sexta-feira, 10 de maio de 2013

O cão

Foi ao ver na televisão um programa sobre animais que ele teve a idéia. 

Durante mais de uma semana a desenvolveu secretamente na cabeça. “Um cachorro... Um bendito cachorro... Por que não?”, dizia para consigo constantemente, durante os momentos de reflexão.

Decidido, juntou algumas economias e foi comprar o cachorro. Quando chegou ao veterinário, ficou indeciso. Muitas raças, tamanhos, temperamentos... Uma confusão. Acabou escolhendo um cão de porte avantajado, muito forte, pêlo cor de chumbo, malhado de preto... Uma beleza de cachorro. 
 
Quando voltou para casa, os vizinhos acharam que havia enlouquecido. Os comentários maldosos não tardaram a surgir. “Ficou doido, um malando desses, que não estuda, não trabalha, vive de bico, mal tem o que comer. Me inventa de comprar um cachorro, ainda mais um cachorro enorme desses. Só tenho pena do bixo, o coitado ainda vai sofrer muito nessa vida...” diziam uns. ”Só espero que não seja bravo e nem lata muito a noite, se não vou ligar para a polícia”, diziam outros.

Os vizinhos o acharam ainda mais louco, quando ele passou mais de seis meses trancafiado em casa com o cachorro, saindo muito pouco, apenas para comprar comida e produtos de primeira necessidade. “Eu não disse que ficou louco, mal sai de casa, passa o dia trancado com aquele cachorro...”. “Tô com pena dele. Coitado, acho que ele só está se sentindo solitário, por isso comprou o cão”.

Alheio aos comentários ao seu respeito, ele passava os seus dias ensinando truques ao cachorro. “Isso garoto, faz essa cara de novo. Agora late. Isso. Muito bom.”, dizia ele dando um biscoito para o cão, toda vez que esse acertava um truque.

*********

Passados mais de seis meses, ele finalmente saiu de casa, para passear um pouco com o cão, que estava muito mais bonito e forte do que quando chegou. Fazia um belo dia, o sol havia aparecido claro e não muito quente, o céu estava límpido, e o ar fresco. O clima agradável que fazia lhe deixou de excelente humor. Todo sorridente, passeou com o cachorro pelas ruas do bairro, chamando a atenção de todos os vizinhos.

Ele que, durante o longo período que passou trancando em casa, havia sido quase esquecido pelos vizinhos, voltou a ser o principal assunto das conversas entre eles. Muito embora, confesso ao leitor, que os vizinhos estavam mais interessados no cachorro, do que nele.

Vocês viram como o cachorro é grande?” diziam uns. “Além de grande é bonito. Vocês viram o modo que ele anda? Todo elegante. Uma beleza de cachorro, uma beleza...”, diziam outros. 
 
*********

Fazia um calor desgraçado. Cansado, com a boca ressecada, ele suava muito. Meteu a mão no bolso, viu que tinha uns trocados e resolveu passar no bar para tomar um trago. Carregando o cachorro consigo, entrou no bar e pediu um trago de cerveja.

Logo surgiu em volta dele, uma pequena aglomeração de pessoas, todas interessadas no cachorro. No meio dos curiosos, surgiu um de seus vizinhos. Homem gordo, rosto oval, que estava sempre com um sorriso débil no canto da boca.

- Cachorro bonito – disse o vizinho.
- Bonito, inteligente e mágico – respondeu.
- Mágico?
- É... Esse cachorro é mágico. Comprei-o de um grupo de ciganos, que me contaram que ele conseguia ler pensamentos. Na hora não acreditei nisso, é claro. Mas os ciganos fizeram um teste comigo e o desgraçado consegue ler mesmo os pensamentos das pessoas. Por isso, o comprei. Naturalmente me custou muito dinheiro, mas valeu a pena... Por causa desse cachorro, acabei descobrindo cada coisa...
- Ele ler pensamentos? E como é que ele te conta? Só falta você me dizer que ele fala também – disse o vizinho, rindo que balançava todo o seu corpo obeso.
- Não, não... Naturalmente ele não fala. Entretanto, os mesmos ciganos que me venderam ele, ensinaram-me uma técnica secreta para me comunicar com ele. Passei os últimos seis meses trancado em casa, só estudando essa técnica que, naturalmente, é muito complexa.
- Homem, mas você é um piadista. Nunca escutei uma besteira tão grande em minha vida.
- Besteira? Você que sabe...

Sem perceber, o vizinho dirigiu o olhar para o cachorro, que lhe retribuiu o olhar. Encararam-se mutuamente por alguns segundos. O cão, olhos atentos e sagazes na direção do homem, mal se mexia. Sem saber bem o motivo, o vizinho começou a sentir um arrepio pelo corpo que começou pelas costas e foi subindo até a cabeça.
 
Tremendo-se todo, ele pensou:

Mas vejam só, que besteira, onde já se viu um cão que ler pensamentos? Ainda mais um cão como esse, com um olhar estúpido e débil”

Nesse momento, o cão começou a latir e a rosnar como um louco para o vizinho. Este, tremendo-se todo, saiu correndo do bar, esquecendo-se até de pagar a conta.

