domingo, 3 de janeiro de 2016

Homens mortos não falam - capítulo II

No outro dia, as coisas saíram um tantinho diferente do que T. havia planejado. Em vez de procurar resolver o seu problema como tinha planejado no dia anterior. T. decidiu que, com a proximidade do dia de pagamento, o melhor a fazer era trabalhar o máximo possível tentar compensar o dia de trabalho perdido no banco.
Ele, como já foi dito antes, trabalhava para uma companhia de seguros. Seu trabalho consistia em averiguar se os acidentes sofridos pelos clientes da seguradora haviam sido verdadeiros ou não passavam de fraudes. A cada nova fraude descoberta, ele ganhava um pagamento adicional em seu salário, por isso, T. era bastante diligente em seu trabalho.
T. trabalhou como nunca nos dias anteriores ao pagamento do seu salário, trabalhou tanto que até esqueceu o seu probleminha. Mas mesmo com todo esse trabalho, ele não iria, por muito pouco, consegui receber o valor que esperava para esse mês. Tudo se encaminhava para isso, mas no dia anterior ao pagamento, quase no final do seu expediente, seu chefe surgiu com um novo caso para ele investigar.
Era um caso muito estranho, quase cômico. O dono de uma fábrica de amendoins havia sofrido um estranho acidente. Enquanto verificava um dos silos da fábrica, o mesmo se abriu misteriosamente sobre o homem e uma avalanche de amendoins caiu sobre a sua cabeça. O fato é que o homem havia sofrido varias escoriações pelo corpo e estava impossibilitado de trabalhar pelos próximos meses. Por isso, deveria receber uma boa indenização da seguradora. Isso, se as investigações de T. confirmarem a veracidade do acidente.
Depois de pegar os documentos do caso, T. se dirigiu a fábrica a fim de investigar o ocorrido. Quando chegou ao local, encontrou uma bela mulher a sua espera. Ela se apresentou como a mulher do dono. Era uma mulher alta e esbelta. Tudo nela era comprido; o rosto, o nariz e o queixo. Tinha olhos pequenos, negros e um pouco dissimulados.
Ela se apresentou a T. como Lisa. Depois disso, T. pediu para conhecer o local do acidente, no caminho ele explicou a ela que aquele era um procedimento normal, que não havia nada a temer. Quando chegaram, T. pode perceber que o silo de onde os amendoins caíram era muito menor do que havia imaginado. Caberiam nele, no máximo, uns cinqüenta quilos de amendoins, muito pouco para causar os ferimentos sofridos pelo homem.
Depois de verificar o silo, T. pediu para dar uma olhadinha no acidentando. Lisa ficou muito assustada com aquilo, mas ele lhe garantiu que aquele era um procedimento normal, não havia nada com que se preocupar. O homem se encontrava em sua casa, que ficava a poucos metros da fábrica. Durante o caminho, T. aproveitou para dar uma olhadinha nos documentos sobre o casal, com isso descobriu, que os dois possuíam algumas dívidas, que seriam facilmente pagas com o dinheiro do seguro.
Ao chegar a casa deles, T. foi conduzido por ela diretamente para o quarto do casal, onde o homem se encontrava convalescente. Ele então pediu para olhar os ferimentos sofridos pelo homem e viu que eles em nada se pareciam com os de um homem que havia sido esmagado por cinqüenta quilos de amendoim e sim com os de um homem espancado por um pedaço de pau. Em alguns ferimentos, T. conseguiu notar a perfeita circunferência de uma tábua. Depois de avaliar, por alguns minutos, os ferimentos do homem, T. disse em voz alta.
- Bem, depois de avaliar as circunstâncias do acidente. Tudo o que tenho a dizer é que a seguradora não irá pagar nenhum centavo para os dois.
- Como assim? – disse lisa espantada.
- Os ferimentos no seu corpo – disse T. apontando para o homem – são claramente feitos por uma tábua, dar-se para ver até a circunferência dela.
- Mas isso é injusto – disse o homem – pago aquela seguradora há anos e a assim que vocês me tratam?
- Senhor, esteja satisfeito de não o denunciarmos a polícia. Caso ache que possui tanto direito assim sobre esse dinheiro, procure a justiça.
- Passar bem e mais sorte na próxima vez – disse T. saindo do quarto.
T. já estava quase chegando a saída, quando foi interrompido por Lisa.
- Ei, ei, espere um pouco.
- Tudo bem, você está certo, eu assumo. Meu marido não sofreu nenhum acidente. Na verdade fui eu que fiz aqueles ferimentos batendo nele com uma tábua de madeira.
- Estamos passando por dificuldades financeiras, meu marido é um idiota, afundou aquela fábrica em dívidas e vamos perder tudo em pouco tempo se as coisas não melhorarem. Foi então que eu tive a idéia de usar o dinheiro do seguro.
- É uma história muito triste – disse T. – mas não posso fazer nada por você.
