oráculos. Os oráculos eram espécies de adivinhos; pessoas que possuíam o dom mágico de prever o futuro. Por possuírem tamanha habilidade, logo se tornaram conselheiros de todas as pessoas do reino. Sempre que um cidadão da Cracóvia possuía alguma dúvida sobre qualquer ato de sua vida, dos mais simples aos mais complexos, aconselhava-se com um oráculo.
Com o tempo, palavra de oráculo virou lei. O povo lhes tinha verdadeira adoração.
O leitor mais atento já deduziu que, com tamanho poder sobre a vida das pessoas, os oráculos não eram bem vistos por todos. Ao longo da história, muitos os perseguiram e tentaram destruí-los, sem sucesso. A cada nova perseguição eles renasciam ainda mais fortes e mais poderosos.
O oráculo real estava localizado em um grande templo. O templo situava-se um velho castelo de pedra.
Quando chegaram, foram atendidos por um homem grande e barbudo.
- Viemos descobrir a sorte de nosso filho – disse o Rei, todo sorridente.
- Venham comigo, o oráculo já vos espera – disse o homem barbudo.
Seguindo o homem barbudo, eles caminharam por longos e estreitos corredores de pedra, que mais pareciam um labirinto. Minutos depois, finalmente chegaram a um quarto.
- Esperem aqui, o oráculo já esta chegando.
Enquanto esperavam o oráculo, ficaram os dois em silêncio, sendo este quebrado vez ou outra pelo bebê. Nesse período, o Rei aproveitou para dá uma boa olhada no lugar. Era um quarto exíguo e pouco confortável, os móveis grosseiros e pobres – apenas o indispensável.
“Tamanho poder e vive como um camponês qualquer”, pensou o Rei, ao observar o quarto.
Logo um homem muito velho entrou no quarto acompanhado por dois ajudantes.
Era o oráculo.
O oráculo era um homem baixo, encurvado, de pernas vacilantes. O rosto era muito ressequido, todo sulcado de rugas. Os olhos eram pequenos, mas muito vivos. Os lábios finos estavam sempre sorridentes.
- Meu amado, Rei. Eu estava a sua espera – disse o oráculo.
- Grande oráculo, nós viemos aqui, humildemente, pedir para que abençoe nosso filho, meu herdeiro.
- Eu sei amado, Rei, eu sei de tudo...
O oráculo tomou lugar num antigo divãzinho de mogno forrado de couro e fez com que os visitantes, exceto os dois ajudantes, se sentassem junto à parede aposta, em cadeiras forradas de couro preto e muito gasto. Os ajudantes, por sua vez, ficaram parados perto da porta.
Conversaram durante algum tempo, e trocaram algumas cortesias.
- Então, onde está o pequeno?
- Aqui está ele – disse a Rainha, mostrando o seu filho, cheia de orgulho.
O oráculo levantou-se e vagarosamente aproximou-se da Rainha, que com as mãos segurava a criança no colo. Posou a mão sobre a cabeça do pequeno monarca e após alguns segundos soltou um grito seco.
- Prevejo que algum de ruim acontecerá com o pequeno – disse o oráculo.
- O quê? – perguntaram ao mesmo tempo, o Rei e a Rainha.
- Prevejo que algo... Algo ruim...
- O quê? Vamos homem, fale logo! – perguntou a Rainha.
- De amor...
- Amor?! O que o amor tem haver com isso? – interrogou o Rei.
- De amor... De amor... Este pequeno... De amor, morrerá...
- De amor?! Como assim, de amor? – interrogou o Rei, com uma voz trêmula.
- De amor... De amor este pequeno morrerá... De amor... – repetia loucamente o oráculo, que parecia está em transe.
- Explique-se! – gritou o Rei, balançando o oráculo com uma das mãos.
- De amor... De amor... Morrerá... De amor... Amor...
- Vamos homem, explique-se – gritou o Rei, balançando o oráculo, agora com as duas mãos.
- Pare! Você vai matá-lo – gritou a Rainha.
Somente com a intervenção dos ajudantes do oráculo é que o Rei foi controlado.
O oráculo, por sua vez, caiu desacordado.
IV
Durante todo o caminho de volta para o palácio, fez-se silêncio mortal.
Somente vez ou outra o Rei e a Rainha trocavam alguns olhares.
Estavam os dois naquele estado de irritação e tristeza em que as mulheres choram silenciosamente e sem motivo e os homens sentem a necessidade de se queixarem da vida, de si mesmos, de Deus...
Quando chegaram ao palácio, deixaram a criança no berço, aos cuidados de uma ama. Depois disso, foram os dois para um quarto reservado.
- Isso é muito grave, precisamos fazer alguma coisa – disse o Rei.
- Nosso filho... Nosso filhinho... Tão inocente – disse a Rainha, com os olhos úmidos.
- Morrerá de amor? Você entendeu isso? – interrogou ele.
- Não sei... Aquele velho não dizia coisa com coisa. Aposto que está senil.
- Senil? Esse velho é mais lúcido que todos nós. Ele é o oráculo do reino, um santo. Nunca duvide dele. Em milhares de anos, os oráculos do nosso reino nunca erraram uma previsão.
