sábado, 11 de maio de 2013

Um Feliz Natal

- Lourdinha! Ô Lourdinha! Vem cá, criatura de Deus! – gritou lá da sala.
 
Da cozinha veio a resposta:
 
- Já tou indo, dona Sofia!
 
Pouco tempo depois, Lourdinha apareceu na sala, ofegante.
 
- Oi, dona Sofia, desculpe a demora! Tava de olho na panela de arroz, se não queima.
 
Dona Sofia, os olhos fixos na grande mesa de centro da sala, nem prestou atenção.
 
- Ô Lourdinha, minha filha, vá lá no armário do meu quarto e traga umas toalhas de mesa que tem lá, que eu não tô gostando da decoração dessa mesa.
 
- Tou indo lá, dona Sofia.
 
Saiu da sala de mansinho, sem chamar atenção, deixando dona Sofia parada na sala, falando sozinha:
 
- Esse arranjo não ficou bom... Nenhum pouco bom... - Repetia a toda hora, enquanto olhava para o arranjo de flores que ficava no centro da mesa.

****

Dona Sofia ainda murmurava alguma coisa quando Lourdinha voltou à sala, nas mãos carregava um monte de toalhas de mesa, a maioria nunca usada.
 
- Muito bem, minha filha, agora me ajude a arrumar isso aqui.
 
Começou, então, uma história de arrumar os panos da mesa, mudar as posições das cadeiras e trocar o arranjo de flores de lugar que parecia não ter fim. Foi somente lá pelo meio dia que dona Sofia ficou satisfeita com a decoração.
 
- Pronto, minha filha, muito obrigado. Agora pode voltar a fazer a comida.
- Tá certo, dona Sofia.
- E, Lourdinha, minha filha, depois que a comida ficar pronta, você passe um pano pela casa, que o chão tá imundo.
- Passo sim, dona Sofia.
- Pois tá certo, Lourdinha. Vá lá.
 
Saiu da sala de mansinho, ajeitando a parte de cima do vestido com as mãos.

****

Passou a tarde toda andando de um lado para o outro da casa. Ora passava o pano, ora fazia algum outro pequeno serviço a pedido de dona Sofia.

Era trabalho demais, parecia que não tinha fim.

Enquanto passava o pano pela casa, os movimentos que fazia com o rodo a lembravam do cavalinho de talo de carnaúba que tinha em casa.

- Lourdinha, minha filha, pode ir tomar banho, que o povo deve tá chegando – disse dona Sofia, lá pelas cinco horas.

Lembrou-se da mãe. O coração apertado, cheio de saudades.

- Tá certo, dona Sofia, tou indo!

Guardou o rodo na despensa e foi se saindo de mansinho na direção do banheiro. As costas doendo. 

O coração apertado.

Começou a chegar a saudade da mãe e do cavalo de talo de carnaúba.

 ****

O chuveiro do quarto de empregada era ruim, a água era pouca, caía feito bica. Com uma das mãos ficou se ensaboando, de leve, pensamentos na casa dos pais. Lá, o natal dela era diferente, era bom. 

Ela não precisava trabalhar, podia passar o dia todo brincando no terreiro com os primos. À noite, então, era só fartura. Tinha peru, galinha com farofa e bolo de milho pra comer. Podia comer até não agüentar mais e ficar com vontade de vomitar. Mas na cidade o natal era diferente, era ruim. Aqui só tinha trabalho, o dia todo. Era um tal de fazer a comida ali, arrumar a casa acolá.

Era trabalho demais, nunca acabava.

Ainda nem tinha terminado de se enxugar direito, quando escutou três fortes batidas secas na porta do quarto.

- Lourdinha! Ô Lourdinha! Termine logo de tomar esse banho, que o povo já deve estar chegando – gritou dona Sofia, do lado de fora do quarto.

****

Os convidados foram chegando aos poucos. Um a um, dona Sofia recebia todos com o mesmo sorriso estampado do rosto.
-
 Lourdinha, minha filha, traga um refrigerante e uns salgadinhos que o homem deve tá com fome – dizia ela a cada novo convidado que chegava.

Foi assim durante toda a noite. Os convidados iam chegando e Lourdinha ia lhes servindo. Aqui e acolá alguém notava a sua presença:
 
- Lourdinha, menina, como tu cresceu! Tá até mais gorda!

