sexta-feira, 10 de maio de 2013

Pereira

Quando Pereira acordou, encontrou a mulher fazendo o café.

- Bom dia, Carol.
- Bom dia, meu velho.
- Café tá pronto?
- Tá saindo.

A mulher terminou de coar o café e o despejou numa garrafa térmica.
- Pronto, meu velho, taí.
- E o pão? Cadê?
- Tem não.

Arregalou os olhos, assustado.

- Como assim, não tem?  
- Num tendo, oras.
- Mas eu pedi pra dona Maria comprar, antes dela sair. Deixei até o dinheiro em cima da mesa...
- Mas ela esqueceu. Num sabe como ela é? Aquela ali só não esquece a cabeça porque ela é pregada ao pescoço.
- Mas e agora? Quem vai comprar o pão?
- Você, ora mais! A escrava aqui vai deitar um pouco – disse, saindo em direção ao quarto.

Pereira ficou parado na cozinha, sozinho, pensativo. Tinha um aspecto preocupado. Tomar café puro era sem graça. Sem gosto. Se fosse pra tomar só o café, sem o pãozinho pra pingar nele, preferia nem tomar. Mas, e agora, quem iria comprar o pão? A mulher já disse que não iria. A irresponsável da dona Maria, que não servia pra nada, já tinha ido embora. O jeito era ele mesmo ir comprar.
Decido, foi ao quarto e trocou de roupa. Antes de sair, resolveu tomar um pouco de café. Quem sabe tomar ele puro não fosse tão ruim assim. Quem sabe, ele nem precisasse ir até a padaria...

Despejou um pouco na xícara e tomou um trago.
- Eita café ruim!

Impaciente, ficou assoprando a xícara, na tentativa de diminuir a temperatura.
- Ainda bem que tá quente. Nem sinto o gosto.

Com uma cara azeda, engoliu o restinho de café que havia na xícara. Apressado, colocou-a na mesa e saiu de casa. Quando chegou ao lado de fora, ficou em dúvida. Devia ou não ir de carro? Com essa dúvida atormentando a cabeça, andou de um lado para o outro do quintal, pensativo. A padaria era bem ai pertinho... Mas a cidade andava tão perigosa... Podia acontecer alguma coisa com ele. Por outro lado, estava mesmo precisando caminhar um pouco, perder a barriga... O pessoal do hospital já estava fazendo brincadeira, se continuar assim, nesse ritmo, perderia até o respeito dos pacientes... Com que moral pediria pra perderem peso? Nenhuma. Ninguém vai respeitar um cardiologista obeso...

Pensativo, mordia o lábio inferior. A testa contraída, o sobrolho levantado.

...A indecisão era grande, não sabia o que fazer. A padaria era bem pertinho, dois quarteirões de casa. Olhou pra barriga, não conseguia mais nem enxergar direito os pés. Tomou uma resolução: ia a pé.
Saiu de casa e começou a caminhar na direção da padaria. Durante o percurso, Pereira matinha os olhos atentos a tudo que acontecia ao seu redor. Na metade do caminho, surgiu um homem em uma bicicleta, que vinha na sua direção.

Ficou desesperado.

De bicicleta a essa hora do dia só podia ser ladrão! Assustado, nervoso, começou a suar frio. Sem saber bem o que fazer, procurou algum lugar onde pudesse se esconder. Tudo em vão, não havia para onde correr. Sem alternativas, decidiu enfrentar o seu destino.
Segundo a segundo, os dois iam se aproximando cada vez mais.

Calculou mentalmente que a distância entre ele e a bicicleta era de uns trinta metros. Talvez pudesse dar meia volta e correr pra casa. Rapidamente virou o pescoço, olhou pra trás e logo desistiu dessa idéia. Sua casa estava a uns cinqüenta metros de distância, nunca conseguiria alcançá-la antes do ladrão, era gordo demais pra isso.

Olhou pra frente. Calculou uns vinte cinco metros.

Começou arrepender-se de não ter vindo de carro. Como era burro. Como pôde dar um mole desse? Maldita barriga! Maldita dona Maria! Ah! Mas ela ia lhe pagar...

Vinte metros.

Pelo rabo do olho, ficou observando o homem que vinha na bicicleta. Com certeza, o homem era assaltante, essa cara de bandido não lhe enganava...

Dez metros.

Já conseguia ouvir o barulho das rodas da bicicleta. O coração subindo pela goela, suando frio, 
Pereira começou a rezar; a apelar pra Deus.

Cinco metros.

Decidiu que o melhor era não reagir. Entregar tudo o que o ladrão pedisse.

Um metro.

Finalmente, os dois ficaram lado a lado. Com uma estranha calma, o homem da bicicleta parou ao seu lado e disse:
- O moço tem horas?

O sangue fez glut-glut nas veias, fugiu todo, quase desmaia.
- Pode levar tudo, só não me mata, por favor!

Pereira, os olhos no chão, tremia-se que nem vara verde.
- Quê? Eu não quero fazer mal não, seu moço. Quero só saber as horas – disse o homem na bicicleta, com uma expressão ao mesmo tempo ofendida e surpresa.
- Sã-sã-são se-seis e cinqüenta – disse gaguejando.
- Brigado, seu moço – disse indo embora.

Branco que nem alma, durante alguns segundos Pereira observou o homem lentamente se afastar

Fortaleza, 13/12/2009

Nenhum comentário:

Postar um comentário