- Ma-mas você viu o modo que ele disse aquilo sobre o nosso filho? Nem parecia que era ele...
- Eu sei, o oráculo certamente estava em transe...
- Em transe?! Para mim isso tem outro nome: loucura. Esse velho certamente está louco ou pior, quem sabe ele não foi subornando pelo Rei da Neerlândia? Aquele desgraçado seria capaz de uma coisa dessa...
- Comprado? Impossível. Um oráculo da Cracóvia nunca se venderia, ainda mais para um rei da Neerlândia...
- O que você quer que eu faça então? – disse gritando e chorando muito. – Quer que eu simplesmente aceite que meu filho, meu único filho, meu tesouro, irá morrer de... De... Amor?
O Rei suspirou alto e triste.
- Não, tudo o que eu quero é que você me ajude a entender essa previsão do oráculo. Só assim poderemos fazer alguma coisa para retardar essa previsão. O oráculo nos disse que ele irá morrer de amor, mas não disse quando. Poderemos fazer com que ele viva muito. Só precisamos entender a previsão do oráculo.
- Ora, mais essa previsão é obvia... Morrer de amor... Está na cara que nosso filho vai morrer por causa de uma paixão.
- Uma paixão?
- Destas que acontecem vez ou outra com os homens, que os fazem perder a cabeça...
- Mais é claro!!! Uma paixão... Mas como podemos evitar que ele se apaixone? – perguntou para ela.
- Simples. Não permitiremos que ele tenha contato com nenhuma outra mulher, que não seja eu.
Os dois continuaram a conversar durante muitas horas. Já era madrugada quando saíram do quarto onde estavam.
Quando saíram já tinha um plano em mente: nenhuma mulher, que não fosse à Rainha, poderia chegar a menos de cem quilômetros do palácio.
V
Correram-se os anos.
O plano dos reis foi posto em prática e o menino cresceu sem nenhum outro contato feminino, que não fosse o da Rainha amorosa.
Os primeiros anos correram sem nenhum problema. Com a inocência natural das crianças, o jovem Príncipe nada notou de diferente. Porém, com a chegada da adolescência, as coisas começaram a ficar complicadas.
O jovem Príncipe começou a ficar desconfiado que havia alguma coisa de errada com a sua vida, e as perguntas inconvenientes não tardaram a surgir:
- Pai, por que a mãe é diferente?
- Diferente como, meu filho? – disse o Rei, tentando escapar da pergunta.
- Não sei... Ela é diferente. O senhor, por exemplo, se parece com os criados, e comigo também. Já a mamãe, bem... Ela não se parece com ninguém que eu conheça.
- Bem... Sua mãe, sua mãe é especial. Ela foi um presente dos deuses, por isso ela é assim tão diferente – disse visivelmente nervoso e constrangido.
- Agora, vá brinca um pouco, que eu tenho muito que fazer – acrescentou pegando com as mãos uma pilha de papeis.
A vida do Rei realmente não estava fácil. Além das perguntas inconvenientes do filho aumentarem a cada dia, havia outro problema que lhe incomodava profundamente. Um problema de cunho lógico: se o jovem Príncipe nunca conhecesse uma mulher, ele não se apaixonaria, mas, conseqüentemente, nunca teria um filho e assim, a dinastia dos reis da Cracóvia estava fadada a extinção e todo o esforço feito por eles para proteger o filho, de nada adiantaria no final.
Corroído por esse problema, o Rei passou muitas noites insones, pensando em uma solução para ele. Passava as noites andando de um lado para o outro do palácio. De nada adiantou, não teve nenhuma idéia que não fosse revogar a proibição quanto às mulheres.
Sem visualizar nenhuma alternativa, o Rei resolveu ter uma conversa com a Rainha, para juntos discutirem o futuro do Príncipe.
VI
Durante vários dias, o Rei tentou encontrar uma forma de iniciar a conversa que gostaria de ter com a Rainha. Faltava-lhe coragem. Algumas vezes, até chegou a iniciar a conversa, mas foi miseravelmente interrompido por alguma frivolidade.
Lamentavelmente, o Rei fazia parte daquele grupo de pessoas notavelmente indecisas. Mostrava-se indeciso perante qualquer questão, das mais frívolas as mais importantes. Mostrava-se ainda mais indeciso, porém, perante as questões que envolviam seus interesses pessoais. Ora entendia que deveria proceder de uma maneira, ora entendia que devia agir precisamente ao contrario.
Sua indecisão era tamanha que, se um dia pedissem para que escolhesse entre um prato de comida e uma tigela com água, era capaz de morrer de sede e de fome, antes que conseguisse escolher entre um dos dois.
