sábado, 8 de outubro de 2011

[Contos Reais] A maldição

I

Uma das coisas mais interessantes do gênero humano é o poder que os nossos atos, por mais insignificantes que sejam, possuem de continuarem existindo, mesmo após a nossa morte. O que fazemos nessa vida ecoa na eternidade, como a reverberação de um sino.

O que foi feito no alvorecer do ano da graça de mil seiscentos e sessenta e seis reverberou por muitos e muitos séculos, transformando para sempre a vida de milhares de pessoas.

Nesse ano, em um fatídico dia de junho, o Rei Paulo II da Moldávia, agrediu a socos e pontapés um pobre monge beneditino, após este ter-lhe implorado por esmola. O monge, em resposta a injusta agressão, rogou-lhe uma praga, dizendo que, enquanto um monge beneditino viver, jamais um primogênito dos seus descendentes viveria mais de um ano.

Se nada houvesse acontecido, este fato provavelmente seria esquecido pela história. Mas, de fato, a partir de então, todos os primogênitos daquela dinastia morreram antes de completarem um ano.

O leitor mais atento deve estar agora se perguntando o motivo de tais mortes. Para os leitores que não acreditam em pragas, maldições, magias e outras superstições eu posso alegar Hamlet: há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia. Já para aqueles leitores mais crédulos, eu posso alegar que a medicina daquela época era realmente muito ruim.

Superstições ou não, o fato é que os primogênitos dos descendentes do rei da Moldávia continuaram a morrer por muitos e muitos séculos. A maldição se revelou tão forte, que depois do vigésimo sexto primogênito morto, as mulheres que engravidavam de algum dos descendentes do Rei Paulo II, recusavam-se a cuidar de seus primogênitos, abandonando os recém-nascidos à morte.

E desse modo, mesmo amaldiçoados, a vida dos reis continuou a mesma por muitos e muitos anos

II

Quando o príncipe Victor nasceu, a maldição já contava mais de duzentos e oitenta e sete anos, e já havia vitimado mais de cento e trinta e quatro crianças. O próprio Victor somente se tornou o príncipe herdeiro da Moldávia após seu irmão, que nem ao menos chegou a ter um nome, morrer com três semanas de vida, por ter sido abandonado pela própria mãe.

Alheio à maldição que assolava sua família, o príncipe cresceu e se tornou um belo rapaz. Aos dezenove anos, o jovem já era o solteiro mais cobiçado de todo o reino. Mas casamento era uma palavra que ele não queria nem ouvir falar.

Nessa época, ele vivia como vivem todo os jovens solteiros e saudáveis, ou seja, matinha relações com todo tipo de mulher. Não era depravado, mas também não era um monge, como ele próprio costumava falar. Ele matinha essa prática desde os dezessete anos e até então tudo havia corrido bem, ou seja, não havia se entregado a depravação, não se apaixonara e nem pegara nenhuma doença.

Desde que iniciara essa vida, ele não conseguia passar muito tempo sem se relacionar com o sexo oposto. Apenas uma semana de continência involuntária já era o bastante para que aparecessem no príncipe os primeiros reflexos negativos. Ficava irritado por qualquer coisa, ansioso passava a andar de um lado para o outro, e demorava cada vez mais o seu olhar sobre qualquer mulher que passasse a sua frente, até mesmo as casadas.

Tal comportamento logo ficou conhecido pelo reino. Os homens, em sua maioria, odiavam-lhe, especialmente os casados. Já as mulheres, bem, as mulheres os amavam. Elas os amavam precisamente porque ele não lhes dava a mínima importância, desdenhado-as constantemente.

Nesse tempo, o príncipe Victor vivia sempre contente com a vida, consigo e com os outros; instintivamente, parecia convencido que não podia viver de outra maneira e de que nunca procedera mal. Não era capaz de perceber que os seus atos podiam prejudicar outras pessoas. Estava persuadido que, pela mesma razão que o peixe fora feito para viver na água, ele fora criado por Deus para amar o maior número de mulheres possíveis. E assim, ele esperava viver o resto de seus dias. Mas o destino, este ser caprichoso, achou por bem lhe pregar uma peça e os planos do príncipe acabaram saindo um pouco diferente do que ele imaginara...

III

Todos os desocupados, tanto os homens como as mulheres, vivem com a secreta e ingênua convicção de serem perfeitamente inocentes, persuadidos que todos ao seu redor estão dispostos a perdoar-lhes. “Muito lhe será perdoado pelo muito que amou; muito lhe será perdoado pelo muito que se divertiu”.