- Você tem certeza disso? – disse Liza pendurando as duas mãos sobre o seu pescoço – Acho que podemos negociar – disse ela esfregando seu corpo no dele.
Enquanto lisa esfregava o seu corpo contra o dele, T. sentiu uma imensa vontade de fazer alguma coisa por ela, mas no final lembrou-se do pagamento que iria acontecer no outro dia.
- Não, não posso fazer nada por você – disse ele hesitante.
Dito isso saiu rapidamente da casa dela e se dirigiu o mais rápido que pode ao carro. No caminho para o trabalho, não conseguiu tira-la da cabeça. Já em casa, sonhou com ela a noite.
No outro dia, T. acordou de excelente humor, assim como todos os outros dias de pagamento. Logo que chegou ao trabalho, foi diretamente a sala do chefe para receber o seu pagamento.
- Bom dia – disse T. para o seu chefe.
- A é você T.. Eu estava querendo mesmo falar com você.
- Comigo? Perguntou espantado – sobre o que?
- Sobre um probleminha que surgiu hoje.
T. imaginou logo que o problema tinha haver com Lisa, ela certamente havia inventando mentiras ao seu respeito, e com esse pensamento em mente foi logo falando.
- Se tem haver com aquela mulher de ontem, vou logo falando, ela que se esfregou em mim. Dessa vez não tenho culpa.
- Mulher? Que mulher? – disse o chefe confuso – Não tenho nada haver com seus problemas amorosos. O assunto que tenho para tratar com você e muito mais importante.
- Mais importante? Você está começando a me assustar com essa conversa. – disse T,
- Bem, não sei como te dizer isso, mas você esta morto.
- Aaa, é sobre isso? – disse T. sorridente – Você estava me assustando. Eu já sabia disso, descobri há poucos dias quando fui ao banco. Aparentemente alguém com o mesmo nome que o meu morreu e por isso aconteceu esse erro. Mas pretendo ir hoje mesmo, logo após o pagamento, cuidar desse assunto.
- T. – disse o chefe com uma expressão seria no rosto – não sei se você compreendeu a gravidade da situação. Homens mortos não trabalham. Muito menos recebem salário.
- O que você que dizer com isso? Eu estou vivo. Isso é óbvio. Eu estou falando com você nesse momento.
- Para mim você esta vivo, mas para o sistema você esta morto. Assim, infelizmente não vou poder lhe pagar esse mês.
- Como assim? Não vai me pagar? – Disse T. assustado.
- Bem T., como disse antes, para o governo você está morto. Se eu te pagar, do modo como você está agora, ou seja, morto. Eu terei problemas com a justiça futuramente, pois como eu disse anteriormente, mortos não trabalham e nem recebem salários. Logo a firma vai ser acusada de fraude contra o sistema financeiro.
- Mas, mas eu estou vivo – gritou T.
- Mas não para o sistema – respondeu o chefe – e não para por ai. Como mortos não trabalham, eu terei que te demitir. Ao menos enquanto você estiver morto para o sistema.
- Ora não faz sentindo! Eu estou vivo. É notório. Um documento não pode valer mais que a realidade! – exclamou T., cujo voz se tornava cada vez mais alta.
- Eu sei T. – respondeu o chefe – Não pense que estou feliz com isso. Você é um dos nossos melhores, se não o melhor funcionário, se estou fazendo isso é apenas porque não tenho alternativa.
- Além do mais – continuou – Isso é passageiro, assim que consertar esse erro, você será recontratado. Não há nada a temer.
- Mas isso não basta para me acalmar! – exclamou T. – Eu estou vivo, v-i-v-o. Não posso pagar por um erro que não foi meu.
- Mas também não é nosso culpa. Não fazemos as leis, apenas a cumprimos. E a lei diz que homens mortos não podem trabalhar. Mas em nome da nossa amizade de anos, eu vou lhe dar esse pagamento – disse ele tirando um maço com dinheiro e colocando em um envelope.
T. pegou o envelope e o guardou em seu bolso.
- Essa situação, só vai durar enquanto eu não consertar o erro? – disse T. mais calmo
- Naturalmente.
- Bem... Já que é assim – disse T. calmamente – Isso vai ser fácil, em poucos dias estarei de volta.
- Claro – respondeu o chefe cordialmente.
- Bem, estou indo resolver esse problema agora mesmo. Hoje ou amanha devo ter resolvido tudo.
- Claro. – respondeu o chefe – até mais ver então.
Depois disso T. se despediu do seu chefe e caminhou em direção ao seu carro. Estava preocupado com essa situação, mas acreditava que ela seria facilmente resolvida, afinal, seria muito fácil provar que ele não estava morto. Apesar de se sentir desconfortável com isso, ele estava contente, pois havia recebido o pagamento que tanto esperava.