De dia, enquanto estava trancando sozinho em seus aposentos, o Rei enchia-se de coragem. “De hoje não passa, à noite lhe contarei tudo”, dizia para com os seus botões. Á noite, porém, ao ver Rainha, toda a construção mental que havia feito durante todo o dia era reduzida a pó, e novamente sua alma era invadida por dúvidas de todos os tipos. “Falo ou não falo”, interrogava-se a si próprio. “Mas vejam só como ela ama esse garoto”, pensava ao ver a Rainha enchendo o principezinho de mimos. “Se tivermos essa conversa hoje, no estado de espírito em que ela se encontra, provavelmente fará um escândalo... Por outro lado, um dia terei que falar sobre isso com ela, e quanto mais cedo melhor... E agora, falo ou não falo”. E não saia disso, acabando por não falar nada.
E assim, corroído por sua indecisão, o Rei passou vários de seus dias.
VII
Jantavam os dois.
A mesa onde costumavam jantar era tão grande que, muitas vezes, a distância entre os dois era tamanha, que tinham que falar um com o outro gritando. Dessa vez, a Rainha resolveu sentar próxima ao marido. Quando este chegou para jantar, mal ele se instalara no seu lugar, ela logo concluiu, pela maneira como desdobrou o guardanapo e afastou com um gesto brusco, os copos que tinha diante, que ele não estava bem disposto.
Findando o jantar, a Rainha e o marido dirigiram-se para um dos aposentos do palácio.
- Então, meu querido, o que de tão sério você queria me contar? – disse ela, com uma voz agradável.
O Rei não respondeu imediatamente, ficou alguns minutos calado, pensando.
- Bem... Eu não sei por onde começar... É um assunto tão complicado, tão importante...
- Ora, vamos, meu amor, diga logo. O que pode ser tão importante assim? Os conselheiros estão te perturbando novamente com aquele problema com a Neerlâdia? – disse de um modo muito jovial, quase trocista.
O Rei novamente fez silêncio. Olhou por alguns instantes para o rosto da Rainha e, ao ver o sorriso que principiava em seu rosto, encheu-se de coragem.
- É sobre nosso filho.
- Nosso filho? O que tem ele? – disse ela, agora com uma voz séria e cheia de preocupação.
- Bem, minha querida, você sabe... Nosso filho está próximo de fazer dezoitos anos... É um rapaz forte, educado, inteligente...
- Vamos, homem, deixe de rodeios e fale logo o que deseja! – disse ela, interrompendo o pensamento do marido.
- Bem... Não sei como dizer isso, minha querida, mas vamos ter que revogar nossa decisão quanto a proibição das mulheres.
- Mas você sabe que isso é impossível – disse gritando. – Por acaso, esqueceu da profecia? Quer matar o seu filho?
- Não, naturalmente não esqueci a profecia... Acontece que, a profecia fala que ele morrerá de amor, mas não diz quando... Além disso, existe algo que talvez você ainda não tenha pensado. Se nosso filho nunca conhecer uma mulher, ele não poderá ter filho e assim, nossa dinastia e nosso reino ficaram seriamente ameaçados.
Calaram-se ambos. A Rainha ficou, por alguns instantes, pensativa, como que digerindo as informações que o marido acabara de lhe dar.
- Não, isso é um absurdo, você vai matar meu filho – gritou, quebrando o silêncio. Eu não permitirei um absurdo desses, não permitirei...
O Rei balançou a cabeça com impaciência.
- Minha querida, amanha revogarei essa ordem...
- Não, eu não permitirei... Eu não permitirei... – disse ela, chorando muito.
- Infelizmente, minha querida, isso não é um pedido. É um aviso. Amanha tudo estará acabado.
E ao dizer isso, o Rei abandou o quarto, deixando a Rainha sozinha.
VIII
A ordem foi revogada.
Nas semanas seguintes os arredores do palácio foram invadidos por milhares de mulheres, de todos os tipos. O jovem Príncipe, como era de se esperar, ficou completamente fascinado com essa nova situação.
Entretanto, o rapaz mal teve tempo para aproveitar a nova realidade em que passou a viver. Poucas semanas após revogar a ordem de proibição das mulheres, o velho Rei caiu de cama, muito adoentado.
Todos os médicos do reino foram chamados. Dezenas de exames foram feitos. Mas nada adiantou. A doença evoluiu muito rapidamente e, poucas semanas depois dos primeiros sintomas, o velho Rei faleceu, sob a suspeita de ter sido envenenado.
Após sua morte, foi decretado luto oficial de uma semana em todo o reino. Dezenas de milhares de súditos acompanharam o enterro do Rei e juraram vingança contra o Rei da Neerlândia, suspeito de ter sido o mandante do envenenamento.
Passado o enterro, o jovem Príncipe foi nomeado regente do reino e passou a governar sob os olhos atentos de sua controladora mãe.
IX
Tirando o fato de que, agora, como regente do reino, ele precisava comparecer a alguns eventos sociais, a vida do jovem príncipe pouco se modificou com a morte de seu pai. Continuava, ainda, a passar grande parte de sua vida preso no palácio, sob os olhos vigilantes da mãe.
