sábado, 23 de janeiro de 2016

O diário de um lunático - Parte III

11 de janeiro
As coisas estão muito ruins por aqui, estou há três dias inteiros sem dormir e sem sair de casa. Posso sentir que aquelas baratas malditas estão tramando alguma coisa, de certo e alguma espécie de vingança por eu ter tentando exterminá-las com veneno. 

As baratas agora estão todas juntas e seu numero aumenta constantemente, as vejo passando por mim todo o tempo em posição de desafio, balançando aquelas anteninhas nojentas, especialmente aquela com manchas brancas no casco. Tenho medo do que possa acontecer durante a noite, por isso não durmo, estou vivendo a base de estimulantes. Pensei em sair e visitar a minha mãe, mas tenho medo do que elas possam fazer enquanto estou ausente.

Nesses três dias pensei em ir a secretária, mas os mesmo motivos me impediram de sair de casa. Imagino a cara azeda que o meu chefe deve está fazendo no momento.
 
13 de janeiro
O que mais temia aconteceu, não me aguentei e acabei adormecendo, quando acordei aquelas baratas haviam feito uma confusão dos infernos pelo apartamento. Interpretei essa atitude como uma declaração de guerra e prontamente a aceitei. Ainda hoje, tivemos nossa primeira batalha, onde tive uma retumbante vitória, matando e ferindo muitas baratas. Terminarei essa guerra em breve, ou não me chamo... Como me chamo mesmo? Bem não importa mais. O fato é que o que aconteceu aqui não tem mais volta. A sorte está lançada, como disse César, ou teria sido Napoleão?

Ano 3150. Fronteira final.
Hoje é um dia muito especial! As baratas têm um novo Imperador. Este Imperador sou eu. Depois de longas e sangrentas batalhas, finalmente consegui derrotar o líder da rebelião das baratas e me tornei o seu Imperador. Mas agora, depois de tudo acabado, uma coisa está realmente me perturbando. Como serei conhecido? Pensei primeiro em me auto-proclamar: Imperador Sem Nome, o Grande. Logo depois decidi que ficaria melhor algo como, Imperador Sem Nome, o Cruel e por fim decidi mudar meu titulo para Imperador Sem Nome, o Belo. No final acabei escolhendo o titulo de Imperador Sem nome, o Grande, Cruel e Belo.

Mal posso esperar para ir à secretária e mostrar para toda aquela gente invejosa o que me tornei. É minha pobre mãe então, aposto que irá chorar de emoção com o cargo que seu filho conseguiu.

Sem data, não houve mês tampouco.

Tive uma revelação hoje, não sou somente o Imperador das baratas, isso é muito pouco para mim. Eu sou um Deus, sim vejam só, um Deus, somente hoje fui descobri. Confesso que fui inundado por uma luz durante um sonho e uma voz me fez essa revelação. Não compreendo como não fui perceber isso antes, como fui pensar que era um simples Imperador. Como este pensamento extravagante pode penetrar na minha cabeça? Felizmente ninguém teve a idéia de me trancafiar em um hospício por essa loucura. 

Antes eu não compreendia meu lugar no mundo, mas agora está tudo claro em minha mente, eu sou um Deus, e agirei como tal. Exigirei respeito dessas malditas baratas, e não somente respeito, mas devoção. Exigirei esse respeito, essa devoção, de todas elas e perseguirei com a minha cólera aquela que mo recusar.
 
74 dia de Januário.
As coisas ficaram complicadas depois que descobrir que sou um Deus. Tentei criar um culto baseado no amor e no respeito ao próximo, mas as baratas não aceitaram muito bem essa idéia e se recusaram a me idolatrar. Assim, não tive escolha, cometi longas e sangrentas matanças para conquistar o respeito daqueles insetos miseráveis, tendo conquistado isso, somente depois de quase dizimar toda a população delas.

Depois de muitas matanças, decidi que estava na hora de ser bonzinho para com elas e realizei alguns milagres. Deixei uma fatia de queijo apodrecido aqui, um pouco de leite acolá, um resto de comida no chão. E assim, aos poucos, o número delas foi aumentando, até que em poucos dias, já existia um número maior do que quando comecei a exterminá-las. Como se reproduzem rápido esses insetos.

Depois disso, imaginei que o melhor a fazer era deixá-las em paz, para que elas conquistassem suas coisas sozinhas, sem a ajudar de um Deus. Foi nesse exato momento que as coisas saíram do controle, uma vez acostumadas com a boa vida de milagres que levavam, as baratas se recusaram a trabalhar e não mais saiam para procurar comida por conta própria, sempre esperando que as coisas caíssem do céu.
Acontece que, o número de baratas era enorme agora, e eu não possuía comida para todas, assim, não achei justo dar comida para algumas e deixar outras com fome. Resolvi que o melhor a fazer era deixá-las abandonas a própria sorte. Esperava com isso, que na hora que a fome apertasse, elas sairiam atrás de comida por conta própria.

Mas eu estava completamente enganado, em vez de saírem atrás de comida como eu havia imaginado. O que aconteceu foi que algumas delas, cansadas de tanto rezarem, acabaram perdendo a sua fé em mim e criando um novo Deus, falso é óbvio, para elas.

Pouco tempo depois as baratas já se dividiam em vários grupos, cada um com um deus diferente. Logo surgiram algumas baratas que diziam ter o poder de se comunicar com Deus em troca de algumas oferendas, e assim, multidões de baratas saíram em busca de alimentos, enfrentando longas horas de trabalho, para alimentarem esses poucos privilegiados que podiam falar com Deus.

Depois disso, essas dezenas de grupos, influenciadas por aquelas baratas medonhas que diziam poder falar com Deus, criaram uma dezena de religiões diferentes, mas ao mesmo tempo iguais. Iguais porque todas, apesar de terem um Deus diferente, agiam da mesma maneira: primeiro construíram grandes templos, pirâmides e palácios para Deus, com o objetivo que ele se compadecesse do esforço daquelas baratas e realizasse alguns milagres. Confesso que esse truque quase funcionou comigo, o templo feito de pedacinhos de queijo podre, construído em minha homenagem tocou o meu coração e quase me deixei levar pela emoção.

Depois de construído o templo, cada uma dessas religiões, criou, por intermédio das baratas que podiam falar com Deus, um conjunto de regras que não poderiam ser quebras pelos seguidores daquela religião (por ironia as baratas que falavam com Deus eram as primeiras a quebrá-las), caso essas regras fossem desobedecidas por uma barata, Deus a mandaria um local criado por ele, cheio de fogo, humilhações, tortura e dor por toda a eternidade, isso claro porque ele a amava.
É tudo muito confuso com essas baratas. Os falsos Deuses criados por elas, são todos idênticos. Como elas não percebem que e o sou o único e verdadeiro Deus. O mais interessante desses falsos Deuses criados por essas baratas e que eles são todos perfeitos: onipresentes e oniscientes, mas por alguma razão que desconheço, sempre precisam de dinheiro e oferendas.

Não sei como essas estúpidas baratas não conseguem notar que há algo de errado com os seus Deuses. Por toda a parte dessa sociedade de insetos estúpidos existe guerra, fome, mortes, doenças, violência, torturas e corrupção. Se isso é o melhor que seus Deuses podem fazer, eu não estou impressionado. Posso fazer algo muito melhor. Essas realizações não são compatíveis com um Deus super poderoso.

Com o tempo, esses grupos começaram a brigar entre si, para decidiram qual Deus era o melhor, o mais verdadeiro e o mais bondoso. Muitos massacres ocorreram, populações inteiras de baratas foram exterminadas, de forma que, se não fosse a minha intervenção, as baratas teriam se destruído completamente.