Com o nosso príncipe não era diferente. E crendo sinceramente que todos os seus erros seriam perdoados, ele vivia em todas as festas e bailes promovidos no reino, sempre atrás de novas conquistas.

E foi exatamente em um baile, que ele a conheceu.

O baile estava no auge. Os vários grupos do lugar discutiam alegremente sobre os problemas do reino. Victor, sentindo-se enfadado com o ritmo do baile, resolveu tomar um ar do lado de fora da casa. Logo que saiu, encontrou uma jovenzinha, que ele nunca havia visto antes.

Seu coração disparou.

A possibilidade de uma nova conquista fez seu rosto corar de emoção. Sentindo as narinas dilatarem e o sangue ferver na cabeça, partiu na direção da jovem e tratou de iniciar uma alegre conversa.

Enquanto conversavam, o príncipe ficou sabendo com o seu nome era Carolina e que ela era filha de um importante nobre do reino. Seu pai, preocupado com sua educação, enviou-a para o vizinho reino da Cracôvia, com a esperança de que a filha fosse educada pelos melhores professores do mundo.

Durante todo o tempo em que conversaram, Victor não conseguiu tirar os olhos de Carolina, que possuía uma beleza encantadora. Era de estatura mediana, mas imponente. O rosto delicado era muito alvo. Tinha os cabelos castanhos, e os olhos azuis. As mãos compridas e bem feitas pareciam ter sido criadas para os afagos do amor.

Os dois conversaram apenas algumas horas. Tempo suficiente para que Carolina mostrasse que além de bela, era muito inteligente. Pois ela conseguiu escapar, com extrema delicadeza e muita classe, de todas as investidas do jovem príncipe.

Nessa noite, o príncipe não conseguiu dormir, pois pensou em Carolina durante toda a noite. No outro dia, pela manhã, procurou saber tudo o que podia sobre ela. Com as informações em mãos, passou a cercá-la de todas as maneiras, Frequentava os mesmos lugares, os mesmos bailes, mandava-lhe presentes caros e, por último, passou a ser visita constante em sua casa.

Tudo em vão. Carolina não lhe demonstrava o mínimo interesse.

Como o leitor bem sabe, amor repelido é amor multiplicado. Cada repulsa dela aumentava a paixão dele.

Com tantas repulsas, o príncipe acabou ficando desesperado e depois de já ter tentado quase tudo para conseguir o amor de Carolina, ele decidiu dá sua cartada final: pediu a mão dela em casamento.

Carolina era muitas coisas, mas não era burra. Assim, depois de se fazer de difícil por alguns dias, ela aceitou o pedido de casamento, mas sob duas condições. A primeira condição era que o príncipe, não importasse o que acontecesse, nunca se envolveria com outra mulher que não fosse ela. A segunda condição era que o príncipe fizesse tudo aquilo que ela pedisse, não importando a natureza do pedido.

Cego e faminto de amor, o príncipe aceitou prontamente as condições impostas por ela e dois meses depois os dois se casaram em uma bela e imponente cerimônia.

IV

Logo depois do casamento, os dois partiram para um dos castelos da família real, onde o príncipe esperava ter, finalmente, sua primeira noite de amor com Carolina. Mas ao chegar lá, Carolina recusou-se a dormir com ele, fazendo com que tivessem uma grande discussão.

- Você é minha mulher, estamos na nossa lua de mel, é seu dever deitar comigo – gritou o príncipe, já muito exaltado.

- Sim, sou sua mulher, mas não deitarei com você e tenho meus motivos – respondeu ela, com uma voz estranhamente calma e segura.

- Motivos? Que motivos?

- Essa maldição que existe sobre a sua família.

- E o que tem ela?

- Acontece que eu não vou deitar com você e correr o risco de ter um filho, para depois de carregá-lo por nove meses, vê-lo morrer na minha frente.

- Ma-mas, mas isso é uma grande besteira – disse gaguejando. – Nós podemos ter vários filhos, e somente um deles irá morrer, não se preocupe.

- Quem você pensa que eu sou? Uma vaca parideira? – disse ela, quase gritado. – Pois saiba você que, enquanto existir essa maldição sobre a sua família, não haverá sexo entre nós.

- Ma-ma-mas, isso é absurdo – disse desesperado, já com os olhos lacrimejantes.

- Absurdo ou não, é a minha decisão, e você trate de respeitá-la.

Calaram-se ambos por alguns segundos.

- Lembre-se do que você me prometeu antes de nos casamos – disse ela, quebrando o silêncio entre eles.