Mesmo após a revogação da proibição de contanto com as mulheres, o Príncipe pouco tinha contanto com o gênero feminino, pois nas poucas vezes que saia para os eventos sociais, a presença feminina, por ordem da Rainha, era restringida ao máximo.
X
Se a vida humana fosse como um cálculo matemático, seria muito fácil perceber que a vida do jovem Príncipe estava fadada, para sempre, ao marasmo que dominava os seus dias. Ao menos, enquanto sua controladora mãe existisse. Mas, ao contrário da matemática, onde a ordem dos fatores não altera o resultado, a vida humana é impossível de ser calculada, justamente porque um mínimo detalhe, por mais simples que possa parecer, é capaz de alterar uma vida inteira. Assim, nesse caso, é correto afirmar que, para os seres humanos, a ordem dos fatores alteram - e muito, o resultado de uma vida inteira.
As pessoas chamam esses pequenos detalhes, capazes de alterar uma vida inteira, de vários nomes; para alguns, é sorte; já para outros, destino. Os nomes podem ser diferentes, mas as conseqüências desses pequenos fatores na vida humana é a mesma: esses seres, sempre caprichosos, tornam possível o impossível.
Com o nosso Príncipe, não foi diferente.
Tudo começou uma semana antes da festa de São N., padroeiro do reino da Cracôvia, quando a Rainha foi acometida por um forte resfriado. Acamada e debilitada, ela não pôde estar presente nem nos preparativos para a festa, nem na festa, e isso fez com que a organização da festa fosse bem mais tolerante em relação à presença feminina no local.
Logo que souberam da doença da Rainha, os nobres que iriam participar da festa em homenagem ao padroeiro, trataram de embelezar ao máximo suas filhas.
No dia da festa, o salão estava lotado. Toda a aristocracia do reino havia aparecido, especialmente as mulheres. Estavam presentes no salão, gente de idades e caráter diversos, mas todas interessadas na mesma coisa: o jovem Príncipe herdeiro.
Durante a festa, como costuma acontecer em qualquer aglomeração de pessoas, os convidados se dividiram em vários grupos distintos, que freqüentemente mudavam entre si.
Foi no meio dessa confusão de grupos e pessoas diferentes, que ele a viu pela primeira vez. Era uma moça que representava ai seus vinte e quatro anos, no pleno desenvolvimento.
Com extrema descrição, o Príncipe tratou de se aproximar da jovem, que mais tarde veio a descobrir que se chamava Carolina, – nome que ganhou em homenagem a Rainha Carolina da Moldávia -, e iniciou uma conversa reservada. E ali mesmo, no meio dos convidados, antes do sol banhar o firmamento com suas luzes, o Príncipe já estava completamente apaixonado.
XI
Foi muito fácil para a Rainha, perceber que, apesar de todas as suas precauções, o rapaz havia se apaixonado.
Depois que conheceu Carolina, o Príncipe passava os dias distraído, suspirado pelos cantos do palácio. Percebia-se, pela extrema felicidade que o jovem aparentava, que ele estava vivendo um sonho. O Príncipe vivia agora no reino encantado do amor, onde nada se parece com a realidade e tudo é belo e mágico.
Com a ajuda de espiões, a Rainha descobriu a identidade da mulher, pela qual o seu filho havia se apaixonado. Com a identidade em mãos, ela foi ter uma conversa com o seu filho. Durante a conversa, a Rainha deixou claro que, não só não aprovava o relacionamento, como também o proibia de todas as maneiras.
O Príncipe, como era de se esperar, não aceitou a proibição da mãe, e jurou que fugiria com a sua amada.
XII
Logo que a discussão terminou, o Príncipe, por ordem da Rainha, foi trancafiado em um dos quartos do castelo.
Durante o tempo em que permaneceu preso, o Príncipe recebia apenas a visita da mãe e de alguns criados, que vinha lhe trazer mantimentos e limpar o lugar.
No sétimo dia do cárcere, ele soube, por intermédio de um dos criados, que a sua amada havia morrido, sob a suspeita de envenenamento.
Horas mais tarde, quando a sua mãe veio lhe visitar, ouviu-se por todo o lugar um grito seco e cheio de dor.
O jovem Príncipe havia acabado de se enforcar.
XIII
A morte do marido e do filho em tão pouco tempo, foi um duro golpe na saúde física e metal da Rainha.
Poucos dias depois da morte do filho, ela caiu doente. Vários médicos foram chamados para cuidar dela, mas a verdade é que a Rainha nunca mais se recuperou e, alguns meses depois do início da doença, ela foi declarada mentalmente incapaz.
A Rainha passou os seus últimos anos de vida presa em uma cama, em um dos quartos do palácio. Os criados que cuidaram dela em seus momentos finais, dizem que a velha Rainha passou seus últimos anos de vida repetindo constantemente uma única frase:
- Foi por amor, foi tudo por amor. Foi por amor...