O problema é que depois de minha intervenção, as baratas novamente se acostumaram com milagres, e tudo que vos narrei agora pouco acaba acontecendo novamente em um ciclo vicioso que nunca acaba.
Ser um Deus realmente não é algo fácil. Eu que sou um Deus para as baratas, não tenho poupado muitas delas.

30 de fevereiro
Recebi a visita de minha mãe hoje, junto dela veio aquele conspirador maldito do meu médico. Os dois queriam saber por que abandonei o meu trabalho. Contei-lhes a história das baratas e de como me tornei um Deus. Era de se ver o silêncio respeitoso que então se fez! Mas eu fiz apenas um gesto com a mão, dizendo: “Não quero nenhum tipo de demonstração de submissão, sei da minha superioridade”.

Depois de ouvir essas minhas palavras, minha mãe não se conteve e caiu em prantos, emocionada. Não a consolei, pois sei que não é todo dia que se descobre ser seu filho um Deus. Até mesmo o conspirador reconheceu minha divindade. Escutei-o dizendo baixinho para minha mãe: “Não devemos contrariá-lo, pode ser perigoso”. Sim não se deve contrariar um Deus como eu. Posso ser muito cruel quando preciso, pergunte as baratas como posso ser cruel.

O médico e minha mãe, que permaneceu o tempo todo chorando, ficaram me idolatrando durante longos minutos. Depois disso recebi em meu apartamento a visita de alguns homens vestidos de branco que se diziam meus servos. Os homens me conduziram, juntamente com minha mãe e o médico, para um grande carro branco. Perguntei-lhes o que era tudo aquilo. O médico me explicou que estavam me levando para o meu palácio e de lá minha divindade séria anunciada para todo o mundo. A coisa realmente fazia sentindo porque fui conduzido por um carro que tinha uma sirene muito barulhenta, possivelmente para anunciar ao mundo a minha chegada.

Não gostei muito da aparência do meu palácio, e uma casa velha, suja e ainda por cima cheira a repolho velho. A qualidade dos meus servos também não é das melhores, são um bando de homens de cabelo raspados que não respondem a nenhuma de minha ordens, até mesmo as baratas eram mais inteligentes e capazes que os servos que me arranjaram. 

Reclamei disso com o maldito conspirador e ele disse para me acalmar, um novo palácio está sendo construído e novos servos estão sendo treinados. Fiquei mais calmo depois dessa notícia, acho até que vou poupar esse mundo.
Dia do mesmo ano que sucedeu ao dia anterior.
Não consigo entender a forma usada por essas pessoas para me adorar. Hoje rasparam a minha cabeça contra a minha vontade, depois disso fui levado a um médico que começou a me fazer perguntar estranhas. Vejam só, esse maldito conspirador acha que eu sou louco. As perguntas eram sobre a minha infância, cada resposta que eu dava era para ele um claro sinal de demência. Mas eu percebi o que aquilo significava, os médicos e farmacêuticos com certeza já descobriram que eu sei tudo sobre a sua conspiração para dominar o mundo e por isso estão tentando me eliminar.

Depois disso fui carregado pelo braço por um homem muito mal encarado, o homem estava me segurando muito forte, e algumas vezes chegava até a me empurrar. Por causa disso dei-lhe um tapa no rosto e disse: “Não é assim que se trata um Deus”. O homem então me duas pancadas nas costas com um grande bastão de madeira, o que me fez cair no chão rolando de dor. Logo depois fui amarrado por vários homens a uma maca e levado para uma sala estranha, onde fui deixado sozinho.

Eles me amarraram na maca de uma forma que não podia me mexer. Fiquei sozinho na sala por poucos minutos, logo surgiram alguns homens de aventais brancos e colocaram um pesado aparelho sobre a minha cabeça. Duas almofadinhas, que pareciam um tanto úmidas, foram colocadas na minha cabeça e um aparelho foi ligado.

Nesse momento uma grande explosão aconteceu na minha cabeça e fiquei desacordado. Quando recobrei a consciência estava trancado em cubículo, minha cabeça não doía, mas em algum lugar dela eu sentia uma vasta área vazia. Como se me tivessem tirado um pedaço do cérebro.
 
4 de Julio césares de 1888
Ainda estou trancando nesse lugar maldito, tudo culpa desses conspiradores que ainda duvidam das minhas faculdades mentais. Tentei, inutilmente, explicar para o médico o funcionamento da minha religião e por qual eu sou um Deus. Ela nada difere das outras religiões que existem pelo mundo e nem por isso as pessoas são trancafiadas e injuriadas como estou sendo. Mas todas as minhas tentativas de argumentação foram inúteis e continuo sendo considerado um louco.

Mas se eu sou realmente um louco, então todas as pessoas também são loucas, porém, são ainda mais doentes, sem duvidas, aqueles que veem nos outros, sinais de loucuras que não veem em si mesmos.

O diário de um lunático - Parte II

19 de novembro
Como era de se esperar acabei comprando aquele apartamento com escritório. Passei a semana toda cuidando dos detalhes da mudança. Já comprei os móveis, todos de uma madeira escura para combinar com o apartamento. Comprei também alguns eletrodomésticos de primeira necessidade: geladeira, fogão, televisão etc.
Já está tudo pronto para mudança, e devo fazer isso a qualquer momento, falta apenas me despedir de minha mãe. Estou um pouco ansioso com isso e tenho medo de deixá-la sozinha. A coitada já está velha e viúva, tudo bem que a casa possui algumas empregadas, mas elas não iram cuidar dela como eu.
Passei a semana toda treinando para a minha despedida, não quero que ela ache que não sou capaz de morar sozinho e por isso tenho que me mostrar forte durante a provável cena sentimental que ela fará. Devo fazer isso amanha, que Deus me de forças para agüentar esse tormento.
 
21 de novembro
A despedida ocorreu muito melhor que eu esperava, acho que minha mãe e eu tivemos a mesma idéia, pois ela tentou parecer forte durante todo o tempo. A pobrezinha fez até uma festa surpresa de despedida para mim e repetiu com lagrimas nos olhos que meu pai ficaria muito feliz de ver isso. A felicidade era tanta que ela prometeu realizar uma missa em homenagem a uma santa, que não me recordo mais o nome, para agradecer esse milagre. Achei aquilo um exagero e sabia que na verdade tudo isso, toda aquela felicidade, não passava de uma tentativa de esconder a tristeza que estava sentido, para que eu não ficasse preocupado em deixá-la sozinha.
Antes de sair lhe dei um abraço e disse emocionado. “Mãe, sei que a senhora está muito triste, mas agora sou um homem, tenho mais de trinta e oito anos e sei me cuidar sozinho”. A coitadinha concordou com tudo muito emocionada e disse para eu não me preocupar, que não lhe fizesse visitas nos próximos meses, e que ela ficaria muito bem sem mim.
O primeiro dia no novo apartamento foi maravilhoso, passei o dia todo tirando coisas das caixas de mudanças e colocando nos seus devidos lugares. Gostei particularmente da mobília que comprei para o escritório: uma grande escrivaninha, um belo divã e uma grande estante que pretendo preencher com muitos livros. Passei algumas cansativas horas arrumando tudo, mas ao chegar ao final, fiquei muito satisfeito com o resultado, tudo no novo apartamento está muito bonito, tirando o excesso de sujeira e insetos que me referi anteriormente. Tenho que tirar que um dia para fazer uma grande limpeza nesse lugar e assim me livrar dessas horríveis baratas que infestam o apartamento.
 