Ao escutar os elogios, Lourdinha não falava nada, só sorria, de mansinho, toda envergonhada.

- É, minha filha, tá pensando o quê? Que ela ainda tá naquele fim de mundo que ela morava antes? Essa ai já é quase da família – dizia dona Sofia, toda orgulhosa, a cada elogio que Lourdinha recebia.

 ****

 Correram-se as horas.

Perto da meia-noite os convidados se reuniram próximos a mesa da sala para a oração natalina. Quando a oração acabou, dona Sofia, o sorriso de orelha a orelha, realizou um pequeno discurso onde criticava o consumismo das pessoas no natal e exaltava o verdadeiro espírito da comemoração. 

Quando o discurso terminou, os convidados correram para mesa e o banquete começou.

Enquanto a comilança corria solta entre os adultos, as crianças corriam feito loucas pela casa. Sem ter quem as vigiassem, algumas delas se juntaram e, comandadas por Zezinho, um dos sobrinhos de dona Sofia, de vez em quando uma delas se aproximava de Lourdinha e lhe dava um bico bem no meio das canelas finas.

- Cambito fino! – gritava a meninada.

Lourdinha urrava de dor, passava a mão pelas canelas, fazia gestos ameaçadores, mas na realidade não podia fazer nada contra elas.

- Cambito fino!
 
O coração apertado, o bolo subindo pela goela, tinha vontade de chorar. Ah! Como queria estar em casa para ensinar uma lição para essas pestes...

- Cambito fino!

Vez ou outra, quando uma delas era pega em flagrante por uns dos convidados, ela era repreendida:

- Faça isso com a Lourdinha, não, ela é quase da família...

Mas era só ele dar as costas que a molecada recomeçava.

- Cambito fino!

 ****

Pouco a pouco a casa foi se esvaziando após a meia-noite. Quando o último convidado finalmente foi embora, Lourdinha ficou perambulado pela casa, a procura de copos e pratos sujos para lavar. Com muito trabalho, ela conseguiu recolher três pilhas de objetos sujos e pôs-se a lavá-los ainda de madrugada.

Lá pelas três horas da manha, dona Sofia, cara de sono, já de pijama, apareceu na cozinha com um pratinho de comida nas mãos.
- Guardei pra você, minha filha.
- Ou, dona Sofia, não precisava.

Abraçaram-se.

- Feliz natal, minha filha! Que tudo de bom aconteça na sua vida.
- Obrigado, dona Sofia. Pra senhora, também.
- Minha filha, você sabe que já é quase da família. Qualquer problema que você tiver pode nos contar, viu.
- Sei sim, dona Sofia.

Largaram-se. Dona Sofia, já bocejando, olhou para pilha de louça suja e disse:

- Minha filha, deixe de ser besta, termine isso amanha. Vá dormir, vá.
- Não, dona Sofia, eu quero terminar logo hoje, amanha, quero só descansar.
- Você que sabe, minha filha. Boa noite
- Boa noite, dona Sofia.

Ficou sozinha. As costas doendo, as canelas inchadas. Quando terminou de lavar a louça, comeu a comida trazida por dona Sofia e foi para o quarto. Lá, enquanto passava gelo em suas canelas inchadas, lembrou-se com saudade de sua casa e do cavalinho de talo de carnaúba. O coração oprimido, o bolo subindo a goela, pôs-se a chorar.

Fortaleza, 24/12/2009

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O cão

Foi ao ver na televisão um programa sobre animais que ele teve a idéia. 

Durante mais de uma semana a desenvolveu secretamente na cabeça. “Um cachorro... Um bendito cachorro... Por que não?”, dizia para consigo constantemente, durante os momentos de reflexão.

Decidido, juntou algumas economias e foi comprar o cachorro. Quando chegou ao veterinário, ficou indeciso. Muitas raças, tamanhos, temperamentos... Uma confusão. Acabou escolhendo um cão de porte avantajado, muito forte, pêlo cor de chumbo, malhado de preto... Uma beleza de cachorro. 
 
