sábado, 8 de outubro de 2011

[Contos Reais] Sobre Ratos e Gatos

I

A construção do Palácio de Cristal foi um marco na história do povo de Macondo. Segundo conta a crônica oficial do reino, tudo começou quando o rei Pedro, o Grande, teve um sonho revelador durante a noite. Sobre o conteúdo desse sonho, existem, entre os historiadores do reino, muitas divergências. Uns dizem que neste sonho, foi revelado ao Rei, por uma criatura divina, que caso ele construísse um palácio no pântano de Smolieski, surgiria ao redor do palácio a mais bela cidade já construída. Já para outros historiadores, a criatura revelou a Pedro, que se ele construísse um palácio no pântano, surgiria ao seu redor uma cidade que nunca seria conquistada.

Se essas histórias são verdadeiras ou não, não nos interessa. A verdade é que no ano da graça de 1703 o rei Pedro, o Grande, rumou, juntamente com cem mil trabalhadores, para o pântano de Smolieski, e iniciou a construção do palácio de cristal.

Durante anos, dezenas de milhares de trabalhadores trabalharam na construção do palácio. Para melhor acompanhar supervisionar as obras, o Rei alojou-se em uma luxuosa cabana, onde permaneceu até o final da construção do palácio, que aconteceu quinze anos depois do inicio das obras.

O custo humano dessa construção foi terrível. Dizem que boa parte do palácio e demais prédios públicos, foram erguido sobre o ossuário dos operários mortos, gente que o Rei arrebanhou de todos os lugares do país. O produto final, porém, foi uma maravilha. O Palácio de Cristal é até hoje uma das construções mais imponentes e belas que existem e ao seu redor surgiu uma prospera cidade chamada Fortaleza.

II

O problema de construir uma cidade ao redor de um pântano, é que esta é constantemente invadida por animais que já viviam por lá antes da construção da cidade. Com Fortaleza não foi diferente. Ela era constantemente invadida pelos mais diversos animais que o leitor possa imaginar. Cobras, sapos, grilos, baratas e, principalmente, ratos, eram visto com freqüência pelas ruas da cidade. Até mesmo o Palácio de Cristal sofria com esse problema, sendo infestado por ratos.

Os primeiros habitantes do palácio até se sentiram incomodados com a presença dos ratos, mas com o passar dos anos, os moradores do local, cansados de lutarem inutilmente contra as forças da natureza, aceitaram a presença dos animais e estes passaram a ser vistos com naturalidade pelos corredores do palácio.

Por muitos anos, os ratos tiveram passe livre pelos corredores do palácio. Essa situação perdurou até o dia em que o príncipe herdeiro de Macondo, Paulo II, casou-se com a princesa Carolina, a Bela, filha do rei da Neerlândia.

Logo que chegou ao palácio, a princesa, que havia sido criada no higiênico castelo da Moronvia, localizado nos gélidos Alpes da Neerlândia, sentiu-se muito incomodada com os ratos que infestavam o lugar. Por anos e anos, ela exigiu, sem sucesso, que o seu marido fizesse algo para resolver o problema dos ratos.

O seu marido, que estava mais preocupado com a crescente insatisfação dos seus súditos, devido à imensa carga de imposto que lhes era cobrada, nada fez a respeito disso e assim, a contragosto, a princesa Carolina teve que viver por anos entre os ratos que infestavam o lugar.

Até que um dia, o seu marido, que já havia se tornado Rei de Macondo, sofreu um misterioso acidente nas escadas do palácio, e acabou morrendo. Com a morte do marido, Carolina, que agora era a rainha do lugar, acabou herdando do marido o poder de decisão sobre todas as coisas do reino.

Com o poder em mãos, os ratos se tornaram um problema de segurança nacional e uma reunião com os conselheiros reais foi convocada para discutir o assunto.

III

Durante a reunião, foram apresentadas algumas alternativas para solucionar o problema dos ratos. Primeiro, foi sugerido que se espalhassem centenas de ratoeiras por todo o castelo. Entretanto, a idéia foi rejeitada pela Rainha, que alegou que o efeito visual das ratoeiras era muito feio.

Logo depois, foi sugerido que se espalhasse pedacinhos de queijo envenenado pelo castelo. Mas novamente a idéia foi descartada pela Rainha, que alegou que seus cachorros de estimação poderiam comer, acidentalmente, os queijos.

As horas foram passando.

A rainha foi ficando impaciente e os conselheiros desesperados. Todos já temiam por suas vidas, já que a Rainha Carolina não gostava de ser contrariada, quando um dos conselheiros teve a idéia de trazer gatos para acabar com os ratos. Pois, segundo ele, os gatos além de discretos, não trariam perigo para os cachorros da Rainha.

Com alguma demora, a Rainha aceitou a idéia, mas sob uma condição: ela não queria gatos comuns em seu castelo, e sim gatos de uma raça especial, muito rara e cara, criada pelos reis da Rurânia.