26 de novembro
Ainda não tive tempo de fazer a faxina que há tanto tempo prometo a mim mesmo. As coisas no trabalho estão muito complicadas e nervosas. Parece que o novo prefeito irá diminuir o número de secretarias da cidade. Serão extintas as duas secretarias com os mais baixos índices de produtividade e corre o boato pelos corredores da secretária que a nossa está entre as três piores, assim, para evitar a sua extinção é necessário aumentar enormemente a sua produtividade nesses pouco mais de trinta dias que nos restam até o fim do ano.
O chefe da sessão, aquele cara de ovelha, ficou ainda mais insuportável nesses últimos dias, está sempre reclamando comigo: “Como é possível que nunca acertes nada, faz sempre um confusão medonha, escreve os títulos dos processos errado, nunca coloca as datas e os números, meu Deus, tudo está sempre errado. Será possível que não consegue fazer nada direito”, é o que repetia constantemente. Sujeito mais desagradável, ás vezes, enquanto ele está reclamando de tudo e de todos, tenho uma sensação curiosa de que ele não é um legitimo ser humano, mas uma espécie de fantoche. Não é o cérebro desse imbecil que fala, e sim sua laringe. O que sai de sua boca é constituído de palavras, mas não é fala genuína: e um barulho inconsciente, como o grasnido de um pato. Aquele homem certamente parece um pato. Talvez sua mãe seja uma pata.
Com efeito, já ouvi falar sobre casos semelhantes. Parece que alguns políticos não possuem mãe, sendo gerados por ovos de galinhas chocados por sapos. Li também que um certo presidente americano é filho de uma burra com uma cavalo, de forma que, talvez, aquele homem seja filho de uma pata, cara para isso ele tem.
 
7 de dezembro
Finalmente um dia de folga depois de tanto trabalho, pensei em tirar o dia para arrumar o apartamento e me livrar de uma vez por todas dessas malditas baratas que infestam o lugar, mas estava muito cansado, ando trabalhando muito e por isso passei o dia assistindo televisão.
Um fato curioso aconteceu em quanto eu assistia isso. Havia acabado de ligar o aparelho quando surgiu na televisão à imagem de uma violenta perseguição policial, com vários disparos de fuzis, acidentes de carro e até mesmo algumas explosões. Imaginei logo que se tratava de um desses filmes americanos, mas não, para a minha surpresa, poucos minutos depois, vi que aquilo se tratava do noticiário.
É impressionante como as noticias parecem piorar a cada dia, depois do primeiro tiroteio, que foi motivado por um assalto, mais três tiroteios, com vitimas fatais, foram noticiados, estes por sua vez, motivados pela guerra do tráfico. Malditos viciados. Estão acabando com esse país.
Todas essas noticias ruins me deixaram muito nervoso de forma que acabei ficando com muito dor de cabeça e insônia, por isso, antes de dormir tive que tomar alguns goles de gim e alguns de meus remédios.
 
20 de dezembro
O trabalhou aumentou insuportavelmente nesse último mês, tive que fazer varias horas extras e não me sobrou tempo para nada, a única coisa boa de tudo isso é que irei ganhar um pouco mais de dinheiro no fim do mês. Pretendo com isso, comprar vários livros para colocar no meu escritório, para deixá-lo como o escritório do secretário. Certa vez fui chamado para conversar com ele em seu escritório e fiquei maravilhado com a quantidade de livros que havia naquele lugar. O seu gabinete está tomado por uma biblioteca cheia de livros. Li os títulos de alguns deles e não compreendi muito bem sobre o que falavam, mais certamente era sobre um assunto muito importante.
O secretário certamente é um homem muito inteligente, talvez seja o homem mais inteligente do mundo. Meu pai com certeza também fora um homem muito inteligente em vida, quem sabe mais inteligente que o próprio secretário. Meu Deus, um pensamento singular acabou de me ocorrer, com a morte de meu pai, talvez eu seja, como o seu legítimo herdeiro, o homem mais inteligente do mundo.
Sim, agora tudo faz sentindo, sou o homem mais inteligente do mundo e por isso, por ser tão inteligente eu desperto tanta inveja, por isso sou perseguido por aquilo sujeitinho invejoso com cara de pato.
 
27 de dezembro
Passei o feriado do natal quase todo em casa, apareci na casa de minha mãe apenas por alguns minutos e logo voltei para casa, pois odeio o natal. Sempre odiei o natal. Nada mais ridículo que todo o sentimentalismo barato que invade o coração das pessoas no natal. De um dia para outro as pessoas são invadidas por um falso espírito de bondade, como se ser bom durante o natal perdoasse as pessoas pelo os outros 364 dias do ano de ruindade.
Vejam só, até mesmo meu chefe, aquele ganso, foi invadido pelo espírito natalino e na noite anterior ao natal, organizou uma pequena comemoração natalina, com direito até a comes e bebes. Sujeitinho desagradável, como se isso me fizesse esquecer os outros 364 dias de perseguições e ataques.
 
1 de janeiro
Finalmente tenho algumas boas novas, aproveitei o feriado de ano novo para finalmente arrumar a sujeira do apartamento, mas infelizmente não consegui me livrar das malditas baratas, esses insetinhos parecem ser imunes ao veneno, acho que vou ter que fazer uma dedetização em todo lugar.
Comprei, como o planejado, quase duas dezenas de livros para o meu escritório, de certo que ainda não tive tempo para ler nenhum deles, mas o escritório ficou muito mais bonito com eles. Qualquer pessoa que o viste agora irá pensar, “Como é culto esse homem”, de forma que estou muitíssimo orgulhoso disso.
 
2 de janeiro
Hoje aconteceu comigo algo de muito estranho, passei toda noite fazendo um maldito relatório para o cara de sapo do meu chefe, quando finalmente o finalizei, guardei-o em uma pasta. Mas no outro dia, já na secretária, quando abrir a pasta, o documento simplesmente não se encontrava lá. Quando contei o acontecido para o cara de pato do meu chefe ele ficou irado e me chamou para conversar em uma sala reservada.
- O que você tem na cabeça? Vamos lá, pense bem? Já está quase com quarenta não é mesmo? É tempo de ter juízo. O que estás pensando? Que o secretário vai te proteger para o resto da vida? Ele tem quase setenta anos, mais dois ou três anos ira se aposentar, e aí? Quem você acha que ainda vai te manter aqui eim? Olha bem para ti, pensa no que tu és? Um inútil, um lunático, um peso morto. Nada mais que isso. Tens quase quarenta anos e ainda morava com mãe.
Como mil diabos! Que sujeito desagradável, sua cara parece mais com a de um pato morrendo afogado. Mas não pense vocês que me senti abalado com as suas palavras. Não mesmo, compreendi muito bem o motivo de tudo aquilo. Ciúmes, sim meus amigos, aquele pobre infeliz morria de ciúmes de mim.
Como ele mesmo disse, em dois ou três anos o secretário irá se aposentar e o cargo ficar vago, e mais que óbvio que aquele cara de coruja tem esperanças de ser nomeado para o cargo, mas ele sabe, alias todos nessa repartição sabem, que eu serei o nomeado para o cargo, afinal não existe em toda a cidade ninguém mais capaz que isso, e o secretário, aquele grande homem, já deu sinais claros disso. E por isso, pelo mais puro despeito e inveja, que aquele idiota vem tentando me desestabilizar ao longo dos últimos anos. Além do mais, qual é o problema em ter trinta e oito anos, nos tempos de hoje e idade na qual mal se esta começando uma carreira... Que mil diabos o carreguem.
 