[Contos Reais] Sobre Ratos e Gatos

I

A construção do Palácio de Cristal foi um marco na história do povo de Macondo. Segundo conta a crônica oficial do reino, tudo começou quando o rei Pedro, o Grande, teve um sonho revelador durante a noite. Sobre o conteúdo desse sonho, existem, entre os historiadores do reino, muitas divergências. Uns dizem que neste sonho, foi revelado ao Rei, por uma criatura divina, que caso ele construísse um palácio no pântano de Smolieski, surgiria ao redor do palácio a mais bela cidade já construída. Já para outros historiadores, a criatura revelou a Pedro, que se ele construísse um palácio no pântano, surgiria ao seu redor uma cidade que nunca seria conquistada.

Se essas histórias são verdadeiras ou não, não nos interessa. A verdade é que no ano da graça de 1703 o rei Pedro, o Grande, rumou, juntamente com cem mil trabalhadores, para o pântano de Smolieski, e iniciou a construção do palácio de cristal.

Durante anos, dezenas de milhares de trabalhadores trabalharam na construção do palácio. Para melhor acompanhar supervisionar as obras, o Rei alojou-se em uma luxuosa cabana, onde permaneceu até o final da construção do palácio, que aconteceu quinze anos depois do inicio das obras.

O custo humano dessa construção foi terrível. Dizem que boa parte do palácio e demais prédios públicos, foram erguido sobre o ossuário dos operários mortos, gente que o Rei arrebanhou de todos os lugares do país. O produto final, porém, foi uma maravilha. O Palácio de Cristal é até hoje uma das construções mais imponentes e belas que existem e ao seu redor surgiu uma prospera cidade chamada Fortaleza.

