sábado, 8 de outubro de 2011

[Contos Reais] O Reino Invisível

I

No alvorecer do século XVIII, quando as primeiras indústrias começaram a ser instaladas em Sebastianpool, a população camponesa achou que finalmente suas vidas iriam mudar.

O rei Balduíno II bradava para os quatro cantos do reino que o progresso finalmente havia chegado ao lugar, e que agora a vida de todos seria bem diferente.

Mas, décadas depois da instalação das primeiras fábricas, toda a esperança e idealismo de uma vida melhor já haviam acabado. Pior, as condições de trabalho dos operários eram bem piores do que as dos camponeses.

Nas fábricas, as condições eram precárias: eram ambientes com péssima iluminação, abafados e sujos. Os salários recebidos pelos trabalhadores eram muito baixos, mal davam para comer. Na maioria das fábricas, chegava-se a empregar o trabalho infantil e feminino. Os empregados trabalhavam dezoito horas por dia e estavam sujeitos a castigos físicos dos patrões. Não havia direitos trabalhistas como, por exemplo, férias, décimo terceiro salário, auxílio doença, descanso semanal remunerado ou qualquer outro benefício. Quando desempregados, ficavam sem nenhum tipo de auxílio e passavam por situações de precariedade.

É claro que os trabalhadores não aceitaram pacificamente essa situação. Em poucos anos, os operários se juntaram em sindicatos e passaram a lutar por seus direitos. Greves foram feitas. Passeatas foram realizadas por todos os cantos do reino.

Esforço inútil.

O Rei continuou insensível a situação dos operários.

As condições de trabalho dos operários pioravam a cada dia. Milhares morriam todos os meses, vítimas de doenças causadas pelo excesso de trabalho e pela insalubridade dos locais de trabalho.

Os acidentes de trabalhos tornaram-se banais.

Fortalecidos por essa situação de precariedade, os sindicatos convocaram uma greve geral, que logo foi aceita e aderida pelos trabalhadores, exigindo a implantação do descanso semanal remunerado

Para tentar acabar com a greve, o Rei perseguiu, prendeu e assassinou vários trabalhadores.

Nada adiantou.

A greve continuou de pé.

Sofrendo pressões de todos os lados, o Rei não viu outra alternativa e convocou uma reunião com seus assessores, para discutir o assunto.

II

Ás onze horas da noite, os assessores e ministros chegaram com seus respectivos planos ao castelo do Rei, onde tinha ficado acertado que se realizaria a reunião extraordinária. O Rei recebeu todos pessoalmente e os levou para um grande salão do castelo, que lhe fazia às vezes de gabinete.

No gabinete, eles esperaram ainda alguns minutos, pelos conselheiros retardatários, antes de iniciarem a reunião. Às onze e meia, a reunião foi iniciada por um pronunciamento do ministro das finanças:

- Dado o adiantado da hora, acredito que não haverá de chegar mais ninguém a essa reunião, assim, acredito que possamos começá-la – disse, levantando-se apressadamente e dirigindo-se ao Rei.

O Rei que, durante o tempo em que se esperou o inicio da reunião, sentara-se numa poltrona baixa, as duas mãos rechonchudas de velho pousadas simetricamente de cada lado: cochilava. Ao escutar ruído da voz do ministro, entreabriu com esforço os olhos:

- Pois sim, pois sim, façam o favor, começa a ser tarde – disse ele, abaixando a cabeça e fechando os olhos.

- Meu amado Rei – disse o Ministro das Finanças. – Nós não podemos, em nenhuma hipótese, aceitar o pedido dos grevistas. Por um motivo bem simples, nossa economia sofrerá graves prejuízos se vossa excelência atender o que eles estão pedindo. Além disso, as conseqüências a médio e longo prazo são catastróficas, podendo nossa economia ser invadida por produtos importados de Macondo, onde não existe descanso semanal remunerado e os operários trabalham até dezoito horas por dia.

Terminado o seu parecer, o Ministro das Finanças voltou-se a sentar e foi à vez do Ministro da Integração Nacional falar:

- Além disso, meu amado rei, caso tal reivindicação seja aceita hoje, abriremos um perigoso precedente para o futuro. E digo mais, caso concordemos com tal reivindicação, quem nos garante que outras não serão feitas no futuro?