Quando voltou para casa, os vizinhos acharam que havia enlouquecido. Os comentários maldosos não tardaram a surgir. “Ficou doido, um malando desses, que não estuda, não trabalha, vive de bico, mal tem o que comer. Me inventa de comprar um cachorro, ainda mais um cachorro enorme desses. Só tenho pena do bixo, o coitado ainda vai sofrer muito nessa vida...” diziam uns. ”Só espero que não seja bravo e nem lata muito a noite, se não vou ligar para a polícia”, diziam outros.

Os vizinhos o acharam ainda mais louco, quando ele passou mais de seis meses trancafiado em casa com o cachorro, saindo muito pouco, apenas para comprar comida e produtos de primeira necessidade. “Eu não disse que ficou louco, mal sai de casa, passa o dia trancado com aquele cachorro...”. “Tô com pena dele. Coitado, acho que ele só está se sentindo solitário, por isso comprou o cão”.

Alheio aos comentários ao seu respeito, ele passava os seus dias ensinando truques ao cachorro. “Isso garoto, faz essa cara de novo. Agora late. Isso. Muito bom.”, dizia ele dando um biscoito para o cão, toda vez que esse acertava um truque.

*********

Passados mais de seis meses, ele finalmente saiu de casa, para passear um pouco com o cão, que estava muito mais bonito e forte do que quando chegou. Fazia um belo dia, o sol havia aparecido claro e não muito quente, o céu estava límpido, e o ar fresco. O clima agradável que fazia lhe deixou de excelente humor. Todo sorridente, passeou com o cachorro pelas ruas do bairro, chamando a atenção de todos os vizinhos.

Ele que, durante o longo período que passou trancando em casa, havia sido quase esquecido pelos vizinhos, voltou a ser o principal assunto das conversas entre eles. Muito embora, confesso ao leitor, que os vizinhos estavam mais interessados no cachorro, do que nele.

Vocês viram como o cachorro é grande?” diziam uns. “Além de grande é bonito. Vocês viram o modo que ele anda? Todo elegante. Uma beleza de cachorro, uma beleza...”, diziam outros. 
 
*********

Fazia um calor desgraçado. Cansado, com a boca ressecada, ele suava muito. Meteu a mão no bolso, viu que tinha uns trocados e resolveu passar no bar para tomar um trago. Carregando o cachorro consigo, entrou no bar e pediu um trago de cerveja.

Logo surgiu em volta dele, uma pequena aglomeração de pessoas, todas interessadas no cachorro. No meio dos curiosos, surgiu um de seus vizinhos. Homem gordo, rosto oval, que estava sempre com um sorriso débil no canto da boca.

- Cachorro bonito – disse o vizinho.
- Bonito, inteligente e mágico – respondeu.
- Mágico?
- É... Esse cachorro é mágico. Comprei-o de um grupo de ciganos, que me contaram que ele conseguia ler pensamentos. Na hora não acreditei nisso, é claro. Mas os ciganos fizeram um teste comigo e o desgraçado consegue ler mesmo os pensamentos das pessoas. Por isso, o comprei. Naturalmente me custou muito dinheiro, mas valeu a pena... Por causa desse cachorro, acabei descobrindo cada coisa...
- Ele ler pensamentos? E como é que ele te conta? Só falta você me dizer que ele fala também – disse o vizinho, rindo que balançava todo o seu corpo obeso.
- Não, não... Naturalmente ele não fala. Entretanto, os mesmos ciganos que me venderam ele, ensinaram-me uma técnica secreta para me comunicar com ele. Passei os últimos seis meses trancado em casa, só estudando essa técnica que, naturalmente, é muito complexa.
- Homem, mas você é um piadista. Nunca escutei uma besteira tão grande em minha vida.
- Besteira? Você que sabe...

Sem perceber, o vizinho dirigiu o olhar para o cachorro, que lhe retribuiu o olhar. Encararam-se mutuamente por alguns segundos. O cão, olhos atentos e sagazes na direção do homem, mal se mexia. Sem saber bem o motivo, o vizinho começou a sentir um arrepio pelo corpo que começou pelas costas e foi subindo até a cabeça.
 
Tremendo-se todo, ele pensou:

Mas vejam só, que besteira, onde já se viu um cão que ler pensamentos? Ainda mais um cão como esse, com um olhar estúpido e débil”

Nesse momento, o cão começou a latir e a rosnar como um louco para o vizinho. Este, tremendo-se todo, saiu correndo do bar, esquecendo-se até de pagar a conta.