II

O problema de construir uma cidade ao redor de um pântano, é que esta é constantemente invadida por animais que já viviam por lá antes da construção da cidade. Com Fortaleza não foi diferente. Ela era constantemente invadida pelos mais diversos animais que o leitor possa imaginar. Cobras, sapos, grilos, baratas e, principalmente, ratos, eram visto com freqüência pelas ruas da cidade. Até mesmo o Palácio de Cristal sofria com esse problema, sendo infestado por ratos.

Os primeiros habitantes do palácio até se sentiram incomodados com a presença dos ratos, mas com o passar dos anos, os moradores do local, cansados de lutarem inutilmente contra as forças da natureza, aceitaram a presença dos animais e estes passaram a ser vistos com naturalidade pelos corredores do palácio.

Por muitos anos, os ratos tiveram passe livre pelos corredores do palácio. Essa situação perdurou até o dia em que o príncipe herdeiro de Macondo, Paulo II, casou-se com a princesa Carolina, a Bela, filha do rei da Neerlândia.

Logo que chegou ao palácio, a princesa, que havia sido criada no higiênico castelo da Moronvia, localizado nos gélidos Alpes da Neerlândia, sentiu-se muito incomodada com os ratos que infestavam o lugar. Por anos e anos, ela exigiu, sem sucesso, que o seu marido fizesse algo para resolver o problema dos ratos.

O seu marido, que estava mais preocupado com a crescente insatisfação dos seus súditos, devido à imensa carga de imposto que lhes era cobrada, nada fez a respeito disso e assim, a contragosto, a princesa Carolina teve que viver por anos entre os ratos que infestavam o lugar.

Até que um dia, o seu marido, que já havia se tornado Rei de Macondo, sofreu um misterioso acidente nas escadas do palácio, e acabou morrendo. Com a morte do marido, Carolina, que agora era a rainha do lugar, acabou herdando do marido o poder de decisão sobre todas as coisas do reino.

Com o poder em mãos, os ratos se tornaram um problema de segurança nacional e uma reunião com os conselheiros reais foi convocada para discutir o assunto.

III

Durante a reunião, foram apresentadas algumas alternativas para solucionar o problema dos ratos. Primeiro, foi sugerido que se espalhassem centenas de ratoeiras por todo o castelo. Entretanto, a idéia foi rejeitada pela Rainha, que alegou que o efeito visual das ratoeiras era muito feio.

Logo depois, foi sugerido que se espalhasse pedacinhos de queijo envenenado pelo castelo. Mas novamente a idéia foi descartada pela Rainha, que alegou que seus cachorros de estimação poderiam comer, acidentalmente, os queijos.

As horas foram passando.

A rainha foi ficando impaciente e os conselheiros desesperados. Todos já temiam por suas vidas, já que a Rainha Carolina não gostava de ser contrariada, quando um dos conselheiros teve a idéia de trazer gatos para acabar com os ratos. Pois, segundo ele, os gatos além de discretos, não trariam perigo para os cachorros da Rainha.

Com alguma demora, a Rainha aceitou a idéia, mas sob uma condição: ela não queria gatos comuns em seu castelo, e sim gatos de uma raça especial, muito rara e cara, criada pelos reis da Rurânia.

IV

Logo que a reunião terminou, um conselheiro foi mandado à Rurânia, tendo retornado semanas depois a Macondo, trazendo consigo várias dezenas de gatos, que foram soltos no palácio.

Quando os gatos foram soltos, os conselheiros esperavam que o problema dos ratos fosse resolvido em algumas semanas. Mas, infelizmente, passadas mais de duas semanas, o número ratos do castelo não só não diminuiu como pareciam ter aumentando de tamanho.

O aumento do número de ratos foi percebido por todos os conselheiros, mas no início, nenhum deles teve coragem de dizer o que estava ocorrendo. Entretanto, passado alguns dias, a situação começou a ficar insustentável, principalmente depois que a própria Rainha também começou a notar o aumento no número de ratos do castelo.

Temendo por suas vidas, os conselheiros reais marcaram uma reunião emergencial para discutir o assunto. Durante a reunião, eles discutiram dezenas de probabilidades para o aumento do número de ratos do local e após horas e horas de reunião, chegaram a incrível conclusão que não entendiam nada sobre o assunto e que o melhor a fazer era consultar um especialista.