- Sim, sim, disso eu já sei. Mas o que faremos para contornar a situação? – perguntou o Rei, abrindo os olhos e bocejando.

Nesse ponto, houveram muitas sugestões e divergências. Cada ministro sugeriu um plano diferente para o assunto. Discutiram e ameaçaram-se mutuamente durante horas, até perceberem que o Rei estava dormindo, não prestando à mínima atenção ao que os ministros e assessores diziam.

Quando o ruído monótono das vozes acabou, o Rei finalmente acordou. Ainda sonolento, ele disse:

- Meus senhores, dado o avançado da hora, dou por encerrado esta reunião. Amanhã, digam aos grevistas que concordo com a reivindicação. Diga-lhes que eles trabalharão por apenas seis dias por semana.

E ao dizer isso, o Rei levantou-se da poltrona onde estava e, sob os olhares espantando dos conselheiros, saiu da sala e a reunião acabou.

III

No outro dia, quando a decisão do Rei foi anunciada, houveram várias festas pelo reino. Durante as comemorações, o nome do Rei Balduíno II, foi gritado várias vezes pelos operários.

IV

Tinham-se passado uma semana depois do que acabo de narrar.

Os operários, com a garantia que a promessa do Rei seria cumprida, voltaram a trabalhar.

No oitavo dia após a greve, os operários foram em peso para a praça central do reino, onde havia sido marcado um pronunciamento do rei sobre a greve.

Na hora marcada, um dos assessores do Rei apareceu na praça e, em voz alta, num tom monótono, pôs-se a ler um decreto expedido pelo Rei. Esse decreto era assaz complicado e difícil de compreender. O original estava assim:

Eu, Bladuíno II, Rei de Sebastianpool, declaro que, a partir desta data, a semana em Sebastianpool passará a possuir apenas seis dias, e os dias passaram a passarão a ter vinte e oito horas. Deste modo, cumpro minha promessa para com os grevistas.

Balduíno II

Quando o dispositivo terminou de ser lido, houve um grande silêncio na praça. Depois de alguns minutos, quando a informação foi finalmente processada pelos presentes, uma grande vaia pode ser ouvida por toda a praça.

O que era uma simples vaia logo se transformou em um ruidoso brado de ira e a multidão começou a gritar palavras de ordens contra o Rei.

V

As semanas seguintes foram complicadas.

Revoltados, os operários destruíram várias fábricas, o comércio fechou, os transportes pararam e o governo, impotente, não conseguiu dominar o movimento pela força.

Para contornar o problema, outra reunião emergencial foi marcada.

Desta vez, porém, a reunião durou pouco tempo, o Rei, muito impaciente, disse que resolveria as coisas a sua maneira, e prometeu editar, no outro dia, um decreto que resolveria tudo.

VI

Como havia prometido, o Rei editou um decreto em que, não só proibia como também negava a existência de qualquer tipo de operário em seu reino.

Mas ai surgiu outro grande problema; sem os operários, não havia quem trabalhasse nas fábricas e assim os empresários passaram a pressionar e fazer oposição ao Rei.

O Rei resolveu esse problema a sua maneira, editando um decreto em que proibia a existência de qualquer empresário em seu reino. Sem os empresários, a economia do reino acabou e a população foi jogada a miséria.

Faminta, a população logo passou a fazer oposição ao Rei. Dia após dia a oposição ia aumentando; ela já estava com ares de revolução quando o Rei editou um decreto onde dizia que não haviam súditos em seu reino.

Com o sumiço dos súditos, o Rei passou a governar um reino vazio. Sem ter em quem mandar, o rei editou seu último decreto, onde afirmava não existir mais nenhum reino chamado Sebastianpool.

VII

Atualmente, aqueles que chegam ao lugar onde ficava o antigo reino de Sebastianpool encontram um grande terreno vazio e uma placa com os seguintes dizeres:

Por ordem do Rei Balduíno II, se alguém tentar encontrar um reino neste lugar, será processado; se insistir, será fuzilado

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