domingo, 3 de janeiro de 2016

Homens mortos não falam - capítulo III

No outro dia, T. finalmente acordou cedo e partiu em direção ao serviço governamental de informações, decidido a por um fim de uma vez por todas em seu problema. Quando chegou ao local, teve uma surpresa desagradável. O prédio onde o órgão estava locado era desprezível. Era um prédio, muito antigo, de três andares. Sua pintura, provavelmente a mesma desde a inauguração do prédio, estava muito gasta. Por todos os lados dele era possível encontrar muitas infiltrações. “Então é assim que meus impostos são gastos”, pensou antes de entrar no local.
Assim que entrou, ele se dirigiu para um balcão, onde esperava encontrar a respostas para as suas dúvidas.
- Bom dia – disse T. cordialmente – eu gostaria de algumas informações.
- Senhor – respondeu o funcionário do balcão sem olhar para T. – o senhor precisava primeiro pegar uma senha com aquele homem ali – complementou apontando displicentemente para um homem próximo a entrada.
Ele caminhou até a esse homem, que lhe entregou uma senha, de número vinte e cinco. T. perguntou ao homem com a senha se tudo aquilo era realmente necessário, pois ele tinha apenas uma pequena dúvida facilmente explicável. O homem com a senha explicou que aquele era o procedimento padrão previsto em lei, e que por isso T. teria que esperar a sua vez de ser atendido. Por fim, o homem disse para ele não se preocupar, que logo seria atendido e indicou um banco de madeira onde T. poderia esperar sentado até ser chamado.
T. dirigiu-se ao banco, que já estava quase que completamente lotado de pessoas. O tempo foi passando e número de pessoas que chegavam em busca de atendimento ia aumentando em progressão geométrica ao número de pessoas que eram atendidas, por isso uma enorme fila, que ia até o lado de fora do prédio, formou-se. T. já estava há quase três horas esperando na fila, quando resolveu iniciar uma conversa com um homem, já um pouco velho que estava ao seu lado na fila.
- O senhor está esperando o que por aqui? – perguntou ele educadamente ao homem.
- Eu estou em busca de informações para resolver a minha causa – respondeu educadamente.
- E qual seria ela? – pergunto curioso.
- Bem, há cerca de três meses, um terreno que possuo foi invadido pelo governo, sem nenhum tipo de aviso ou indenização por isso...
- Mas isso é impossível! – interrompeu T. – Nos vivemos sobre um estado democrático de direito! – exclamou.
- Sim, eu também fiquei surpreso quando isso aconteceu – concordou o homem – mas foi exatamente isso que aconteceu.
- Mas e aí? O que o senhor fez a respeito disso - perguntou T. curioso.
- Bem, como era de se esperar eu não aceitei facilmente o fato. Há cerca de um mês, procurei o órgão responsável pela invasão do meu terreno e fiz alguns requerimentos para provar que sou legítimo do terreno invadido.
- E aí, o que aconteceu depois?
- Nada – respondeu o homem – e exatamente por isso que eu estou aqui. Há um mês todos os meus requerimentos e pedidos de informações são ignorados por esse órgão. Vim aqui hoje para saber o que posso fazer a respeito.
- E o senhor? Porque está aqui hoje? – perguntou o homem.
- Bem... – começou T. – eu vim aqui porque fui considerado morto pelo governo.
- Não diga?
- Juro por tudo que é mais sagrado – respondeu T. – e por causa disso, fui demitido e não posso mais pagar as minhas contas.
- Que curioso – disse o homem acariciando a barba – nunca conheci um morto que falasse – complementou sorrido.
- Curioso e trágico – disse T. com um sorriso desajeitado - O senhor que tem mais experiência que eu nesses assuntos. Acha que esse é um caso fácil de resolver? Afinal e muito fácil provar que não estou morto.
- Não sei ao certo – disse o homem pensativo – nunca conheci um caso como seu em toda a minha vida.
Nesse momento a conversa foi interrompida pela voz de um funcionário.
-Número vinte e quatro. Numero vinte e quatro. Apresente-se agora
O homem olhou para T. e sorriu.
- Numero vinte e quatro – mostrando o número da senha para T. – preciso ir agora. Boa sorte em seu caso companheiro.