Terminada a discussão, os dois foram dormir, sem que acontecesse nada entre eles. No outro dia, Victor passou grande parte do seu dia trancado em um dos quartos do castelo, pensando no que havia ocorrido na noite anterior.

“São apenas besteiras, besteiras de mulher. Provavelmente, com o passar dos dias, eu consigo reverter essa situação. Talvez em quatro ou cinco dias, eu consiga finalmente possuí-la. Ela não resistirá ao meu charme... Além disso, as noites nesse castelo costumam ser tão frias... Ele não vai resistir”, dizia ele com seus botões.

Entretanto, todas as esperanças do príncipe acabaram nessa mesma noite, quando ele viu a sua mulher entrar no quarto vestindo umas calças compridas e rudimentares que parecia ser feitas de uma lona muito grossa e que ainda era reforçada por um sistema de correias entrecruzadas, que se fechavam na frente com uma grossa fivela de ferro.

Quando o príncipe perguntou qual era o motivo daquilo, Carolina respondeu que era para que o corpulento e voluntarioso príncipe não a violasse enquanto estava dormindo.

Foi somente a parti desse momento, que o príncipe percebeu que ter o que queria não seria tão fácil como ele pensara...

V

Passaram-se dois meses.

A continência involuntária começou a afetar seriamente a saúde do príncipe Victor. Desesperado, pensou seriamente em aliviar-se com outra mulher, mas a promessa que havia feito a sua mulher o impedia de fazê-lo.

Sem alternativa, resolveu pedir ajudar para os amigos e estes o aconselharam a pedir a ajuda aos monges beneditinos, na esperança que esses o ajudassem a retirar a maldição que havia recaído sobre sua família.

Decidiu então pedir a ajuda dos monges, afinal, se um monge teve poder para colocar a maldição, outro também poderia ter para tirá-la. Quando chegou ao longínquo monastério dos beneditinos, o príncipe foi recebido pelo monge que dirigia o lugar.

O príncipe, por insistência do monge chefe, teve que conhecer todo o monastério até finalmente poder revelar o motivo de sua visita. Quando finalmente conseguiu contar ao monge o motivo de sua visita este lhe respondeu.

- Bem, como você bem sabe, essa maldição possui quase trezentos anos, sendo assim, teremos primeiro que pesquisar na biblioteca do monastério sobre o assunto.

- E quanto demora essa pesquisa? – perguntou o príncipe.

- Não sei ao certo, meu senhor. São muitos livros para se pesquisar e só possuímos dois bibliotecários... Eu poderia colocar mais alguns monges nessa tarefa, mas, como o senhor deve saber, somos uma ordem religiosa muito pobre... Temos que viver do que plantamos e de doações... Se tivéssemos um pouco mais de dinheiro, quem sabe não poderíamos disponibilizar mais homens para biblioteca...

Calaram-se ambos. O príncipe, por alguns instantes, encarou o religioso, que sorria pelo canto da boca.

- Compreendo perfeitamente sua situação... Mas não se preocupe, farei uma grande doação em dinheiro ao monastério. Doação essa que poderá ser bem maior, caso eu consiga me livrar rapidamente dessa maldição.

- Sua generosidade não será esquecida, meu senhor – disse sorrindo, o monge.

Conversaram ainda rapidamente sobre alguns assuntos sem importância. Pouco depois, o príncipe voltou ao palácio com a promessa de retornar ao monastério em uma semana.

VI

Na semana seguinte, logo que o prazo de uma semana expirou, o príncipe dirigiu-se ao monastério, cheio de esperanças de resolver sua situação. Quando chegou ao local, foi recebido pelo mesmo monge que o havia recebido na semana anterior.

- Meu senhor, temos algumas novidades positivas.

- Boas notícias? Não me diga que descobriram como retirar a maldição? – disse o príncipe, numa mistura de alegria e entusiasmo.

- Não, infelizmente, ainda não conseguimos descobrir isso.

- Mas, então, qual seriam as boas notícias? – disse surpreso e desiludido.

- Não descobrimos, ainda, como retirar a maldição, mas descobrimos o primeiro passo para retirá-la.

- Não estou entendendo. Explique-se melhor.

- Príncipe, o senhor há de compreender que uma maldição tão poderosa e antiga, não pode ser retirada com um simples ato. Ela somente poderá ser retirada com um longo e demorado processo...

- Longo e demorado processo? – disse cheio de raiva.

-Sim, um longo e demorado processo, no qual já descobrimos o primeiro passo para retirá-la.

