sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Homens mortos não falam

Era um dia quente e ensolarado de junho, os sinos da igreja batiam sinalizando já passar das treze horas. José T., o queixo fincado no peito, numa tentativa de fugir do impiedoso vento pestilento que vinha na sua direção, andava rapidamente na direção do banco da cidade.
Sua pressa era motivada pelo seu desejo de não pegar uma fila muito grande, algo que ficou quase impossível desde que o sistema de fila única virou regra nas agências bancárias. “Antigamente era sorte ou azar. Você podia tanto pegar uma fila minúscula e ir embora logo, como podia pegar uma fila demorada e passar horas esperando. Agora é um espécie de azar médio, todos temos que esperar o mesmo tempo.”, pensava T.
Assim que chegou ao banco viu pelas janelas de vidro que a fila, como ele previa, não estava muito grande devido ao horário, mas que mesmo assim, provavelmente perderia alguns preciosos minutos de sua tarde nela. Entrou rapidamente e já estava se dirigindo ao setor de pagamento quando a maldita porta giratória do banco apitou, indicando que ele deveria estar com algum objeto metálico.
- Senhor, por favor – disse o guarda ao lado da porta - coloque os objetos metálicos nessa janelinha – indicou com a mão uma pequena janelinha ao lado da porta – e tente passar novamente pela porta.
T. sorriu desajeitado e colocou alguns objetos na janelinha indicada. Depois disso voltou para a porta giratória, mas ela novamente travou e disparou aquele ruído irritante. T. olhou para o guarda com um sorriso amarelo, esse por sua vez se limitou a fazer um gesto com a cabeça indicando a janelinha, para onde ele se dirigiu e esvaziou totalmente os bolsos. “Agora vai, coloquei até as moedas”, pensou.
T. voltou para a porta e ela disparou pela terceira vez, atraindo a atenção de muitos clientes do banco, que se aparentemente se divertiam com aquela situação. O guarda próximo a porta o observou, por alguns segundos, dos pés a cabeça e sentenciou.
- Senhor, acho que é a fivela do seu cinto.
T. olhou para o cinto, que tinha uma fivela metálica e resmungando muito o tirou, colocando-o na janelinha. Dirigiu-se novamente, agora segurando a calça para que ela não caísse, para a porta giratória, que dessa vez, confirmando o que o guarda havia previsto, não apitou. Ele então pegou a suas coisas na caixinha de vidro e recolocou o cinto. “Da próxima vez, venho só de cueca, se essa porta apitar, quero ver o que esse guarda vai fazer.”, pensou. Depois disso ele se dirigiu para a fila e ficou aguardando a sua vez de realizar o pagamento.
Ele esperava, pelo tamanho da fila, passar no máximo vinte minutos na fila, mas já haviam se passado vinte e cinco minutos e fila pouco tinha andando, grande parte disso culpa de uma senhora que havia passado mais de quinze minutos alugando o caixa do banco com algum problema. Enquanto esperava a sua vez de pagar, T. ficou pensando no seu trabalho. Ele trabalhava na parte administrativa de uma grande companhia de seguros, T. ganhava por produtividade, por isso cada segundo perdido na fila do banco significava menos dinheiro no final do mês.
T. não pode deixar de notar a comicidade da situação em que estava. Ele estava ali, em uma fila de banco, em pé há quase meia hora, tudo isso porque ele queria fazer um pagamento. Ele não foi ao banco pedir dinheiro emprestado, ele foi pagar uma dívida, e como o banco retribuía isso? Fazendo-o perder meia hora em uma fila. O que lhe deixava ainda mais irritado, era o fato de o banco possuir dez caixas, mas em apenas três deles havia pessoas trabalhando, apesar da imensa fila que existia. “Se é assim que tratam as pessoas que vem ao banco pagar suas contas em dia, como será que o banco trata os devedores? Invadem as suas casas e os espancam? Prefiro nem imaginar.”
Depois que quase quarenta minutos, finalmente chegou á vez de T. pagar a suas contas. Chegou ao caixa, deu um boa tarde não correspondido pelo caixa e entregou os papeis e o dinheiro necessário. O caixa por sua vez se limitou a pegar os papeis e o dinheiro e ficou a digitar alguma coisa no computador. Os minutos foram passando e nada do caixa terminar o que estava fazendo. T. começou a ficar preocupado com aquilo, a demora para concluir uma operação tão simples e o olhar nervoso do caixa indicava que havia algo de errado. Suas previsões se confirmaram segundos depois, quando o caixa disse.
- Senhor, há algo de errado aqui. Não consigo fazer o seu pagamento.
O caixa então olhou para T. que permaneceu em silêncio, com um olhar irônico que dizia: “E o que tenho haver com isso? Apenas faça o meu pagamento”.
- Acho que o senhor terá que voltar outro dia. – concluiu por fim o caixa.
- Não mesmo! Não existe nenhuma possibilidade de eu voltar outro dia. Você sabe há quantos minutos eu estou nessa maldita fila? Tenho trabalho, não posso me dar ao luxo de ficar perdendo meu tempo.
- Mas senhor. Não posso fazer nada, o sistema se recusar a efetuar o seu pagamento.
- E que culpa eu tenho? – gritou T. demonstrando irritação – Você trabalha aqui, não eu. Arrume um jeito de efetuar esse pagamento, seja lá qual for.
O caixa olhou para T. pensativo e depois de alguns segundos, disse.
- O senhor faça o favor de me seguir. Vou levá-lo ao gerente.