3 de janeiro
Algo de estranho, algo realmente estranho está acontecendo nessa casa. Hoje depois do trabalho resolvi procurar o documento perdido, procurei por toda a casa é não achei nenhum sinal dele, é como se alguém tivesse entrando na casa e sumido com ele. Mas o mais estranho não é isso, enquanto eu estava procurando pelo documento, encontrei um grupo de baratas, dessas que infestam o local. As baratas estavam todas juntas em uma espécie de circulo, era como, não sei bem definir, era como se estivessem planejando alguma coisa. Ao me verem, todas elas saíram correndo como loucas, menos uma, totalmente diferente das demais. Era uma barata grande, de cor preta e com algumas manchinhas brancas espalhadas pelo casco. Essa barata, ao me ver, não correu como as demais, ficou me observando por alguns instantes, nos quais pude sentir pelo balançar daquelas pequenas antenas que ela estava planejando alguma coisa contra mim.
Pode ter sido apenas uma impressão minha, mas sinto algo diferente na atmosfera desse apartamento.
 
6 de janeiro
As baratas realmente estão tramando alguma coisa, hoje resolvi chegar um pouco mais cedo do trabalho e encontrei um grupo delas revirando as coisas do meu quarto. Ainda não descobri o que elas pretendem, mas é certo que estão tramando alguma coisa.
 
8 de janeiro
Hoje fui ao médico e descobri que as coisas são piores do que eu pensava. Quando lhe contei o episódio envolvendo as baratas ele soltou uma grande gargalhada e ficou um longo tempo me fazendo perguntas estranhas e tentando me persuadi que as baratas não estavam planejando nada, que tudo era fruto da minha imaginação. Acabei fingindo que concordei. Desta forma não deixei transparecer que eu descobrir seu plano. Todos eles: médicos, farmacêuticos, o meu chefe e as baratas faziam parte de uma grande conspiração para dominar o mundo. Mas eu sou mais astuto, eles nunca vão me enganar. No final da consulta, o fingido passou uma enorme lista de remédios que eu deveria tomar e me deu recomendações para voltar ao seu consultório em duas semanas. Obviamente que joguei aquela receita no lixo logo que sair de seu consultório. Malditos conspiradores, que mil diabos os carreguem.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O diário de um lunático - Capítulo I

9 de novembro

Hesitei muito tempo pensando se devia ou não começar a escrever nesse diário. Não sei ao certo porque resolvi por começá-lo, não gosto de diários, mas o médico falou que seria bom ter um, assim poderei, no futuro, reler o que está escrito e ver como fiz grandes avanços. Também não gosto muito de médicos, não confio neles. O leitor já reparou que, para os médicos, só existe uma doença no mundo? A Virose. Se você procurar um médico com um grande corte no pé, um tiro no peito, dor no fígado ou nas juntas, não importa, os sintomas podem ser diferentes, mas o diagnostico será sempre o mesmo: virose.

E o que falar daquelas letras ilegíveis? Que somente eles e os farmacêuticos entendem. Aposto que existe uma espécie de conspiração para dominar o mundo entre os farmacêuticos e os médicos, as receitas são apenas o modo em que eles a planejam. O fato é, não confio em médicos, não confio em nenhum ser humano que escolhe passar o resto da vida em meio a doenças, mas não posso negar que tive significativas melhoras desde que passei a visitar um deles. 

A melhora foi tanta que vou até me mudar. Sim meus amigos, finalmente, depois de anos morando com meus pais, vou me mudar para um apartamento e morar sozinho. Bem verdade que ainda não fui procurar um bom lugar e que também não possuo muito dinheiro, por isso não espero um palácio. Mas depois de tantos anos vivendo sobre as asas dos meus pais, uma mudança fará muito bem para mim.
Amanha sairei para procurar um bom lugar para morar, aguardem novidades para os próximos dias.
 
12 de novembro
Acordei tarde hoje e, quando minha mãe entrou no meu quarto para trazer meu café da manha, perguntei a ela que horas eram. Quando me disse que já passava das dez, levantei-me e me vesti rapidamente. Em menos de dez minutos já estava arrumado e pronto para sair para o trabalho, estava quase na rua quando minha mãe me avisou que hoje era sábado. 

Fiquei aliviado com essa descoberta, o clima na secretária anda muito tenso nesses últimos dias com a eleição de um novo prefeito e chegar tão atrasado no trabalho com certeza me traria muitos aborrecimentos, especialmente com o chefe da minha seção que a um bom tempo vem me perseguindo com a sua cara feia. 

Há algum tempo ele vem dizendo: “Como é possível que tu sempre chegues atrasado rapaz? Todos aqui conseguem chegar no horário marcado, menos você. Acorde para vida rapaz, seus atrasos não vão ser tolerados para sempre”. Sujeitinho desagradável, de certo tem ciúmes de mim, pois sou amigo pessoal do próprio secretário. Este sim um homem formidável, extraordinário, de conduta irrepreensível. Foi um dos melhores amigos de meu finado pai, quantas vezes não passou a noite toda em minha casa conversando besteiras até o dia amanhecer.
E não é somente o meu chefe que tem ciúmes da minha relação com o secretario. Todos nessa maldita seção tem ciúmes de mim e me odeiam secretamente. Pensam que não escuto as conversinhas na sala do café, os sussurros pelas minhas costas. Estão sempre dizendo: “É um idiota, só está aqui porque é protegido do secretário”. Bando de invejosos. Mas deixe esses recalcados para lá, o que eu queria mesmo falar era sobre o resto do meu dia.

Depois de acordado, tirei o dia para procurar um apartamento para morar. Passei a tarde visitando vários apartamentos. É impressionante como os novos apartamentos são minúsculos, alguns dos que visitei eram pequenos até para apenas um morador, fiquei imaginando uma família grande morando neles e sem perceber a imagem de uma lata de sardinha apareceu na minha mente, sendo substituída logo depois por uma de um pote de palmito em conserva. Hummm, sardinha com palmito... Estava (e estou) ficando com fome...  

Quando meus pensamentos foram interrompidos pela voz do corretor, que falava alguma besteira a qual não prestei muita atenção.

O fato é que o dia estava quase acabando e eu não havia gostado de nenhum dos apartamentos que havia visitado: ou eram muito pequenos ou muito caros. Já estava quase desistindo de achar um apartamento hoje, quando o corretor me perguntou se eu gostaria de ver mais um local. Disse que sim e pouco tempo depois estávamos subindo as escadas de um velho apartamento.

Há principio não fui muito com a cara do local, prédio era muito velho e ainda por cima não possuía elevador, mas logo que entrei no apartamento minha opinião mudou completamente, o local era enorme, possuía três quartos grandes, dois bons banheiro uma boa cozinha, uma grande sala e o melhor de tudo, possuía um escritório. Sempre quis morar em um local com escritório, acho isso coisa de gente poderosa. Logo que vi que havia um escritório já comecei a imaginar coisas. Imaginei um casal de visitantes chegando ao meu apartamento e sendo atendidos por um dos meus empregados, muito bem vestido, que lhes diria: “Sentem-se aqui – diria ele apontando para um belo sofá – O patrão está em seu escritório, mas logo estará aqui”. 

Compreendem, meus amigos, nenhum homem importante (e eu sou um homem importante) possui uma casa sem escritório. Fiquei instantaneamente atraído por aquele apartamento, que além de todas essas vantagens que já falei, ainda era muito barato e próximo tanto da casa de meus pais, como do meu trabalho. O único defeito que pude perceber durante a visita era que o local estava um pouco sujo e infestado de insetos, especialmente baratas, mas nada que uma limpeza e um pouco de veneno não resolvam.

Voltei para casa muito animado e conversei com minha mãe sobre o apartamento, ela me mandou procurar mais algumas opções, mas não estou muito inclinando em fazer isso. Fui dormir pensando naquele apartamento, meu Deus um escritório, isso é muito mais do que eu imaginava.