Dito isso o homem saiu e deixou T. perdido em seus pensamentos. Minutos depois o homem saiu com uma cara triste e T. foi chamado ao balcão de informações.
- Boa tarde – disse T. ao mesmo funcionário com que havia falado mais cedo.
- Boa tarde – respondeu o funcionário – em que lhe posso ser útil.
- Bem eu gostaria de algumas informações. O caso é o seguinte. Há um pouco mais de uma semana, fui considerado morto pelo sistema. Provavelmente alguém com o mesmo nome que o meu morreu.
- Morto o senhor diz? – perguntou o funcionário.
- Sim, morto.
- O senhor tem certeza disso? – perguntou o funcionário – Mortos não falam.
- Porque todos sempre fazem essa mesma pergunta? – respondeu T. irritado – Sim, morto. Mas como o senhor pode ver, eu estou bem vivo e falante. Por isso tudo o que desejo e descobri como consertar esse erro.
- Senhor – disse o funcionário pensativo - nunca vi um caso como esse. Não sei se vou poder lhe ajudar.
- Como assim não sabe se vai poder me ajudar? Você trabalha no serviço de informações não trabalha?
- Sim – respondeu displicentemente.
- Portanto, trate logo de me responder para qual repartição devo me deslocar para consertar o mais rápido possível esse erro – disse T. quase gritando.
- Acalme-se senhor, gritar não vai melhorar sua situação. Além disso, o senhor está assustando as pessoas – disse o funcionário apontando para um grupo de pessoas que olhavam curiosas na direção deles.
- Olhe – disse T. ainda demonstrando claros sinais de irritação – Desde que esse erro aconteceu, eu fui demitido. Não posso pagar minhas contas e sabe-se lá mais o que pode me acontecer comigo por causa disso. Tudo isso por causa de um erro do qual não tive nenhuma parcela de culpa.
- Mas também não é nossa culpa – disse o funcionário.
- Que seja! – disse T. irritado – mas então, vai ou não me ajudar?
- Bem, como disse anteriormente. Nunca vi um caso como o seu em toda a minha vida. Por isso não sei se posso ajudá-lo, mas se que saber a minha opinião. Acho que o senhor deveria procurar o departamento de registro. E lá que todos os nascimentos e mortes são registrados. Se alguém pode fazer alguma coisa pelo senhor, esse alguém está no departamento de registros.
- E onde ficaria esse departamento? – perguntou T. excitado.
O funcionário anotou em um papelzinho o endereço do local para T., esse por sua vez agradeceu a ajuda do funcionário e partiu em direção do local indicado. O departamento de registro ficava do outro lado da cidade, por isso ele teria que se apressar se ainda desejasse resolver esse problema no dia de hoje.
Depois de perder quase duas horas preso no transito, T chegou ao departamento de registro, que ao menos em aparência, era tão ruim quanto o departamento de informações. O prédio estava tão mal cuidado quanto o outro.
Ao chegar à entrada do local, ele há encontrou fechada, olhou para o relógio e ainda eram quinze e trinta, portanto o local deveria está aberto pelas próximas uma hora e meia, no mínimo. Por causa disso, T. passou a bater na porta do prédio. Somente depois de quase cinco minutos e que um homem baixinho e gordo apareceu na porta.
- Pois não? – perguntou o homem.
- Boa tarde – disse T. – gostaria de falar com algum funcionário, pois estou com um problema sério e acredito que somente aqui eu possa resolvê-lo.
- Infelizmente, estamos fechados. O senhor terá que voltar amanha – disse o homem.
- Mas são três e meia! – exclamou T. – o expediente normal é até as cinco horas.
- Sim, senhor. Mas acontece que hoje estamos fazendo uma pequena confraternização em homenagem ao aniversário de um colega e por isso fechamos mais cedo. De forma que o senhor terá que voltar amanha.
- Mas isso é um absurdo – disse T. – eu tenho mais o que fazer da minha vida. Exijo ser atendido imediatamente.
- Infelizmente não posso fazer nada pelo senhor e pela sua situação. Volte amanha.
- Passar bem – ao dizer isso o homem fechou a porta do prédio.
T. ainda passou alguns minutos batendo e gritando em frente à porta, mas todo o seu esforço se mostrou inútil, pois ninguém apareceu para abri-la. De forma que, mesmo muito contrariado, T. acabou tendo que voltar para casa sem resolver o seu problema.