Tendo sido acertada essa resolução, ao final da reunião partiram todos para a casa do veterinário do reino.

V

Nesse dia, quando foi trabalhar, o veterinário levou um susto ao encontrar um grupo de mais de dez conselheiros reais, com expressões assustadas, em seu local de trabalho. Ainda assustado, o veterinário perguntou o motivo da visita.

Levou algum tempo até que os conselheiros conseguissem explicar o motivo de estarem ali. O veterinário escutou, com muita atenção, a explicação do problema dos conselheiros e quando esta, finalmente, acabou ele rapidamente solucionou o problema.

O número de ratos continuava a aumentar porque os gatos que foram trazidos simplesmente não sabiam caçar e nem comiam ratos. Essa raça de gatos havia sido criada pelos reis da Rurânia e por isso, sempre tiveram quem os alimentasse facilmente, assim, com o passar dos anos, essa raça perdeu completamente o seu instinto de caça.

VI

Logo que saíram do veterinário, os conselheiros que - como bons burocratas que eram não sabiam fazer nada sozinhos -, resolveram marca mais uma reunião emergencial para discutir o assunto.

Quando a reunião acabou, eles chegaram à conclusão que não poderiam contar o acontecido a Rainha, pois a mesma não tolerava erros e provavelmente todos os conselheiros seriam torturados e mortos se ela descobrisse que os gatos que, ela mesmo mandou trazer, não comiam ratos. Assim, a única solução a que eles chegaram foi que eles próprios matassem os ratos durante a noite, enquanto a rainha estava dormindo.

E foi exatamente isso que aconteceu.

VII

Durante vários meses, os conselheiros foram clandestinamente a noite para o palácio e ficaram por horas e horas matando ratos. O problema é que, para cada rato que eles matavam, nasciam mais três. Assim, não tiveram escolha e passaram a ir também de dia para o palácio e, quando menos perceberam, já estavam todos vivendo por lá.

Mas, apesar de todo esse esforço, o trabalho dos conselheiros não estava adiantando, e os ratos continuavam a aumentar, fazendo com que a Rainha fica-se ainda mais desconfiada de que havia algo de errado com os gatos. Sem ter outra alternativa, eles resolveram marcar mais uma reunião para discutir o assunto.

No dia marcado, os conselheiros se reuniram em um dos aposentos do castelo.

- Temos que fazer alguma coisa. A continuar nesse ritmo morremos ou de cansaço ou pelas mãos da Rainha – disse o líder dos conselheiros.

- É verdade! – gritou um deles.

- Eu passo mais de quinze horas por dia só matando ratos e essas pequenas pragas só aumentam. Não aguento mais, há mais de seis meses que eu não vejo minha família – disse chorando, um dos conselheiros.

- Temos que fazer alguma coisa. Temos que fazer alguma coisa – gritaram vários deles.

- Bem, meus amigos, acho que todos aqui concordam comigo quando eu digo que é impossível matar todos os ratos desse palácio, nem se trabalhássemos vinte quatro horas por dia conseguiríamos...

Todos os presentes balançaram as cabeças afirmativamente.

...Assim, não nos resta outra alternativa que não seja eliminar a Rainha...

- Mas como faremos isso? – perguntaram vários dos presentes.

- Veneno. Vamos envenená-la durante o jantar.

A reunião durou mais algumas horas, tempo usado para detalhar melhor o plano para matar a Rainha.

VIII

Passaram-se os dias.

O plano para matar a rainha foi intensamente discutido e ensaiado pelos conselheiros.

No dia marcado, os conselheiros colocaram, na carne que seria consumida pela Rainha durante o jantar, uma dose cavalar de um veneno que não possuía cheiro ou sabor. Esperavam com isso que a Rainha viesse a falecer ainda durante o jantar.

O plano era quase perfeito, e provavelmente teria dado certo, se não fosse pela intervenção de Fifo, um dos cães de estimação da Rainha, que mordiscou um naco da carne envenenada, antes que a Rainha a colocasse na boca.

A dose de veneno que havia sido colocada na carne era tão grande, que o pobre cão caiu morto poucos segundos após ter ingerido a carne.

Quando percebeu que acabara de escapar de uma tentativa de assassinato, a Rainha Carolina ficou furiosa, e convocou imediatamente uma reunião com os conselheiros para discutir o assunto.