O malandro por sua vez continuou a tomar sua cerveja, como se nada tivesse acontecido. Ao anoitecer, quando o clima esfriou, voltou para casa, satisfeito com o que tinha ocorrido no bar.

Começou, agora é só esperar”, murmurou várias vezes durante o caminho de volta.

*********

Nos dias seguintes, uma revolução operou-se na sua vida. As pessoas começaram a lhe evitar, algumas tremiam na sua presença. Quando encontrava um conhecido pela rua, ele mudava logo de calçada. Passou a ser mal visto pelos vizinhos. Estes evitavam conversar sobre qualquer assunto na sua presença, como se temessem alguma coisa.

*********

Passou-se uma semana desde o ocorrido no bar
.
O malandro acordou cedo. Bem humorado, colocou a coleira no cachorro e se dirigiu a casa do vizinho gordo, que há poucos dias havia encontrado no bar. Tocou a companhia e quando o seu vizinho abriu a porta, foi logo a empurrando e entrou na casa.

- Eu sei de tudo – disse com uma voz severa.
- De tudo o que? – perguntou assustado, tremendo-se todo.
- Ora, homem, você sabe do que eu estou falando. Eu sei de tudo. Não adianta me enganar – falou dando ênfase na palavra tudo.
- De tudo o que? - voltou a repetir. - Você acha que engana quem com essa história de cachorro mágico?

Nesse momento, como aconteceu no bar, o cão começou a latir e a rosnar.

- Tudo bem, já que você quer assim, eu vou ter que contar para todo mundo o seu segredo.
- Pode contar, você não sabe de nada mesmo.

Sem perceber, maquinalmente o vizinho olhou para o cão. Durante algum tempo olharam-se mutuamente. Olhares tão fixos e profundos, que pareciam penetrar o íntimo um do outro.

- Tudo bem, já que você prefere assim. Só me pergunto como as pessoas vão reagir quando descobrirem esse segredo tão abominável. E sua mulher então... Coitada, acho até que vai te abandonar... Pois bem, estou saindo.
- Não! Pelo amor de Deus, não faz isso comigo!!! – disse o vizinho, que não conseguia parar de encarar o cão. – Eu faço qualquer coisa.
- Qualquer coisa? Agora estamos falando de negócios.
- Vamos homem, o que você quer para não contar meu segredo. Diga logo.
- Dinheiro. Muito dinheiro.

Conversaram rapidamente sobre os valores. Tremendo-se todo e sentindo muitos calafrios, o homem aceitou pagar, sem nenhuma oposição, o preço pedido pelo malandro. Com o dinheiro em mãos, o malandro voltou para casa, todo satisfeito. 
 
Durante todo o tempo da conversa que tiveram, o vizinho não conseguiu tirar os olhos do cão.
 
*********

Durante as semanas seguintes, o malandro extorquiu, um a um, todos os seus vizinhos, usando sempre a mesma técnica. Temendo por suas reputações, durante muito tempo os seus vizinhos nada fizeram para impedir as extorsões, até que a situação ficou insustentável e uma reunião secreta foi marcada entre eles para discutir o assunto.

- Não seria muito mais fácil se contarmos nossos segredos? Assim, aquele malandro não vai poder mais nos extorquir.
- Vocês vão me desculpar, mas não quero e não vou revelar meus segredos, prefiro ser extorquida por aquele malandro, a fazer isso – disse uma das mulheres presentes na reunião.
- Eu também – gritaram vários dos presentes.
- Então o que fazer?
- Eu não sei, mas meu segredo é que não vou contar...
A reunião se encaminhava para um retumbante fracasso, quando alguém surgiu com uma grande idéia.
- E se matássemos o cão... Sem ele, aquele malandro não pode nada...

Todos concordaram com a idéia e no mesmo dia ela foi posta em prática.

*********

Logo que acordou, o malandro começou a chamar pelo cachorro, mas esse não apareceu. Desconfiado com a demora do cão, foi procurar por ele pela casa. Acabou encontrando-o morto no gramado do quintal. Ao lado do corpo do cão, encontrou uma bola de carne, provavelmente envenenada.