Homens mortos não falam - capítulo III

No outro dia, T. finalmente acordou cedo e partiu em direção ao serviço governamental de informações, decidido a por um fim de uma vez por todas em seu problema. Quando chegou ao local, teve uma surpresa desagradável. O prédio onde o órgão estava locado era desprezível. Era um prédio, muito antigo, de três andares. Sua pintura, provavelmente a mesma desde a inauguração do prédio, estava muito gasta. Por todos os lados dele era possível encontrar muitas infiltrações. “Então é assim que meus impostos são gastos”, pensou antes de entrar no local.
Assim que entrou, ele se dirigiu para um balcão, onde esperava encontrar a respostas para as suas dúvidas.
- Bom dia – disse T. cordialmente – eu gostaria de algumas informações.
- Senhor – respondeu o funcionário do balcão sem olhar para T. – o senhor precisava primeiro pegar uma senha com aquele homem ali – complementou apontando displicentemente para um homem próximo a entrada.
Ele caminhou até a esse homem, que lhe entregou uma senha, de número vinte e cinco. T. perguntou ao homem com a senha se tudo aquilo era realmente necessário, pois ele tinha apenas uma pequena dúvida facilmente explicável. O homem com a senha explicou que aquele era o procedimento padrão previsto em lei, e que por isso T. teria que esperar a sua vez de ser atendido. Por fim, o homem disse para ele não se preocupar, que logo seria atendido e indicou um banco de madeira onde T. poderia esperar sentado até ser chamado.
T. dirigiu-se ao banco, que já estava quase que completamente lotado de pessoas. O tempo foi passando e número de pessoas que chegavam em busca de atendimento ia aumentando em progressão geométrica ao número de pessoas que eram atendidas, por isso uma enorme fila, que ia até o lado de fora do prédio, formou-se. T. já estava há quase três horas esperando na fila, quando resolveu iniciar uma conversa com um homem, já um pouco velho que estava ao seu lado na fila.
- O senhor está esperando o que por aqui? – perguntou ele educadamente ao homem.
- Eu estou em busca de informações para resolver a minha causa – respondeu educadamente.
- E qual seria ela? – pergunto curioso.
- Bem, há cerca de três meses, um terreno que possuo foi invadido pelo governo, sem nenhum tipo de aviso ou indenização por isso...
- Mas isso é impossível! – interrompeu T. – Nos vivemos sobre um estado democrático de direito! – exclamou.
- Sim, eu também fiquei surpreso quando isso aconteceu – concordou o homem – mas foi exatamente isso que aconteceu.
- Mas e aí? O que o senhor fez a respeito disso - perguntou T. curioso.
- Bem, como era de se esperar eu não aceitei facilmente o fato. Há cerca de um mês, procurei o órgão responsável pela invasão do meu terreno e fiz alguns requerimentos para provar que sou legítimo do terreno invadido.
- E aí, o que aconteceu depois?
- Nada – respondeu o homem – e exatamente por isso que eu estou aqui. Há um mês todos os meus requerimentos e pedidos de informações são ignorados por esse órgão. Vim aqui hoje para saber o que posso fazer a respeito.
- E o senhor? Porque está aqui hoje? – perguntou o homem.
- Bem... – começou T. – eu vim aqui porque fui considerado morto pelo governo.
- Não diga?
- Juro por tudo que é mais sagrado – respondeu T. – e por causa disso, fui demitido e não posso mais pagar as minhas contas.
- Que curioso – disse o homem acariciando a barba – nunca conheci um morto que falasse – complementou sorrido.
- Curioso e trágico – disse T. com um sorriso desajeitado - O senhor que tem mais experiência que eu nesses assuntos. Acha que esse é um caso fácil de resolver? Afinal e muito fácil provar que não estou morto.
- Não sei ao certo – disse o homem pensativo – nunca conheci um caso como seu em toda a minha vida.
Nesse momento a conversa foi interrompida pela voz de um funcionário.
-Número vinte e quatro. Numero vinte e quatro. Apresente-se agora
O homem olhou para T. e sorriu.
- Numero vinte e quatro – mostrando o número da senha para T. – preciso ir agora. Boa sorte em seu caso companheiro.
Dito isso o homem saiu e deixou T. perdido em seus pensamentos. Minutos depois o homem saiu com uma cara triste e T. foi chamado ao balcão de informações.
- Boa tarde – disse T. ao mesmo funcionário com que havia falado mais cedo.
- Boa tarde – respondeu o funcionário – em que lhe posso ser útil.
- Bem eu gostaria de algumas informações. O caso é o seguinte. Há um pouco mais de uma semana, fui considerado morto pelo sistema. Provavelmente alguém com o mesmo nome que o meu morreu.
- Morto o senhor diz? – perguntou o funcionário.
- Sim, morto.
- O senhor tem certeza disso? – perguntou o funcionário – Mortos não falam.
- Porque todos sempre fazem essa mesma pergunta? – respondeu T. irritado – Sim, morto. Mas como o senhor pode ver, eu estou bem vivo e falante. Por isso tudo o que desejo e descobri como consertar esse erro.
- Senhor – disse o funcionário pensativo - nunca vi um caso como esse. Não sei se vou poder lhe ajudar.
- Como assim não sabe se vai poder me ajudar? Você trabalha no serviço de informações não trabalha?
- Sim – respondeu displicentemente.
- Portanto, trate logo de me responder para qual repartição devo me deslocar para consertar o mais rápido possível esse erro – disse T. quase gritando.
- Acalme-se senhor, gritar não vai melhorar sua situação. Além disso, o senhor está assustando as pessoas – disse o funcionário apontando para um grupo de pessoas que olhavam curiosas na direção deles.
- Olhe – disse T. ainda demonstrando claros sinais de irritação – Desde que esse erro aconteceu, eu fui demitido. Não posso pagar minhas contas e sabe-se lá mais o que pode me acontecer comigo por causa disso. Tudo isso por causa de um erro do qual não tive nenhuma parcela de culpa.
- Mas também não é nossa culpa – disse o funcionário.
- Que seja! – disse T. irritado – mas então, vai ou não me ajudar?
- Bem, como disse anteriormente. Nunca vi um caso como o seu em toda a minha vida. Por isso não sei se posso ajudá-lo, mas se que saber a minha opinião. Acho que o senhor deveria procurar o departamento de registro. E lá que todos os nascimentos e mortes são registrados. Se alguém pode fazer alguma coisa pelo senhor, esse alguém está no departamento de registros.
- E onde ficaria esse departamento? – perguntou T. excitado.
O funcionário anotou em um papelzinho o endereço do local para T., esse por sua vez agradeceu a ajuda do funcionário e partiu em direção do local indicado. O departamento de registro ficava do outro lado da cidade, por isso ele teria que se apressar se ainda desejasse resolver esse problema no dia de hoje.
Depois de perder quase duas horas preso no transito, T chegou ao departamento de registro, que ao menos em aparência, era tão ruim quanto o departamento de informações. O prédio estava tão mal cuidado quanto o outro.
Ao chegar à entrada do local, ele há encontrou fechada, olhou para o relógio e ainda eram quinze e trinta, portanto o local deveria está aberto pelas próximas uma hora e meia, no mínimo. Por causa disso, T. passou a bater na porta do prédio. Somente depois de quase cinco minutos e que um homem baixinho e gordo apareceu na porta.
- Pois não? – perguntou o homem.
- Boa tarde – disse T. – gostaria de falar com algum funcionário, pois estou com um problema sério e acredito que somente aqui eu possa resolvê-lo.
- Infelizmente, estamos fechados. O senhor terá que voltar amanha – disse o homem.
- Mas são três e meia! – exclamou T. – o expediente normal é até as cinco horas.
- Sim, senhor. Mas acontece que hoje estamos fazendo uma pequena confraternização em homenagem ao aniversário de um colega e por isso fechamos mais cedo. De forma que o senhor terá que voltar amanha.
- Mas isso é um absurdo – disse T. – eu tenho mais o que fazer da minha vida. Exijo ser atendido imediatamente.
- Infelizmente não posso fazer nada pelo senhor e pela sua situação. Volte amanha.
- Passar bem – ao dizer isso o homem fechou a porta do prédio.
T. ainda passou alguns minutos batendo e gritando em frente à porta, mas todo o seu esforço se mostrou inútil, pois ninguém apareceu para abri-la. De forma que, mesmo muito contrariado, T. acabou tendo que voltar para casa sem resolver o seu problema.