Na reunião, os conselheiros, desesperados e morrendo de medo, por causa do fracasso do plano, sugeriram a Rainha que a tentativa de assassinato era obra de algum grupo separatista, revoltado com os pesados tributos cobrados pela coroa real.

A Rainha, ainda assustada e nervosa com a tentativa de assassinato, não conseguiu raciocinar direito e acabou acatando a idéia dos conselheiros. Logo no dia seguinte a reunião, a Rainha editou uma série de decretos onde aumentava os impostos e criava uma nova espécie de polícia para combater um inimigo interno que não existia.

IX

Nós somos levados, erroneamente, a crer que as grandes revoluções foram iniciadas por obra de um grupo organizado de pessoas. Mas saiba, leitor querido, que o nível de organização de um grupo revolucionário é diretamente proporcional a sua chance de fracasso. Quanto mais organizado é um grupo, maiores as chances de o governo inimigo saber de sua existência e eliminá-lo. As grandes revoltas populares, portanto, foram iniciadas do nada, desencadeadas por fatos corriqueiros e levadas a frente por grupos desorganizados de pessoas, mas com um mesmo ideal.

E foi exatamente assim que as coisas ocorreram em Macondo. Logo depois da tentativa de assassinato, a Rainha aumentou sensivelmente os impostos cobrados pela coroa e criou uma polícia política, que tinha como método corriqueiro de interrogatório a tortura.

É óbvio que tais medidas foram muito impopulares. Primeiro porque a população de Macondo já pagava uma altíssima carga de impostos e segundo porque a policia matava e torturava pessoas na busca de um inimigo inexistente.

A insatisfação da população crescia dia após dia. Pelas casas, ruas e praças da cidade só se ouviam criticas a Rainha, mas ninguém tinha coragem de fazer nada. E assim, com o passar dos anos, o governo foi ficando mais ditatorial e as poucas vozes dissidentes foram massacradas uma a uma.

Até que um dia, o veterinário do reino recusou-se a trabalhar gratuitamente para um dos chefes da policia política. Quando soube da notícia, o chefe da polícia ordenou sua execução sumária, o que foi feito no mesmo dia.

Revoltadas, algumas pessoas saíram às ruas pedindo o fechamento de lojas em respeito ao luto pela morte do pobre veterinário. O protesto pacífico foi violentamente reprimido pela polícia política, causando novas mortes.

Nos dias seguintes, novos protestos foram realizados e as manifestações foram ganhando adeptos. O que era meia dúzia virou uma multidão. E o que era uma marcha pacífica virou uma revolta violenta. E o que era uma revolta, virou uma guerra civil.

Nas semanas seguintes, centenas de batalhas foram travadas pela cidade, entre a população e a polícia, com várias vitorias da população. Dia após dia a população ia ganhando terreno frente à polícia.

Quando percebeu que a derrota era inevitável, a Rainha Carolina tentou fugir de Macondo para a Neerlândia, onde o seu pai era Rei. Mas, na metade do caminho, a carruagem da Rainha foi interceptada pelas tropas revolucionarias e ela foi presa.

X

Após ser presa, a Rainha foi levada para a mesma prisão que costumava mandar os inimigos do governo. Lá foi julgada e sentenciada à morte, juntamente com seus conselheiros e todos os outros membros do seu governo.

Quando foi informada da sua iminente execução, a rainha Carolina fez chegar uma exigência ao comitê revolucionário - não aceitaria ser morta por um carrasco de Macondo, que utilizava o machado para a decapitação. Exigia a "importação" de um carrasco neerlândês, pois estes usavam a espada. Para justificar a sua exigência, teria dito "uma Rainha não curva a cabeça para ninguém e em nenhuma situação", pois as execuções com a espada eram feitas com a vítima ajoelhada, mas com a cabeça erguida.

Ela obteve o que requisitava, mostrando que até nos seus últimos momentos, ainda era capaz de impressionar o povo. No dia marcado, ela foi decapitada por um carrasco neerlândês, tal como pedira.

Depois da morte da rainha, o governo de Macondo foi transferido para um novo prédio e o palácio de cristal ficou vazio. Bem, nem tão vazio assim, o local continua sendo habitado pelos ratos e pelos gatos, os principais responsáveis pela revolução de Macondo.