Desgraçados, envenenaram-me meu cachorro. Mas deixe estar, estes malditos ainda vão me pagar”, pensou, sentindo o sangue subir a cabeça.

*********

Horas mais tarde, muito mais calmo, decidiu que o melhor a fazer era juntar todo o dinheiro ganho em meses de extorsões e sair da cidade. “Se fizeram isso com meu cachorro, o que não farão comigo?”, esse pensamento lhe atormentavam constantemente.

O instinto de sobrevivência foi mais forte que o desejo de vingança. Pegou todas as suas economias, alguns documentos e objetos pessoas e saiu de casa. No mesmo dia já estava a caminho de outra cidade.

*********

Muitos meses depois, já em outra cidade. O malandro caminhava tranquilamente pelas ruas, quando por um acaso do destino, acabou parando em uma loja de animais. Entre os diversos animais vendidos no local, um em especial chamou sua atenção: um papagaio.

Seu interesse no animal aumentou ainda mais, quando o veterinário lhe explicou que o papagaio era capaz de aprender um grande número de palavras e frases.

Um papagaio... Um bendito papagaio... Por que não?”.

Pereira

Quando Pereira acordou, encontrou a mulher fazendo o café.

- Bom dia, Carol.
- Bom dia, meu velho.
- Café tá pronto?
- Tá saindo.

A mulher terminou de coar o café e o despejou numa garrafa térmica.
- Pronto, meu velho, taí.
- E o pão? Cadê?
- Tem não.

Arregalou os olhos, assustado.

- Como assim, não tem?  
- Num tendo, oras.
- Mas eu pedi pra dona Maria comprar, antes dela sair. Deixei até o dinheiro em cima da mesa...
- Mas ela esqueceu. Num sabe como ela é? Aquela ali só não esquece a cabeça porque ela é pregada ao pescoço.
- Mas e agora? Quem vai comprar o pão?
- Você, ora mais! A escrava aqui vai deitar um pouco – disse, saindo em direção ao quarto.

Pereira ficou parado na cozinha, sozinho, pensativo. Tinha um aspecto preocupado. Tomar café puro era sem graça. Sem gosto. Se fosse pra tomar só o café, sem o pãozinho pra pingar nele, preferia nem tomar. Mas, e agora, quem iria comprar o pão? A mulher já disse que não iria. A irresponsável da dona Maria, que não servia pra nada, já tinha ido embora. O jeito era ele mesmo ir comprar.
Decido, foi ao quarto e trocou de roupa. Antes de sair, resolveu tomar um pouco de café. Quem sabe tomar ele puro não fosse tão ruim assim. Quem sabe, ele nem precisasse ir até a padaria...

Despejou um pouco na xícara e tomou um trago.
- Eita café ruim!

Impaciente, ficou assoprando a xícara, na tentativa de diminuir a temperatura.
- Ainda bem que tá quente. Nem sinto o gosto.

Com uma cara azeda, engoliu o restinho de café que havia na xícara. Apressado, colocou-a na mesa e saiu de casa. Quando chegou ao lado de fora, ficou em dúvida. Devia ou não ir de carro? Com essa dúvida atormentando a cabeça, andou de um lado para o outro do quintal, pensativo. A padaria era bem ai pertinho... Mas a cidade andava tão perigosa... Podia acontecer alguma coisa com ele. Por outro lado, estava mesmo precisando caminhar um pouco, perder a barriga... O pessoal do hospital já estava fazendo brincadeira, se continuar assim, nesse ritmo, perderia até o respeito dos pacientes... Com que moral pediria pra perderem peso? Nenhuma. Ninguém vai respeitar um cardiologista obeso...

Pensativo, mordia o lábio inferior. A testa contraída, o sobrolho levantado.

...A indecisão era grande, não sabia o que fazer. A padaria era bem pertinho, dois quarteirões de casa. Olhou pra barriga, não conseguia mais nem enxergar direito os pés. Tomou uma resolução: ia a pé.
Saiu de casa e começou a caminhar na direção da padaria. Durante o percurso, Pereira matinha os olhos atentos a tudo que acontecia ao seu redor. Na metade do caminho, surgiu um homem em uma bicicleta, que vinha na sua direção.

Ficou desesperado.