Durante o caminho de volta, sentia-se invadido por uma horrível ansiedade. Sua cabeça doía, pouco a pouco ia sendo invadido por um medo desconhecido. Desejava resolver o mais rápido possível o seu problema. Sentia-se irritado com tudo o que havia passado durante o dia, toda aquela burocracia inútil que ele fora obrigado passar. Mas que realmente o perturbava, era o fato de não ter tido nenhuma parcela de culpa no erro que havia sido cometido contra ele. Sentia-se extremamente cansado, físico e mentalmente, com tudo o que havia passado durante o dia.
Logo que chegou em casa, tomou um longo banho e comeu qualquer coisa. Foi para o quarto, deitou-se, cobriu-se com o coberto. Seus pensamentos incoerentes começavam a começavam a confundir-se cada vez mais. Pouco depois pesavam-lhe as pálpebras. Posou com voluptuosidade a cabeça no travesseiro e adormeceu profundamente.
T. teve um estranho sonho essa noite. Ele sonhou que estava preso no nono andar de um prédio muito antigo. Ele não sabia o que estava fazendo ali, nem como havia chegado ao local. Estava em um corredor longo, cheio de pequenas salas, que estavam todas vazias.
Depois de explorar o local, percebeu que ele estava completamente vazio, não existia nenhuma alma viva, nem mesmo um zelador. Havia um vazio assustador, de forma que ele ficou assustado e desejou sair de lá o mais rápido possível. Existia algo estranho na atmosfera daquele prédio e T. conseguia sentir isso.
Correu o mais rápido que pode em direção do elevador. Apertou o botão para chamá-lo dezenas de vezes, ao ponto deste quase estragar. O tempo foi passando e nada do elevador chegar.
Sem o elevador, o único modo de chegar ao térreo era, agora, as escadas. Sem hesitar, ele correu em direção delas e começou a descê-las. Ele conseguiu descer facilmente os primeiros andares, mas quando chegou ao quinto andar, sentia-se extremamente cansado, seu coração estava muito rápido e respirava com curiosidade.
Resolveu descansar um pouco, enquanto fazia isso, sentiu uma curiosidade extrema de conhecer os outros andares do prédio em que estava. Assim, resolveu conhecer o aspecto do quinto andar do prédio. Quando entrou se deparou com o mesmo corredor longo e cheio de pequenas salas vazias, já que conhecia.
T. achou tudo aquilo estranho, mas achou que devia estar em um prédio de salas comerciais, por isso todos os andares deveriam ser iguais. Sentindo-se melhor, resolveu continuar a descida.
Após alguns minutos, ele finalmente chegou ao tão esperado térreo, mas assim que chegou ao andar, foi tomado por uma sensação estranha. O local era estranhamente parecido com os outros andares.
T. estava ansioso para sair daquele local, por isso procurou desesperadamente pela saída, mas não a encontrou de modo algum. Muito assustado, resolveu olhar pelas janelas do local, mas ao olhá-las teve uma grande surpresa. Ele estava novamente no nono andar do prédio.
Um tremor nervoso invadiu o seu corpo. Como isso poderia ter acontecido? Ele acabara de descer nove andares, disso tinha certeza, como ele ainda poderia estar no nono andar do prédio? Eram os pensamentos que lhe passavam pela cabeça naquele momento.
Ficou algum tempo caminhando pelo corredor vazio do lugar, pensando na estranha situação em que se encontrava. “Isso não fazia sentido, eu tenho certeza absoluta que desci nove andares, tenho certeza disso”, pensava assustado.
Depois de muito pensar, ele decidiu que tudo aquilo não fazia sentindo e que o melhor a fazer era descer novamente as escadas. Caminhou até as escadas com um sorriso nervoso no rosto, começou a descê-las. Desceu rapidamente um andar, mas decidiu descer mais dois andares, apenas por garantia. Quando terminou de descer, novamente estava no mesmo andar, fato que pode confirmar ao olhar pelas janelas.
Nos primeiros momentos, pensou que havia enlouquecido. Percorriam-lhe por todo o corpo uma terrível sensação de frio, que tinha origem no imenso medo que estava sentindo. Já estava ficando desesperado quando escutou um barulho vindo de uma das salas do prédio, que ate então ele julgava vazias.