O príncipe ficou calado por um tempo. Andou de um lado para o outro e com um sorriso azedo continuou a conversa.

- Primeiro passo? Não era bem o que esperava, mas é melhor do que nada... Qual seria esse primeiro passo?

- Bem, meu senhor, o senhor deverá entrar na câmara do arrependimento e lá, deverá se arrepender sinceramente pelo crime cometido pelo seu antepassado.

Os dois conversaram ainda mais alguns minutos sobre os procedimentos, depois disso o príncipe foi levado a câmara do arrependimento.

VII

Depois do episódio da câmara do arrependimento, o príncipe voltou três vezes ao monastério. Na primeira, o monge chefe deixou transparecer que, se o príncipe fizesse mais uma doação em dinheiro ao monastério, as coisas correriam de modo mais rápido.

Na segunda vez, o monge chefe pediu que não fossem mais cobrados impostos do monastério. Na terceira vez, o príncipe, ao ouvir o pedido do monge para que transformasse o monastério e as terras ao seu redor em uma província autônoma, percebeu que havia entrando em um ciclo de favores que nunca haveria de acabar. Vermelho de raiva ele disse baixinho:

- Bando de filhos da p...

- Filhos do quê, príncipe? – perguntou o monge chefe, ao ouvir a reclamação do príncipe.

- Filhos da providência, monge. Filhos da providência...

- Ah, que bom, meu príncipe. Pensei ter ouvido outra coisa.

- O senhor, meu príncipe, não estaria, por acaso, pensando em desistir de retirar a maldição?

- Não, meu querido monge, em nenhum momento eu pensei nisso.

- Glória ao pai, meu príncipe! Afinal, o senhor precisa de nós para retirar tal maldição. Pois como o senhor mesmo deve saber, ela diz que, enquanto um monge beneditino viver, sua família será amaldiçoada.

Ficaram ambos em silêncio. Pensativo, o príncipe encarou o monge durante alguns momentos.

- Meu caro, monge, o senhor poderia me responder uma coisa?

- Claro, meu senhor, tudo o que senhor desejar...

- Todos os monges beneditinos vivem nesse monastério?

- Sim, meu príncipe. Vivemos todos aqui. Saímos de dia para coletarmos algumas doações, mas a noite nos reunimos todos aqui, nesse antigo monastério que nos serve de lá a mais de quinhentos anos. Mas por que perguntas?

- Por nada, meu querido monge, por nada... – disse pensativo.

O príncipe calou-se por instantes. Com um olhar pensativo, encarou o velho monge a sua frente e deu-lhe um sorriso, um sorriso franco, de extrema felicidade.

- Meu querido e estimando monge, infelizmente terei que ir embora, o pedido que o senhor me fez não é nada simples, terei que consultar algumas pessoas na corte, antes de atendê-lo.

- Tudo bem, meu senhor.

- Adeus, querido monge. Aguarde uma visita minha para breve.

- Naturalmente, meu príncipe, eu estarei lhe aguardando.

Dito isso, despediram-se cordialmente. O príncipe, muito apressado, rumou para corte.

VIII

A maioria dos monges já estava dormindo quando os primeiros sons de tambores foram ouvidos. Antes mesmo de entenderem o que estava acontecendo, o monastério já se encontrava cercado pelo numeroso exército do príncipe.

Logo o som de trombetas foi ouvido ao longe e a invasão se iniciou. Um a um, todos os monges do lugar foram mortos pelas tropas do príncipe, que acompanhou de perto o ocorrido, para se certificar que suas ordens seriam cumpridas

Depois de se certificar que todos os monges do lugar haviam sido mortos, o príncipe ordenou que se queimasse o monastério e, após isso, que se salgasse o solo do local, para que nunca mais nascesse nada ali.

IX

No dia seguinte, já era noite quando o príncipe chegou ao palácio.

Sem falar com ninguém, dirigiu-se apressadamente ao seu quarto, onde a princesa já se encontrava deitada, vestida com sua roupa de lona.

- Tire essa roupa!

- Mas e a maldição? - Perguntou a jovem princesa.

- Já foi resolvido.

Diante do tom de voz severo do marido, a princesa nem ousou fazer nenhuma objeção e prontamente se despiu.

Nessa noite, todo o palácio pôde ouvir os gritos de amor emitidos por eles. Os dois permaneceram acordados e brincando na cama até o amanhecer, indiferentes ao vento frio que passava pelo quarto, carregado com as cinzas do monastério, que ainda ardia em chamas.

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