Durante o caminho de volta, sentia-se invadido por uma horrível ansiedade. Sua cabeça doía, pouco a pouco ia sendo invadido por um medo desconhecido. Desejava resolver o mais rápido possível o seu problema. Sentia-se irritado com tudo o que havia passado durante o dia, toda aquela burocracia inútil que ele fora obrigado passar. Mas que realmente o perturbava, era o fato de não ter tido nenhuma parcela de culpa no erro que havia sido cometido contra ele. Sentia-se extremamente cansado, físico e mentalmente, com tudo o que havia passado durante o dia.
Logo que chegou em casa, tomou um longo banho e comeu qualquer coisa. Foi para o quarto, deitou-se, cobriu-se com o coberto. Seus pensamentos incoerentes começavam a começavam a confundir-se cada vez mais. Pouco depois pesavam-lhe as pálpebras. Posou com voluptuosidade a cabeça no travesseiro e adormeceu profundamente.
T. teve um estranho sonho essa noite. Ele sonhou que estava preso no nono andar de um prédio muito antigo. Ele não sabia o que estava fazendo ali, nem como havia chegado ao local. Estava em um corredor longo, cheio de pequenas salas, que estavam todas vazias.
Depois de explorar o local, percebeu que ele estava completamente vazio, não existia nenhuma alma viva, nem mesmo um zelador. Havia um vazio assustador, de forma que ele ficou assustado e desejou sair de lá o mais rápido possível. Existia algo estranho na atmosfera daquele prédio e T. conseguia sentir isso.
Correu o mais rápido que pode em direção do elevador. Apertou o botão para chamá-lo dezenas de vezes, ao ponto deste quase estragar. O tempo foi passando e nada do elevador chegar.
Sem o elevador, o único modo de chegar ao térreo era, agora, as escadas. Sem hesitar, ele correu em direção delas e começou a descê-las. Ele conseguiu descer facilmente os primeiros andares, mas quando chegou ao quinto andar, sentia-se extremamente cansado, seu coração estava muito rápido e respirava com curiosidade.
Resolveu descansar um pouco, enquanto fazia isso, sentiu uma curiosidade extrema de conhecer os outros andares do prédio em que estava. Assim, resolveu conhecer o aspecto do quinto andar do prédio. Quando entrou se deparou com o mesmo corredor longo e cheio de pequenas salas vazias, já que conhecia.
T. achou tudo aquilo estranho, mas achou que devia estar em um prédio de salas comerciais, por isso todos os andares deveriam ser iguais. Sentindo-se melhor, resolveu continuar a descida.
Após alguns minutos, ele finalmente chegou ao tão esperado térreo, mas assim que chegou ao andar, foi tomado por uma sensação estranha. O local era estranhamente parecido com os outros andares.
T. estava ansioso para sair daquele local, por isso procurou desesperadamente pela saída, mas não a encontrou de modo algum. Muito assustado, resolveu olhar pelas janelas do local, mas ao olhá-las teve uma grande surpresa. Ele estava novamente no nono andar do prédio.
Um tremor nervoso invadiu o seu corpo. Como isso poderia ter acontecido? Ele acabara de descer nove andares, disso tinha certeza, como ele ainda poderia estar no nono andar do prédio? Eram os pensamentos que lhe passavam pela cabeça naquele momento.
Ficou algum tempo caminhando pelo corredor vazio do lugar, pensando na estranha situação em que se encontrava. “Isso não fazia sentido, eu tenho certeza absoluta que desci nove andares, tenho certeza disso”, pensava assustado.
Depois de muito pensar, ele decidiu que tudo aquilo não fazia sentindo e que o melhor a fazer era descer novamente as escadas. Caminhou até as escadas com um sorriso nervoso no rosto, começou a descê-las. Desceu rapidamente um andar, mas decidiu descer mais dois andares, apenas por garantia. Quando terminou de descer, novamente estava no mesmo andar, fato que pode confirmar ao olhar pelas janelas.
Nos primeiros momentos, pensou que havia enlouquecido. Percorriam-lhe por todo o corpo uma terrível sensação de frio, que tinha origem no imenso medo que estava sentindo. Já estava ficando desesperado quando escutou um barulho vindo de uma das salas do prédio, que ate então ele julgava vazias.
O barulho vinha de uma das salas que ele havia entrando e encontrado totalmente vazia minutos antes. Quando chegou a sala, T. teve uma estranha visão. Ele há encontrou totalmente mobiliada e com um homem, de expressões severas, sentando em uma poltrona.
- Bom dia senhor T. – disse o homem – eu estava realmente esperando por você.
- Quem é você – respondeu T. nervoso.
- Quem sou eu? – disse o homem – Você me conhece muito bem. Eu sou a causa dos seus problemas. Eu sou a lei.
- Como assim a lei? O senhor é algum tipo de juiz? Eu estava realmente precisando falar com um...
- Não, você me entendeu mal. Eu sou a lei, em seu estado puro. Eu regulo a vida de todas as pessoas desse estado. Normalmente eu me encontro em uma forma subjetiva, mas decidi me materializar em um corpo para falar com você.
- Não estou entendendo – disse T. confuso – O senhor está me dizendo que a lei, mas está materializado em uma forma humana?
- Sim, exatamente isso – confirmou o homem.
- Bem... E o que lei deseja comigo?
- Eu? Eu não desejo nada de você. Mas acredito que você deseje algo de mim.
- Bem, eu devo estar passando por algum tipo de delírio. Mas já que estou aqui, frente a frente com a lei. Existem algumas coisas que desejo falar com você. Há alguns dias atrás um erro foi cometido...
- E o senhor foi considerado morto – interrompeu o homem – eu já sei disso.
- Mas eu não estou morto – disse T. irritado – qualquer idiota é capaz de perceber isso.
- O senhor tem certeza disso? – perguntou o homem – para mim o senhor está morto até que se prove ao contrário.
- Eu não preciso provar que não estou morto. Você é que precisa provar que eu não estou vivo.
- HáHáHáHá – riu o homem
- Então você se considera acima da lei? Pois saiba, senhor T., que a lei está acima de todos.
- O que você diz não é verdade. Vivemos em um estado democrático de direito, os cidadãos estão acima de qualquer lei. – disse T.
- Você tem certeza disso? O senhor está biologicamente vivo, mas a lei diz que o senhor está morto, por isso você está tendo tantos problemas.
- Mas isso é um erro fácil de ser consertado – disse T. – a lei não pode ser superior a realidade.
- Realidade? Tu acreditas piamente na realidade? – perguntou o homem.
- Acredito – respondeu secamente – a realidade será sempre superior a uma lei. Uma lei pode dizer que homens podem voar, mas isso não significa que isso seja verdadeiro. A lei dos homens, nunca será superior as leis da natureza.
- Mas as leis da natureza também são leis humanas – disse o homem sorridente – por isso, são tão falhas como qualquer outra lei. Os antigos gregos acreditavam ser impossível a divisão de um átomo. Isso foi uma lei da natureza por milhares de anos, até que um dia o átomo foi quebrado, e essa lei se mostrou tão falha como qualquer outra.
- De qualquer maneira, ainda acredito na realidade. O que você quer de mim – perguntou T.
- Eu quero que você pare de lutar contra mim. Você não pode vencer a lei. Aceite a sua condição, você está morto.
- Mas eu não estou morto – gritou T. – isso é impossível. Mortos não falam, e eu estou falando. Eu estou absolutamente vivo.
- Você tem certeza disso? – perguntou o homem com um estranho sorriso no rosto.
Nesse momento chão da sala onde T. estava ficou completamente escuro, como se houvesse desaparecido. T. teve a nítida sensação de estar caindo e por isso instintivamente ficou de olhos fechados. Quando essa sensação parou, ele abriu os olhos e viu que não estava mais na sala e sim em uma espécie de cama cheia de flores por todos os lados. Ele tentou se levantar, mas não conseguiu. Ficou alguns minutos confuso, sem saber onde estava, ate que ele foi rodeado por várias pessoas conhecidas que estavam chorando ao seu redor. Nesse instante ele teve uma grande revelação, não estava em uma cama como pensara anteriormente e sim em um caixão!
Nesse exato momento T. acordou ofegante em sua cama e respirou aliviado ao perceber que tudo aquilo não passava de um sonho.