Ao sair do trabalho, ele se dirigiu ao centro da cidade. No caminho pegou um grande engarrafamento, enquanto estava preso no transito, ficou pensando no que iria fazer com o dinheiro do mês. Com uma parte do dinheiro pretendia pagar algumas dívidas antigas, para o restante do dinheiro ele não sabia ainda o que fazer, pois tinha muitos planos para ele.
Quando chegou ao centro, ele percebeu que não tinha a mínima noção de qual órgão governamental deveria procurar primeiro, para tentar solucionar o seu problema, pior no centro, nem ao menos havia um órgão governamental. Decidiu que o melhor a fazer era ligar para o serviço de informações. Parou o carro, desceu e ligou para o serviço. O telefone tocou, mas ninguém atendeu. T. não se deu por vencido e ligou novamente, mas outra vez ninguém atendeu. Essa cena se repetiu varias vezes, até que na sexta tentativa alguém finalmente atendeu.
- Silvia Souza, serviço de informações. Com que eu falo?
- Alo, chamo-me José T.
- Senhor José T., que tipo de informação deseja?
- Bem, eu gostaria de saber qual órgão eu deveria procurar para provar que não estou morto.
- Morto? Senhor não entendi muito bem a sua pergunta. Poderia repeti-la?
- Bem Silvia. Não sei bem como explicar, mas o sistema está me dando como morto.
- Senhor. Mortos não fazem ligação. O senhor está tentando me enganar? Pois saiba que essa sua ligação está sendo gravada, e o governo poderá tomar medidas legais quanto a isso.
- Não estou tentando enganá-la – gritou T. – Só gostaria de saber qual o órgão eu deveria procurar, para consertar a besteira que vocês mesmo fizeram. – complementou.
- Senhor. Não grite comigo. Você deveria se envergonhar sabia? Esse é um serviço sério, muitas pessoas precisam dele. Enquanto isso, você está me fazendo perder tempo com besteira.
- Mas eu não estou tentando enganá-la. – retrucou T. – Só quero saber qual órgão preciso ir para provar que não estou morto.
- Senhor. Não vou mais tolerar suas graçinhas. Passar bem – disse a telefonista desligando o telefone.
Depois que ela desligou o telefone, T. ainda ficou alguns segundos segurando o telefone, sem acreditar no que havia ocorrido. Como ele pode ser tratado assim? O erro era deles e ele era tratado assim? Pela primeira vez, desde que do início do problema, ele começou a ficar preocupado com o seu desfecho. Talvez provar que não estava morto, não seria assim tão fácil quanto pensava. Mas sua preocupação logo passou. A estranha conversa que havia tido era fruto do estresse de uma telefonista. “Provavelmente brigou com o namorado, por isso está nervosa”, pensou.
T. pensou em voltar para o carro e ir pessoalmente há um órgão em busca de informações. Mas já que estava no centro, e como tinha tido um grande trabalho para chegar nele, decidiu dar uma rápida olhadinha nas lojas.
Assim, ele saiu caminhando pelas ruas estreitas e superlotadas do centro. Em pouco mais de duas horas, ele já havia visitado várias lojas e quase comprando alguns objetos inúteis. Ela já estava voltando para o carro, quando passou em frente a uma loja de panelas e pela vitrine dela, viu um belo, ao menos esse foi o seu pensamento, conjunto de panelas vermelhas.
Ele nunca havia visto panelas vermelhas, por isso, ficou instantaneamente atraído por elas. Entrou rapidamente na loja e logo foi perguntar ao vendedor quanto custavam àquelas panelas custavam. As panelas eram muito caras, mas o vendedor, muito esperto, ao perceber o interesse de T., começou a lhe falar sobre as inúmeras vantagens daquelas panelas: eram feitas do mais puro aço, não amassavam por nada. Além disso, eram muito fácies de limpar. Como se tudo isso não fosse suficiente, essas panelas eram produzidas na França, por um importante e conceituado chefe Frances.
T. deu pouca atenção ao que o vendedor lhe falou. Sua mente estava em outro lugar. Ele pensava em um filme que havia visto há algumas semanas. Nele havia uma cena em que um rico empresário aparecia cozinhando em panelas vermelhas, para uma bela modelo. Ele não sabia bem o motivo de ter se lembrando dessa cena, ele nem havia gostado desse filme. Mas o fato é que, após ver aquelas panelas, seu corpo foi tomado por uma volúpia incontrolável de comprá-las. Depois de uma rápida conversa com o vendedor, ele acabou comprando aquelas panelas vermelhas, que custaram uma considerável parte de seu salário.
T. saiu da loja satisfeito e consciente de que havia feito um excelente negócio. “Panelas vermelhas, onde mais poderia encontra panelas vermelhas nessa cidade”, pensava ele satisfeito. Quando voltou para o carro, até esqueceu-se do seu probleminha com o governo, por isso ele se dirigiu diretamente para casa. Ao chegar em casa guardou as suas preciosas panelas em um armário, juntamente com a máquina de suco Suíça e o lavador de pratos australiano que ele nunca usou.

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