O caixa saiu, acompanhado de perto por T., e entrou em uma sala, na qual somente funcionários podiam entrar. Era um corredor longo, com vários cubículos em ambos os lados, separados por tapumes de plástico, onde havia vários funcionários. Alguns pareciam trabalhar em documentos, outros falavam ao telefone, outros simplesmente pareciam não fazer nada. No fim do corredor existia uma sala, na qual o caixa entrou e pediu que T. esperasse do lado de fora enquanto isso. Depois de alguns minutos o caixa saiu da sala e disse para T. entrar, que o gerente o esperava.
Logo que entrou na sala, T. encontrou um homem careca, gordo e muito suado, apesar do ar-condicionado da sala. O gerente que mexia no computador, levantou-se ao ver T. e veio lhe cumprimentar.
- Boa tarde senhor T. – disse o gerente olhando para um papel que segurava.
- Boa tarde – respondeu T. secamente.
- Sente-se, por favor – disse o gerente apontando para uma cadeira em frente a sua mesa.
- O caixa já me deu algumas informações sobre o seu problema. Não se preocupe, esse tipo de coisa acontece quase todos os dias. O senhor só precisava me dar a sua identidade que logo tudo estará resolvido – disse sorridente.
T. entregou o documento para o gerente, este por sua vez começou a digitar alguma coisa no computador. Enquanto isso, T. deu uma boa olhada para a sala do gerente. Era uma sala espaçosa, iluminada. Na mesa pode ver que havia um retrato do gerente abraçado a uma mulher com cara de sapo, provavelmente sua esposa. Instintivamente pensou na sua sala, que era muito menor que a do gerente. Seus pensamentos foram interrompidos pelo gerente.
- Bem... Senhor T., acredito que temos aqui um problema muito maior do que eu imaginara.
- Que tipo de problema? – perguntou T.
- Bem, não sei como lhe dizer isso, nunca tivemos um problema assim antes. O senhor há de entender que...
- Fale logo homem! – disse T. impaciente.
- Bem... Não sei como lhe dizer isso, mas o senhor está morto.
- Como? Não entendi o que você disse. O senhor pode repetir – disse assustado
- Morto, senhor T. O senhor está morto. Ao menos é o que sistema diz.
Mas como assim morto! – gritou T. – estou conversando agora com o senhor. Como posso está morto?
- Não sei bem explicar o motivo, mas o fato é que o senhor esta morto. Ao menos para o sistema governamental. – disse o gerente.
- Isso é impossível – disse T. se levantado da cadeira. - O senhor deve ter cometido algum erro. Olhe de novo, vamos homem – disse apontando para a tela do computador.
- Não há erro algum. O senhor se chama José T.? – o gerente olhou para T. que fez um sinal de afirmativo com a cabeça – pois bem, aqui consta que o senhor morreu ontem em um acidente de carro. Pode olhar o senhor mesmo, se assim preferir.
T. olhou para a tela do computador e viu que gerente realmente falava a verdade.
- Mas como pode uma coisa dessas? Se estou vivo e falando com o senhor agora mesmo? – perguntou T.
- Bem, o senhor precisa entender que isso não é nossa culpa. Não mexemos com esse tipo de coisa. Mas se o senhor quer saber a minha opinião, acho que o senhor deve possuir um homônimo. Este provavelmente morreu ontem e algum funcionário imbecil trocou os nomes e por isso consta no sistema que o senhor está morto.
- É... O que você falou faz sentindo – disse T. hesitante.
- Se o senhor que saber, acho que isso pode ser facilmente resolvido com uma visita a um órgão governamental.
- É faz sentido – disse T. com uma voz bem mais calma.
- Mas enquanto isso, como pago minhas contas? Não posso pagar juros.
- Quanto a isso senhor T., nos do banco não podemos fazer nada a respeito. O senhor foi dado como morto pelo sistema. E mortos não pagam contas, portanto não há nada que possamos fazer pelo senhor.
- Mas não posso pagar por um erro que não foi meu – disse T., intransigente.
- Mas também não é nossa culpa, portanto, não posso fazer mais nada pelo senhor, há não ser desejar que consiga resolver rapidamente o seu problema. O senhor possui mais alguma duvida? – disse por fim o gerente.
- Não – respondeu secamente.
O gerente então entendeu-lhe a mão, T. olhou para ela por alguns segundos e depois retribui o gesto apertando displicentemente a mão do gerente. Os dois ainda trocaram algumas cortesias antes de T. ir embora pelo mesmo corredor que havia entrado. Na saída, novamente teve problemas com a porta giratória.
Já do lado de fora do banco T. olhou para o relógio e viu que havia perdido quase três horas com aquilo. Apesar do longo atraso, decidiu ir para o trabalho mesmo assim. Provavelmente perderia mais um dia de trabalho para resolver esse problema, pois as repartições públicas não funcionam nos fins de semana, assim, cada segundo que ele trabalhasse hoje, seria importante mais tarde.
Mas ao chegar ao trabalho às coisas saíram um pouquinho diferente do que havia pensando. Em vez de trabalhar, ele desperdiçou todo o seu tempo girando sobre a sua cadeira, mudando os objetos de sua mesa de lugar e em outras atividades inúteis. O pensamento sobre o que havia ocorrido hoje não o abandonou mais. Mais de uma vez havia refletido se não teria sido melhor ter tentando resolver esse problema hoje. Mas depois se lembrou que não fazia a mínima noção de qual repartição teria que procurar para resolver seu caso. Existiam dezenas de repartições, muitas pareciam fazer o mesmo trabalho e outras pareciam fazer nada.
Ele ficou trancado em seu escritório até perto das sete horas da noite, quando decidiu ir para casa. No caminho, não conseguia tira da cabeça o que havia ocorrido. Como uma coisa dessas poderia ter acontecido? “Bando de incompetentes, ao menos é um problema fácil de resolver” era o que passava na sua cabeça no momento.