Homens mortos não falam - capítulo II

No outro dia, as coisas saíram um tantinho diferente do que T. havia planejado. Em vez de procurar resolver o seu problema como tinha planejado no dia anterior. T. decidiu que, com a proximidade do dia de pagamento, o melhor a fazer era trabalhar o máximo possível tentar compensar o dia de trabalho perdido no banco.
Ele, como já foi dito antes, trabalhava para uma companhia de seguros. Seu trabalho consistia em averiguar se os acidentes sofridos pelos clientes da seguradora haviam sido verdadeiros ou não passavam de fraudes. A cada nova fraude descoberta, ele ganhava um pagamento adicional em seu salário, por isso, T. era bastante diligente em seu trabalho.
T. trabalhou como nunca nos dias anteriores ao pagamento do seu salário, trabalhou tanto que até esqueceu o seu probleminha. Mas mesmo com todo esse trabalho, ele não iria, por muito pouco, consegui receber o valor que esperava para esse mês. Tudo se encaminhava para isso, mas no dia anterior ao pagamento, quase no final do seu expediente, seu chefe surgiu com um novo caso para ele investigar.
Era um caso muito estranho, quase cômico. O dono de uma fábrica de amendoins havia sofrido um estranho acidente. Enquanto verificava um dos silos da fábrica, o mesmo se abriu misteriosamente sobre o homem e uma avalanche de amendoins caiu sobre a sua cabeça. O fato é que o homem havia sofrido varias escoriações pelo corpo e estava impossibilitado de trabalhar pelos próximos meses. Por isso, deveria receber uma boa indenização da seguradora. Isso, se as investigações de T. confirmarem a veracidade do acidente.
Depois de pegar os documentos do caso, T. se dirigiu a fábrica a fim de investigar o ocorrido. Quando chegou ao local, encontrou uma bela mulher a sua espera. Ela se apresentou como a mulher do dono. Era uma mulher alta e esbelta. Tudo nela era comprido; o rosto, o nariz e o queixo. Tinha olhos pequenos, negros e um pouco dissimulados.
Ela se apresentou a T. como Lisa. Depois disso, T. pediu para conhecer o local do acidente, no caminho ele explicou a ela que aquele era um procedimento normal, que não havia nada a temer. Quando chegaram, T. pode perceber que o silo de onde os amendoins caíram era muito menor do que havia imaginado. Caberiam nele, no máximo, uns cinqüenta quilos de amendoins, muito pouco para causar os ferimentos sofridos pelo homem.
Depois de verificar o silo, T. pediu para dar uma olhadinha no acidentando. Lisa ficou muito assustada com aquilo, mas ele lhe garantiu que aquele era um procedimento normal, não havia nada com que se preocupar. O homem se encontrava em sua casa, que ficava a poucos metros da fábrica. Durante o caminho, T. aproveitou para dar uma olhadinha nos documentos sobre o casal, com isso descobriu, que os dois possuíam algumas dívidas, que seriam facilmente pagas com o dinheiro do seguro.
Ao chegar a casa deles, T. foi conduzido por ela diretamente para o quarto do casal, onde o homem se encontrava convalescente. Ele então pediu para olhar os ferimentos sofridos pelo homem e viu que eles em nada se pareciam com os de um homem que havia sido esmagado por cinqüenta quilos de amendoim e sim com os de um homem espancado por um pedaço de pau. Em alguns ferimentos, T. conseguiu notar a perfeita circunferência de uma tábua. Depois de avaliar, por alguns minutos, os ferimentos do homem, T. disse em voz alta.
- Bem, depois de avaliar as circunstâncias do acidente. Tudo o que tenho a dizer é que a seguradora não irá pagar nenhum centavo para os dois.
- Como assim? – disse lisa espantada.
- Os ferimentos no seu corpo – disse T. apontando para o homem – são claramente feitos por uma tábua, dar-se para ver até a circunferência dela.
- Mas isso é injusto – disse o homem – pago aquela seguradora há anos e a assim que vocês me tratam?
- Senhor, esteja satisfeito de não o denunciarmos a polícia. Caso ache que possui tanto direito assim sobre esse dinheiro, procure a justiça.
- Passar bem e mais sorte na próxima vez – disse T. saindo do quarto.
T. já estava quase chegando a saída, quando foi interrompido por Lisa.
- Ei, ei, espere um pouco.
- Tudo bem, você está certo, eu assumo. Meu marido não sofreu nenhum acidente. Na verdade fui eu que fiz aqueles ferimentos batendo nele com uma tábua de madeira.
- Estamos passando por dificuldades financeiras, meu marido é um idiota, afundou aquela fábrica em dívidas e vamos perder tudo em pouco tempo se as coisas não melhorarem. Foi então que eu tive a idéia de usar o dinheiro do seguro.
- É uma história muito triste – disse T. – mas não posso fazer nada por você.
- Você tem certeza disso? – disse Liza pendurando as duas mãos sobre o seu pescoço – Acho que podemos negociar – disse ela esfregando seu corpo no dele.
Enquanto lisa esfregava o seu corpo contra o dele, T. sentiu uma imensa vontade de fazer alguma coisa por ela, mas no final lembrou-se do pagamento que iria acontecer no outro dia.
- Não, não posso fazer nada por você – disse ele hesitante.
Dito isso saiu rapidamente da casa dela e se dirigiu o mais rápido que pode ao carro. No caminho para o trabalho, não conseguiu tira-la da cabeça. Já em casa, sonhou com ela a noite.
No outro dia, T. acordou de excelente humor, assim como todos os outros dias de pagamento. Logo que chegou ao trabalho, foi diretamente a sala do chefe para receber o seu pagamento.
- Bom dia – disse T. para o seu chefe.
- A é você T.. Eu estava querendo mesmo falar com você.
- Comigo? Perguntou espantado – sobre o que?
- Sobre um probleminha que surgiu hoje.
T. imaginou logo que o problema tinha haver com Lisa, ela certamente havia inventando mentiras ao seu respeito, e com esse pensamento em mente foi logo falando.
- Se tem haver com aquela mulher de ontem, vou logo falando, ela que se esfregou em mim. Dessa vez não tenho culpa.
- Mulher? Que mulher? – disse o chefe confuso – Não tenho nada haver com seus problemas amorosos. O assunto que tenho para tratar com você e muito mais importante.
- Mais importante? Você está começando a me assustar com essa conversa. – disse T,
- Bem, não sei como te dizer isso, mas você esta morto.
- Aaa, é sobre isso? – disse T. sorridente – Você estava me assustando. Eu já sabia disso, descobri há poucos dias quando fui ao banco. Aparentemente alguém com o mesmo nome que o meu morreu e por isso aconteceu esse erro. Mas pretendo ir hoje mesmo, logo após o pagamento, cuidar desse assunto.
- T. – disse o chefe com uma expressão seria no rosto – não sei se você compreendeu a gravidade da situação. Homens mortos não trabalham. Muito menos recebem salário.
- O que você que dizer com isso? Eu estou vivo. Isso é óbvio. Eu estou falando com você nesse momento.
- Para mim você esta vivo, mas para o sistema você esta morto. Assim, infelizmente não vou poder lhe pagar esse mês.
- Como assim? Não vai me pagar? – Disse T. assustado.