De bicicleta a essa hora do dia só podia ser ladrão! Assustado, nervoso, começou a suar frio. Sem saber bem o que fazer, procurou algum lugar onde pudesse se esconder. Tudo em vão, não havia para onde correr. Sem alternativas, decidiu enfrentar o seu destino.
Segundo a segundo, os dois iam se aproximando cada vez mais.

Calculou mentalmente que a distância entre ele e a bicicleta era de uns trinta metros. Talvez pudesse dar meia volta e correr pra casa. Rapidamente virou o pescoço, olhou pra trás e logo desistiu dessa idéia. Sua casa estava a uns cinqüenta metros de distância, nunca conseguiria alcançá-la antes do ladrão, era gordo demais pra isso.

Olhou pra frente. Calculou uns vinte cinco metros.

Começou arrepender-se de não ter vindo de carro. Como era burro. Como pôde dar um mole desse? Maldita barriga! Maldita dona Maria! Ah! Mas ela ia lhe pagar...

Vinte metros.

Pelo rabo do olho, ficou observando o homem que vinha na bicicleta. Com certeza, o homem era assaltante, essa cara de bandido não lhe enganava...

Dez metros.

Já conseguia ouvir o barulho das rodas da bicicleta. O coração subindo pela goela, suando frio, 
Pereira começou a rezar; a apelar pra Deus.

Cinco metros.

Decidiu que o melhor era não reagir. Entregar tudo o que o ladrão pedisse.

Um metro.

Finalmente, os dois ficaram lado a lado. Com uma estranha calma, o homem da bicicleta parou ao seu lado e disse:
- O moço tem horas?

O sangue fez glut-glut nas veias, fugiu todo, quase desmaia.
- Pode levar tudo, só não me mata, por favor!

Pereira, os olhos no chão, tremia-se que nem vara verde.
- Quê? Eu não quero fazer mal não, seu moço. Quero só saber as horas – disse o homem na bicicleta, com uma expressão ao mesmo tempo ofendida e surpresa.
- Sã-sã-são se-seis e cinqüenta – disse gaguejando.
- Brigado, seu moço – disse indo embora.

Branco que nem alma, durante alguns segundos Pereira observou o homem lentamente se afastar

Fortaleza, 13/12/2009

Com Estranhos

Se por um lado é certo que não devemos contar fatos de nossa vida a qualquer estranho, por outro lado, de forma paradoxal, é igualmente certo que não existe no mundo melhor ouvinte para os nossos problemas do aqueles que não nos conhecem, uma vez que estes, despidos de qualquer sentimento ou preconcepção anterior a nosso respeito, podem ver as coisas como elas realmente são. Em sendo assim, muito embora não nos conhecemos, leitor, peço permissão para expiar um estranho fato que me aconteceu recentemente, na esperança de que, quem sabe, compreenda a natureza do problema que me aflige. 
 
Certo dia, depois que acordei, ainda permaneci vários minutos deitado em minha cama olhando ao meu redor. Com um olhar investigador, contemplava as paredes e os móveis do quarto, vez ou outra fixava a vista em algum lugar. Depois de passar em revista, duas vezes, todos os móveis do lugar, cheguei a conclusão de que, apesar de aquele quarto ser estranhamente familiar, não era o meu quarto.

Vários minutos de pura indecisão se passaram até eu finalmente decidir que, definitivamente, não estava no meu quarto. Mas, se não estava em meu quarto, onde eu estava? Teria saído ontem e exagerado na bebida? Não, definitivamente eu não saí ontem, muito menos andei bebendo. Mas então, como eu vim para aqui? Neste quarto estranho.

Ainda indeciso, resolvi que o melhor a fazer era sair o mais rápido possível daquele quarto. Levantei-me, e percebi que estava só de pijamas, de forma que achei melhor abrir o armário em busca de uma roupa mais apresentável. Ao abri-lo, tive uma surpresa: as roupas que estavam nele eram incrivelmente parecidas com as roupas do meu armário, mas de alguma forma – que eu não sabia explicar-, sentia que aquelas não eram as minhas roupas. Apesar de achar toda esta situação muito estranha, devido às circunstâncias, achei por bem pegar uma muda de roupa, com a promessa de devolvê-la o mais rápido possível.

Devidamente vestido, dei uma boa olhada no quarto onde me encontrava, na esperança de solucionar minhas dúvidas. Era um quarto grande, bem organizado, a pessoa que residia nele, ao contrário de mim, devia ser muito organizada...