IV

Logo que a reunião terminou, um conselheiro foi mandado à Rurânia, tendo retornado semanas depois a Macondo, trazendo consigo várias dezenas de gatos, que foram soltos no palácio.

Quando os gatos foram soltos, os conselheiros esperavam que o problema dos ratos fosse resolvido em algumas semanas. Mas, infelizmente, passadas mais de duas semanas, o número ratos do castelo não só não diminuiu como pareciam ter aumentando de tamanho.

O aumento do número de ratos foi percebido por todos os conselheiros, mas no início, nenhum deles teve coragem de dizer o que estava ocorrendo. Entretanto, passado alguns dias, a situação começou a ficar insustentável, principalmente depois que a própria Rainha também começou a notar o aumento no número de ratos do castelo.

Temendo por suas vidas, os conselheiros reais marcaram uma reunião emergencial para discutir o assunto. Durante a reunião, eles discutiram dezenas de probabilidades para o aumento do número de ratos do local e após horas e horas de reunião, chegaram a incrível conclusão que não entendiam nada sobre o assunto e que o melhor a fazer era consultar um especialista.

Tendo sido acertada essa resolução, ao final da reunião partiram todos para a casa do veterinário do reino.

V

Nesse dia, quando foi trabalhar, o veterinário levou um susto ao encontrar um grupo de mais de dez conselheiros reais, com expressões assustadas, em seu local de trabalho. Ainda assustado, o veterinário perguntou o motivo da visita.

Levou algum tempo até que os conselheiros conseguissem explicar o motivo de estarem ali. O veterinário escutou, com muita atenção, a explicação do problema dos conselheiros e quando esta, finalmente, acabou ele rapidamente solucionou o problema.

O número de ratos continuava a aumentar porque os gatos que foram trazidos simplesmente não sabiam caçar e nem comiam ratos. Essa raça de gatos havia sido criada pelos reis da Rurânia e por isso, sempre tiveram quem os alimentasse facilmente, assim, com o passar dos anos, essa raça perdeu completamente o seu instinto de caça.

VI

Logo que saíram do veterinário, os conselheiros que - como bons burocratas que eram não sabiam fazer nada sozinhos -, resolveram marca mais uma reunião emergencial para discutir o assunto.

Quando a reunião acabou, eles chegaram à conclusão que não poderiam contar o acontecido a Rainha, pois a mesma não tolerava erros e provavelmente todos os conselheiros seriam torturados e mortos se ela descobrisse que os gatos que, ela mesmo mandou trazer, não comiam ratos. Assim, a única solução a que eles chegaram foi que eles próprios matassem os ratos durante a noite, enquanto a rainha estava dormindo.

E foi exatamente isso que aconteceu.

VII

Durante vários meses, os conselheiros foram clandestinamente a noite para o palácio e ficaram por horas e horas matando ratos. O problema é que, para cada rato que eles matavam, nasciam mais três. Assim, não tiveram escolha e passaram a ir também de dia para o palácio e, quando menos perceberam, já estavam todos vivendo por lá.

Mas, apesar de todo esse esforço, o trabalho dos conselheiros não estava adiantando, e os ratos continuavam a aumentar, fazendo com que a Rainha fica-se ainda mais desconfiada de que havia algo de errado com os gatos. Sem ter outra alternativa, eles resolveram marcar mais uma reunião para discutir o assunto.

No dia marcado, os conselheiros se reuniram em um dos aposentos do castelo.

- Temos que fazer alguma coisa. A continuar nesse ritmo morremos ou de cansaço ou pelas mãos da Rainha – disse o líder dos conselheiros.

- É verdade! – gritou um deles.

- Eu passo mais de quinze horas por dia só matando ratos e essas pequenas pragas só aumentam. Não aguento mais, há mais de seis meses que eu não vejo minha família – disse chorando, um dos conselheiros.

- Temos que fazer alguma coisa. Temos que fazer alguma coisa – gritaram vários deles.

- Bem, meus amigos, acho que todos aqui concordam comigo quando eu digo que é impossível matar todos os ratos desse palácio, nem se trabalhássemos vinte quatro horas por dia conseguiríamos...

Todos os presentes balançaram as cabeças afirmativamente.

...Assim, não nos resta outra alternativa que não seja eliminar a Rainha...

- Mas como faremos isso? – perguntaram vários dos presentes.

- Veneno. Vamos envenená-la durante o jantar.

A reunião durou mais algumas horas, tempo usado para detalhar melhor o plano para matar a Rainha.

VIII

Passaram-se os dias.

O plano para matar a rainha foi intensamente discutido e ensaiado pelos conselheiros.

No dia marcado, os conselheiros colocaram, na carne que seria consumida pela Rainha durante o jantar, uma dose cavalar de um veneno que não possuía cheiro ou sabor. Esperavam com isso que a Rainha viesse a falecer ainda durante o jantar.