O barulho vinha de uma das salas que ele havia entrando e encontrado totalmente vazia minutos antes. Quando chegou a sala, T. teve uma estranha visão. Ele há encontrou totalmente mobiliada e com um homem, de expressões severas, sentando em uma poltrona.
- Bom dia senhor T. – disse o homem – eu estava realmente esperando por você.
- Quem é você – respondeu T. nervoso.
- Quem sou eu? – disse o homem – Você me conhece muito bem. Eu sou a causa dos seus problemas. Eu sou a lei.
- Como assim a lei? O senhor é algum tipo de juiz? Eu estava realmente precisando falar com um...
- Não, você me entendeu mal. Eu sou a lei, em seu estado puro. Eu regulo a vida de todas as pessoas desse estado. Normalmente eu me encontro em uma forma subjetiva, mas decidi me materializar em um corpo para falar com você.
- Não estou entendendo – disse T. confuso – O senhor está me dizendo que a lei, mas está materializado em uma forma humana?
- Sim, exatamente isso – confirmou o homem.
- Bem... E o que lei deseja comigo?
- Eu? Eu não desejo nada de você. Mas acredito que você deseje algo de mim.
- Bem, eu devo estar passando por algum tipo de delírio. Mas já que estou aqui, frente a frente com a lei. Existem algumas coisas que desejo falar com você. Há alguns dias atrás um erro foi cometido...
- E o senhor foi considerado morto – interrompeu o homem – eu já sei disso.
- Mas eu não estou morto – disse T. irritado – qualquer idiota é capaz de perceber isso.
- O senhor tem certeza disso? – perguntou o homem – para mim o senhor está morto até que se prove ao contrário.
- Eu não preciso provar que não estou morto. Você é que precisa provar que eu não estou vivo.
- HáHáHáHá – riu o homem
- Então você se considera acima da lei? Pois saiba, senhor T., que a lei está acima de todos.
- O que você diz não é verdade. Vivemos em um estado democrático de direito, os cidadãos estão acima de qualquer lei. – disse T.
- Você tem certeza disso? O senhor está biologicamente vivo, mas a lei diz que o senhor está morto, por isso você está tendo tantos problemas.
- Mas isso é um erro fácil de ser consertado – disse T. – a lei não pode ser superior a realidade.
- Realidade? Tu acreditas piamente na realidade? – perguntou o homem.
- Acredito – respondeu secamente – a realidade será sempre superior a uma lei. Uma lei pode dizer que homens podem voar, mas isso não significa que isso seja verdadeiro. A lei dos homens, nunca será superior as leis da natureza.
- Mas as leis da natureza também são leis humanas – disse o homem sorridente – por isso, são tão falhas como qualquer outra lei. Os antigos gregos acreditavam ser impossível a divisão de um átomo. Isso foi uma lei da natureza por milhares de anos, até que um dia o átomo foi quebrado, e essa lei se mostrou tão falha como qualquer outra.
- De qualquer maneira, ainda acredito na realidade. O que você quer de mim – perguntou T.
- Eu quero que você pare de lutar contra mim. Você não pode vencer a lei. Aceite a sua condição, você está morto.
- Mas eu não estou morto – gritou T. – isso é impossível. Mortos não falam, e eu estou falando. Eu estou absolutamente vivo.
- Você tem certeza disso? – perguntou o homem com um estranho sorriso no rosto.
Nesse momento chão da sala onde T. estava ficou completamente escuro, como se houvesse desaparecido. T. teve a nítida sensação de estar caindo e por isso instintivamente ficou de olhos fechados. Quando essa sensação parou, ele abriu os olhos e viu que não estava mais na sala e sim em uma espécie de cama cheia de flores por todos os lados. Ele tentou se levantar, mas não conseguiu. Ficou alguns minutos confuso, sem saber onde estava, ate que ele foi rodeado por várias pessoas conhecidas que estavam chorando ao seu redor. Nesse instante ele teve uma grande revelação, não estava em uma cama como pensara anteriormente e sim em um caixão!
Nesse exato momento T. acordou ofegante em sua cama e respirou aliviado ao perceber que tudo aquilo não passava de um sonho.

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