Algum tempo depois, já estava pronto para sair dali quando a visão de uma foto encheu minha cabeça de dúvidas e medo.

Era a foto de uma pessoa, uma pessoa muito parecida comigo, praticamente idêntica, eu diria. Com a cabeça latejando, questionei-me: Será que sou eu? Não, não é possível! Não me lembro de ter tirado essa foto. Não me lembro desse quarto, não me lembro de nada. Será que possuo um irmão gêmeo? Deve ser, está é a única explicação plausível... 
 
Com a alma permeada de dúvidas e medo, achei por bem sair imediatamente daquele local, daquele quarto estranho.

Logo que sair, deparei-me com um longo corredor, que terminava em uma sala, onde algumas pessoas estavam sentadas tomando café em volta de uma mesa. Eram três pessoas: um homem de meia-idade que estava lendo jornal, uma mulher, também de meia-idade, e outra mulher, muito mais nova, provavelmente filha deles.

Ao vê-los, não os reconheci de modo algum. Sem perceber, um tremor irracional percorreu meu corpo, provocando em mim um questionamento lógico: o que vão pensar ao saber que um estranho dormiu em sua casa? Não desejando encontrar a resposta para minhas dúvidas, achei que o melhor a fazer era sair o mais rápido possível daquele local, antes que algum deles percebesse a minha presença e começasse a gritar ou, quem sabe, fizesse coisa ainda pior...

Silenciosamente, dirigi-me a saída. Já estava quase chegando á porta, quando uma voz feminina me chamou.

- Ei, T! – disse a mulher mais velha. – Vem tomar café com a gente!

Meu Deus, eles sabem meu nome? Talvez eles sejam meus conhecidos. Mas quem seriam? Eu nas os reconheço de modo algum!”, indaguei-me. Movido por uma curiosidade invencível de descobrir mais informações a respeito daquelas pessoas, sentei-me a mesa e comecei a tomar café junto com eles.

- Dormiu bem? – perguntou a mulher mais velha.
- Sim (ao menos era o que eu achava).
- Voltou que horas ontem?
- Não sei.
- Foi divertido.
- Foi (espero que tenha sido).

O interrogatório feito pela mulher foi interrompido pelo homem, que começou a falar sobre assuntos financeiros, mas eu não prestei muita atenção nisso. Estava, pois, muito ocupado com os meus pensamentos. Logo que acabei o café, levantei-me rapidamente e me dirigir à porta. Sentia um desejo quase homicida de sair daquele lugar. Mas meus planos de fuga novamente foram interrompidos pela mulher mais velha.

- Vai sair?
- Vou.
- Para onde?
- Não sei, vou da uma volta.
- Leva um casaco, está frio hoje, meu filho.
- Do que você me chamou? – perguntei assustado.
- De filho. Por quê? Não posso mais? – disse sorrindo.
- Pode, é claro (eu acho).

Despedi-me da mulher e sair daquele lugar. Minha cabeça girava, sentia uma leve ânsia de vomito. “Filho? Então aqueles eram os meus pais? Minha família? Então porque eu não os reconhecia? Será que sofro de alguma doença? Amnésia ou coisa do tipo?”, perguntei-me confuso.

Quando cheguei á rua notei que havia de estranho com o sol. Ele estava fraco, sem calor, sem vida. “Então esse é o sol que vem contagiando poetas ao longo dos séculos? Que vêm inspirando amores e amantes desde o início dos tempos? Não, esta coisa fraca e sem calor não pode ser o mesmo sol que inspirou os poetas. E se for? Por que não me sinto contagiado? Contagia-me.”, pensei.

Enquanto caminhava, minhas ideias não tinham coerência. Custava pensar fosse no que fosse. Nos primeiros momentos pensei que havia enlouquecido, ou sofrido um acidente. Sentia uma vontade louca de me distrair, de esquecer esse dia estranho que estava vivendo. Mas logo as coisas pioraram, notei que também havia algo de errado com as pessoas... 
 
Estavam estranhas, sem vida. Pareciam máquinas, manequins.