O malandro por sua vez continuou a tomar sua cerveja, como se nada tivesse acontecido. Ao anoitecer, quando o clima esfriou, voltou para casa, satisfeito com o que tinha ocorrido no bar.

Começou, agora é só esperar”, murmurou várias vezes durante o caminho de volta.

*********

Nos dias seguintes, uma revolução operou-se na sua vida. As pessoas começaram a lhe evitar, algumas tremiam na sua presença. Quando encontrava um conhecido pela rua, ele mudava logo de calçada. Passou a ser mal visto pelos vizinhos. Estes evitavam conversar sobre qualquer assunto na sua presença, como se temessem alguma coisa.

*********

Passou-se uma semana desde o ocorrido no bar
.
O malandro acordou cedo. Bem humorado, colocou a coleira no cachorro e se dirigiu a casa do vizinho gordo, que há poucos dias havia encontrado no bar. Tocou a companhia e quando o seu vizinho abriu a porta, foi logo a empurrando e entrou na casa.

- Eu sei de tudo – disse com uma voz severa.
- De tudo o que? – perguntou assustado, tremendo-se todo.
- Ora, homem, você sabe do que eu estou falando. Eu sei de tudo. Não adianta me enganar – falou dando ênfase na palavra tudo.
- De tudo o que? - voltou a repetir. - Você acha que engana quem com essa história de cachorro mágico?

Nesse momento, como aconteceu no bar, o cão começou a latir e a rosnar.

- Tudo bem, já que você quer assim, eu vou ter que contar para todo mundo o seu segredo.
- Pode contar, você não sabe de nada mesmo.

Sem perceber, maquinalmente o vizinho olhou para o cão. Durante algum tempo olharam-se mutuamente. Olhares tão fixos e profundos, que pareciam penetrar o íntimo um do outro.

- Tudo bem, já que você prefere assim. Só me pergunto como as pessoas vão reagir quando descobrirem esse segredo tão abominável. E sua mulher então... Coitada, acho até que vai te abandonar... Pois bem, estou saindo.
- Não! Pelo amor de Deus, não faz isso comigo!!! – disse o vizinho, que não conseguia parar de encarar o cão. – Eu faço qualquer coisa.
- Qualquer coisa? Agora estamos falando de negócios.
- Vamos homem, o que você quer para não contar meu segredo. Diga logo.
- Dinheiro. Muito dinheiro.

Conversaram rapidamente sobre os valores. Tremendo-se todo e sentindo muitos calafrios, o homem aceitou pagar, sem nenhuma oposição, o preço pedido pelo malandro. Com o dinheiro em mãos, o malandro voltou para casa, todo satisfeito. 
 
Durante todo o tempo da conversa que tiveram, o vizinho não conseguiu tirar os olhos do cão.
 
*********

Durante as semanas seguintes, o malandro extorquiu, um a um, todos os seus vizinhos, usando sempre a mesma técnica. Temendo por suas reputações, durante muito tempo os seus vizinhos nada fizeram para impedir as extorsões, até que a situação ficou insustentável e uma reunião secreta foi marcada entre eles para discutir o assunto.

- Não seria muito mais fácil se contarmos nossos segredos? Assim, aquele malandro não vai poder mais nos extorquir.
- Vocês vão me desculpar, mas não quero e não vou revelar meus segredos, prefiro ser extorquida por aquele malandro, a fazer isso – disse uma das mulheres presentes na reunião.
- Eu também – gritaram vários dos presentes.
- Então o que fazer?
- Eu não sei, mas meu segredo é que não vou contar...
A reunião se encaminhava para um retumbante fracasso, quando alguém surgiu com uma grande idéia.
- E se matássemos o cão... Sem ele, aquele malandro não pode nada...

Todos concordaram com a idéia e no mesmo dia ela foi posta em prática.

*********

Logo que acordou, o malandro começou a chamar pelo cachorro, mas esse não apareceu. Desconfiado com a demora do cão, foi procurar por ele pela casa. Acabou encontrando-o morto no gramado do quintal. Ao lado do corpo do cão, encontrou uma bola de carne, provavelmente envenenada.

Desgraçados, envenenaram-me meu cachorro. Mas deixe estar, estes malditos ainda vão me pagar”, pensou, sentindo o sangue subir a cabeça.

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Horas mais tarde, muito mais calmo, decidiu que o melhor a fazer era juntar todo o dinheiro ganho em meses de extorsões e sair da cidade. “Se fizeram isso com meu cachorro, o que não farão comigo?”, esse pensamento lhe atormentavam constantemente.

O instinto de sobrevivência foi mais forte que o desejo de vingança. Pegou todas as suas economias, alguns documentos e objetos pessoas e saiu de casa. No mesmo dia já estava a caminho de outra cidade.

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Muitos meses depois, já em outra cidade. O malandro caminhava tranquilamente pelas ruas, quando por um acaso do destino, acabou parando em uma loja de animais. Entre os diversos animais vendidos no local, um em especial chamou sua atenção: um papagaio.

Seu interesse no animal aumentou ainda mais, quando o veterinário lhe explicou que o papagaio era capaz de aprender um grande número de palavras e frases.

Um papagaio... Um bendito papagaio... Por que não?”.

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