sexta-feira, 10 de maio de 2013

Cenas da Vida

O ônibus sacolejava-se todo por causa dos buracos na rua. Mesmo estando sentado, sentia-se desconfortável. O calor era muito, as costas doíam. Da janela olhava para o nada, pensativo. 
 
Distraído, nem viu quando ela apareceu. Só foi repará-la minutos depois. Estava sentada bem a sua frente, na parte esquerda do ônibus. Pelo rabo de olho começou a observá-la. Era linda.

Ficou todo animado. Esqueceu-se até da dor e do calor. Só tinha olhos para ela. Escorregou o corpo pelo banco. O suor escorrendo pela testa, os pensamentos flutuavam pelo ar.

Ficou imaginando o que aconteceria se tomasse coragem e fosse falar com ela. De mansinho, como quem não quer nada, sentar-se-ia ao seu lado. Esperaria passar algum tempo, antes de falar com ela. Puxaria um assunto qualquer, coisa banal, só pra falar mesmo. Depois, quando a conversa engatasse, falaria coisas inteligentes, divertidas.

- Nossa! Como você é engraçado! – diria ela.

Feito isso, era só pedir o telefone dela. Coisa fácil, depois dessa conversa, ela o daria sem entranhar. 

No outro dia era ligar, combinar uma saída, um cinema, qualquer coisa. Com o tempo a amizade ia crescer. Virariam melhores amigos, confidentes um do outro. Daí pra virar namorados era um pulo.

- Claro! Claro que aceito!

Agora que eram namorados, ficariam ainda mais unidos e com a convivência, o amor cresceria ainda mais. O noivado era só questão de tempo.

- Aceito! É claro que aceito – diria com lágrimas nos olhos.

Os meses seguintes seriam de preparação. Juntos, escolheriam a igreja, o local da festa. Depois viria o casamento. Coisa linda! Nunca se esqueceriam daquela festa.

- Meu amor, hoje é o dia mais feliz da minha vida!

A lua de mel seria no estrangeiro. Uma semana de pura felicidade. Depois, voltariam para casa, morariam juntos. Logo apareceria o primeiro filho.

- Amore, ele é a sua cara!

Passariam-se os anos. Chegariam à velhice juntos. A casa sempre cheia. Os netos correndo soltos pelo lugar. No aniversário de cinquenta anos de casamento, contaria a todos o estranho modo como se conheceram.

- Foi em um ônibus – diria para o espanto de todos. – Eu estava lá parado, morrendo de tédio e calor, 
quando ela apareceu. Não resistir e fui puxar conversa com ela.

Que encantador lhe parecia o futuro! Poderia ter tudo isso, bastava apenas um pouco de coragem.
A garganta seca, o suor escorrendo pela testa, buscava coragem. O estômago queimando, o bolo subindo a goela, levantou-se, decidido.

Já de pé, não conseguiu sair do lugar, as pernas fraquejaram. Sem forças, caiu sentado na cadeira. Faltou-lhe coragem. O coração oprimido, o sangue fervia-lhe a cabeça, buscava desesperadamente forças para chegar até ela. Buscou por todo o corpo encontrar coragem. Mas não havia nenhuma grama. Tentou falar, mas a voz não saía.

Resignou-se.

Foi com o coração oprimido e lágrimas nos olhos, que pouco tempo depois ele a viu descer do ônibus. Pela janela, ainda a acompanhou com o olhar, até ela virar um ponto cinza e disforme no horizonte.

Voltou à realidade. O ônibus sacolejando, as costas doendo. Com tristeza olhava para o céu, pensativo. Nunca antes havia estado tão perto da felicidade.

Fortaleza 20/01/2010

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