- Bem T., como disse antes, para o governo você está morto. Se eu te pagar, do modo como você está agora, ou seja, morto. Eu terei problemas com a justiça futuramente, pois como eu disse anteriormente, mortos não trabalham e nem recebem salários. Logo a firma vai ser acusada de fraude contra o sistema financeiro.
- Mas, mas eu estou vivo – gritou T.
- Mas não para o sistema – respondeu o chefe – e não para por ai. Como mortos não trabalham, eu terei que te demitir. Ao menos enquanto você estiver morto para o sistema.
- Ora não faz sentindo! Eu estou vivo. É notório. Um documento não pode valer mais que a realidade! – exclamou T., cujo voz se tornava cada vez mais alta.
- Eu sei T. – respondeu o chefe – Não pense que estou feliz com isso. Você é um dos nossos melhores, se não o melhor funcionário, se estou fazendo isso é apenas porque não tenho alternativa.
- Além do mais – continuou – Isso é passageiro, assim que consertar esse erro, você será recontratado. Não há nada a temer.
- Mas isso não basta para me acalmar! – exclamou T. – Eu estou vivo, v-i-v-o. Não posso pagar por um erro que não foi meu.
- Mas também não é nosso culpa. Não fazemos as leis, apenas a cumprimos. E a lei diz que homens mortos não podem trabalhar. Mas em nome da nossa amizade de anos, eu vou lhe dar esse pagamento – disse ele tirando um maço com dinheiro e colocando em um envelope.
T. pegou o envelope e o guardou em seu bolso.
- Essa situação, só vai durar enquanto eu não consertar o erro? – disse T. mais calmo
- Naturalmente.
- Bem... Já que é assim – disse T. calmamente – Isso vai ser fácil, em poucos dias estarei de volta.
- Claro – respondeu o chefe cordialmente.
- Bem, estou indo resolver esse problema agora mesmo. Hoje ou amanha devo ter resolvido tudo.
- Claro. – respondeu o chefe – até mais ver então.
Depois disso T. se despediu do seu chefe e caminhou em direção ao seu carro. Estava preocupado com essa situação, mas acreditava que ela seria facilmente resolvida, afinal, seria muito fácil provar que ele não estava morto. Apesar de se sentir desconfortável com isso, ele estava contente, pois havia recebido o pagamento que tanto esperava.
Ao sair do trabalho, ele se dirigiu ao centro da cidade. No caminho pegou um grande engarrafamento, enquanto estava preso no transito, ficou pensando no que iria fazer com o dinheiro do mês. Com uma parte do dinheiro pretendia pagar algumas dívidas antigas, para o restante do dinheiro ele não sabia ainda o que fazer, pois tinha muitos planos para ele.
Quando chegou ao centro, ele percebeu que não tinha a mínima noção de qual órgão governamental deveria procurar primeiro, para tentar solucionar o seu problema, pior no centro, nem ao menos havia um órgão governamental. Decidiu que o melhor a fazer era ligar para o serviço de informações. Parou o carro, desceu e ligou para o serviço. O telefone tocou, mas ninguém atendeu. T. não se deu por vencido e ligou novamente, mas outra vez ninguém atendeu. Essa cena se repetiu varias vezes, até que na sexta tentativa alguém finalmente atendeu.
- Silvia Souza, serviço de informações. Com que eu falo?
- Alo, chamo-me José T.
- Senhor José T., que tipo de informação deseja?
- Bem, eu gostaria de saber qual órgão eu deveria procurar para provar que não estou morto.
- Morto? Senhor não entendi muito bem a sua pergunta. Poderia repeti-la?
- Bem Silvia. Não sei bem como explicar, mas o sistema está me dando como morto.
- Senhor. Mortos não fazem ligação. O senhor está tentando me enganar? Pois saiba que essa sua ligação está sendo gravada, e o governo poderá tomar medidas legais quanto a isso.
- Não estou tentando enganá-la – gritou T. – Só gostaria de saber qual o órgão eu deveria procurar, para consertar a besteira que vocês mesmo fizeram. – complementou.
- Senhor. Não grite comigo. Você deveria se envergonhar sabia? Esse é um serviço sério, muitas pessoas precisam dele. Enquanto isso, você está me fazendo perder tempo com besteira.
- Mas eu não estou tentando enganá-la. – retrucou T. – Só quero saber qual órgão preciso ir para provar que não estou morto.
- Senhor. Não vou mais tolerar suas graçinhas. Passar bem – disse a telefonista desligando o telefone.
Depois que ela desligou o telefone, T. ainda ficou alguns segundos segurando o telefone, sem acreditar no que havia ocorrido. Como ele pode ser tratado assim? O erro era deles e ele era tratado assim? Pela primeira vez, desde que do início do problema, ele começou a ficar preocupado com o seu desfecho. Talvez provar que não estava morto, não seria assim tão fácil quanto pensava. Mas sua preocupação logo passou. A estranha conversa que havia tido era fruto do estresse de uma telefonista. “Provavelmente brigou com o namorado, por isso está nervosa”, pensou.
T. pensou em voltar para o carro e ir pessoalmente há um órgão em busca de informações. Mas já que estava no centro, e como tinha tido um grande trabalho para chegar nele, decidiu dar uma rápida olhadinha nas lojas.
Assim, ele saiu caminhando pelas ruas estreitas e superlotadas do centro. Em pouco mais de duas horas, ele já havia visitado várias lojas e quase comprando alguns objetos inúteis. Ela já estava voltando para o carro, quando passou em frente a uma loja de panelas e pela vitrine dela, viu um belo, ao menos esse foi o seu pensamento, conjunto de panelas vermelhas.
Ele nunca havia visto panelas vermelhas, por isso, ficou instantaneamente atraído por elas. Entrou rapidamente na loja e logo foi perguntar ao vendedor quanto custavam àquelas panelas custavam. As panelas eram muito caras, mas o vendedor, muito esperto, ao perceber o interesse de T., começou a lhe falar sobre as inúmeras vantagens daquelas panelas: eram feitas do mais puro aço, não amassavam por nada. Além disso, eram muito fácies de limpar. Como se tudo isso não fosse suficiente, essas panelas eram produzidas na França, por um importante e conceituado chefe Frances.
T. deu pouca atenção ao que o vendedor lhe falou. Sua mente estava em outro lugar. Ele pensava em um filme que havia visto há algumas semanas. Nele havia uma cena em que um rico empresário aparecia cozinhando em panelas vermelhas, para uma bela modelo. Ele não sabia bem o motivo de ter se lembrando dessa cena, ele nem havia gostado desse filme. Mas o fato é que, após ver aquelas panelas, seu corpo foi tomado por uma volúpia incontrolável de comprá-las. Depois de uma rápida conversa com o vendedor, ele acabou comprando aquelas panelas vermelhas, que custaram uma considerável parte de seu salário.
T. saiu da loja satisfeito e consciente de que havia feito um excelente negócio. “Panelas vermelhas, onde mais poderia encontra panelas vermelhas nessa cidade”, pensava ele satisfeito. Quando voltou para o carro, até esqueceu-se do seu probleminha com o governo, por isso ele se dirigiu diretamente para casa. Ao chegar em casa guardou as suas preciosas panelas em um armário, juntamente com a máquina de suco Suíça e o lavador de pratos australiano que ele nunca usou.