Caminhei durante horas e horas. Já perto do anoitecer, sentei-me em um banco de praça e me pus a pensar sobre os acontecimentos do meu dia. “O que aconteceu com o mundo? Com as pessoas? Por que estão estranhos? Esse não é meu mundo. Essas não são minhas pessoas. Como vim parar aqui? O que estava diferente: eu ou o mundo?”, indaguei-me. Pensei por horas e horas, mas não consegui achar reposta para essas perguntas.

Já de noite, decidir voltar para o local onde acordei, para a família que eu não reconhecia, para o mundo que não era o meu. De volta ao quarto, antes de dormir, desejei voltar para o meu mundo, se é que ele um dia existiu...
Um mundo onde as pessoas não me eram estranhas e onde eu não me sentia um estranho.

Cenas da Vida

O ônibus sacolejava-se todo por causa dos buracos na rua. Mesmo estando sentado, sentia-se desconfortável. O calor era muito, as costas doíam. Da janela olhava para o nada, pensativo. 
 
Distraído, nem viu quando ela apareceu. Só foi repará-la minutos depois. Estava sentada bem a sua frente, na parte esquerda do ônibus. Pelo rabo de olho começou a observá-la. Era linda.

Ficou todo animado. Esqueceu-se até da dor e do calor. Só tinha olhos para ela. Escorregou o corpo pelo banco. O suor escorrendo pela testa, os pensamentos flutuavam pelo ar.

Ficou imaginando o que aconteceria se tomasse coragem e fosse falar com ela. De mansinho, como quem não quer nada, sentar-se-ia ao seu lado. Esperaria passar algum tempo, antes de falar com ela. Puxaria um assunto qualquer, coisa banal, só pra falar mesmo. Depois, quando a conversa engatasse, falaria coisas inteligentes, divertidas.

- Nossa! Como você é engraçado! – diria ela.

Feito isso, era só pedir o telefone dela. Coisa fácil, depois dessa conversa, ela o daria sem entranhar. 

No outro dia era ligar, combinar uma saída, um cinema, qualquer coisa. Com o tempo a amizade ia crescer. Virariam melhores amigos, confidentes um do outro. Daí pra virar namorados era um pulo.

- Claro! Claro que aceito!

Agora que eram namorados, ficariam ainda mais unidos e com a convivência, o amor cresceria ainda mais. O noivado era só questão de tempo.

- Aceito! É claro que aceito – diria com lágrimas nos olhos.

Os meses seguintes seriam de preparação. Juntos, escolheriam a igreja, o local da festa. Depois viria o casamento. Coisa linda! Nunca se esqueceriam daquela festa.

- Meu amor, hoje é o dia mais feliz da minha vida!

A lua de mel seria no estrangeiro. Uma semana de pura felicidade. Depois, voltariam para casa, morariam juntos. Logo apareceria o primeiro filho.

- Amore, ele é a sua cara!

Passariam-se os anos. Chegariam à velhice juntos. A casa sempre cheia. Os netos correndo soltos pelo lugar. No aniversário de cinquenta anos de casamento, contaria a todos o estranho modo como se conheceram.

- Foi em um ônibus – diria para o espanto de todos. – Eu estava lá parado, morrendo de tédio e calor, 
quando ela apareceu. Não resistir e fui puxar conversa com ela.

Que encantador lhe parecia o futuro! Poderia ter tudo isso, bastava apenas um pouco de coragem.
A garganta seca, o suor escorrendo pela testa, buscava coragem. O estômago queimando, o bolo subindo a goela, levantou-se, decidido.

Já de pé, não conseguiu sair do lugar, as pernas fraquejaram. Sem forças, caiu sentado na cadeira. Faltou-lhe coragem. O coração oprimido, o sangue fervia-lhe a cabeça, buscava desesperadamente forças para chegar até ela. Buscou por todo o corpo encontrar coragem. Mas não havia nenhuma grama. Tentou falar, mas a voz não saía.

Resignou-se.

Foi com o coração oprimido e lágrimas nos olhos, que pouco tempo depois ele a viu descer do ônibus. Pela janela, ainda a acompanhou com o olhar, até ela virar um ponto cinza e disforme no horizonte.

Voltou à realidade. O ônibus sacolejando, as costas doendo. Com tristeza olhava para o céu, pensativo. Nunca antes havia estado tão perto da felicidade.

Fortaleza 20/01/2010