O plano era quase perfeito, e provavelmente teria dado certo, se não fosse pela intervenção de Fifo, um dos cães de estimação da Rainha, que mordiscou um naco da carne envenenada, antes que a Rainha a colocasse na boca.

A dose de veneno que havia sido colocada na carne era tão grande, que o pobre cão caiu morto poucos segundos após ter ingerido a carne.

Quando percebeu que acabara de escapar de uma tentativa de assassinato, a Rainha Carolina ficou furiosa, e convocou imediatamente uma reunião com os conselheiros para discutir o assunto.

Na reunião, os conselheiros, desesperados e morrendo de medo, por causa do fracasso do plano, sugeriram a Rainha que a tentativa de assassinato era obra de algum grupo separatista, revoltado com os pesados tributos cobrados pela coroa real.

A Rainha, ainda assustada e nervosa com a tentativa de assassinato, não conseguiu raciocinar direito e acabou acatando a idéia dos conselheiros. Logo no dia seguinte a reunião, a Rainha editou uma série de decretos onde aumentava os impostos e criava uma nova espécie de polícia para combater um inimigo interno que não existia.

IX

Nós somos levados, erroneamente, a crer que as grandes revoluções foram iniciadas por obra de um grupo organizado de pessoas. Mas saiba, leitor querido, que o nível de organização de um grupo revolucionário é diretamente proporcional a sua chance de fracasso. Quanto mais organizado é um grupo, maiores as chances de o governo inimigo saber de sua existência e eliminá-lo. As grandes revoltas populares, portanto, foram iniciadas do nada, desencadeadas por fatos corriqueiros e levadas a frente por grupos desorganizados de pessoas, mas com um mesmo ideal.

E foi exatamente assim que as coisas ocorreram em Macondo. Logo depois da tentativa de assassinato, a Rainha aumentou sensivelmente os impostos cobrados pela coroa e criou uma polícia política, que tinha como método corriqueiro de interrogatório a tortura.

É óbvio que tais medidas foram muito impopulares. Primeiro porque a população de Macondo já pagava uma altíssima carga de impostos e segundo porque a policia matava e torturava pessoas na busca de um inimigo inexistente.

A insatisfação da população crescia dia após dia. Pelas casas, ruas e praças da cidade só se ouviam criticas a Rainha, mas ninguém tinha coragem de fazer nada. E assim, com o passar dos anos, o governo foi ficando mais ditatorial e as poucas vozes dissidentes foram massacradas uma a uma.

Até que um dia, o veterinário do reino recusou-se a trabalhar gratuitamente para um dos chefes da policia política. Quando soube da notícia, o chefe da polícia ordenou sua execução sumária, o que foi feito no mesmo dia.

Revoltadas, algumas pessoas saíram às ruas pedindo o fechamento de lojas em respeito ao luto pela morte do pobre veterinário. O protesto pacífico foi violentamente reprimido pela polícia política, causando novas mortes.

Nos dias seguintes, novos protestos foram realizados e as manifestações foram ganhando adeptos. O que era meia dúzia virou uma multidão. E o que era uma marcha pacífica virou uma revolta violenta. E o que era uma revolta, virou uma guerra civil.

Nas semanas seguintes, centenas de batalhas foram travadas pela cidade, entre a população e a polícia, com várias vitorias da população. Dia após dia a população ia ganhando terreno frente à polícia.

Quando percebeu que a derrota era inevitável, a Rainha Carolina tentou fugir de Macondo para a Neerlândia, onde o seu pai era Rei. Mas, na metade do caminho, a carruagem da Rainha foi interceptada pelas tropas revolucionarias e ela foi presa.

X

Após ser presa, a Rainha foi levada para a mesma prisão que costumava mandar os inimigos do governo. Lá foi julgada e sentenciada à morte, juntamente com seus conselheiros e todos os outros membros do seu governo.

Quando foi informada da sua iminente execução, a rainha Carolina fez chegar uma exigência ao comitê revolucionário - não aceitaria ser morta por um carrasco de Macondo, que utilizava o machado para a decapitação. Exigia a "importação" de um carrasco neerlândês, pois estes usavam a espada. Para justificar a sua exigência, teria dito "uma Rainha não curva a cabeça para ninguém e em nenhuma situação", pois as execuções com a espada eram feitas com a vítima ajoelhada, mas com a cabeça erguida.

Ela obteve o que requisitava, mostrando que até nos seus últimos momentos, ainda era capaz de impressionar o povo. No dia marcado, ela foi decapitada por um carrasco neerlândês, tal como pedira.

Depois da morte da rainha, o governo de Macondo foi transferido para um novo prédio e o palácio de cristal ficou vazio. Bem, nem tão vazio assim, o local continua sendo habitado pelos ratos e pelos gatos, os principais responsáveis pela revolução de Macondo.

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