domingo, 3 de janeiro de 2016

O diário de um lunático - Capítulo I

9 de novembro

Hesitei muito tempo pensando se devia ou não começar a escrever nesse diário. Não sei ao certo porque resolvi por começá-lo, não gosto de diários, mas o médico falou que seria bom ter um, assim poderei, no futuro, reler o que está escrito e ver como fiz grandes avanços. Também não gosto muito de médicos, não confio neles. O leitor já reparou que, para os médicos, só existe uma doença no mundo? A Virose. Se você procurar um médico com um grande corte no pé, um tiro no peito, dor no fígado ou nas juntas, não importa, os sintomas podem ser diferentes, mas o diagnostico será sempre o mesmo: virose.

E o que falar daquelas letras ilegíveis? Que somente eles e os farmacêuticos entendem. Aposto que existe uma espécie de conspiração para dominar o mundo entre os farmacêuticos e os médicos, as receitas são apenas o modo em que eles a planejam. O fato é, não confio em médicos, não confio em nenhum ser humano que escolhe passar o resto da vida em meio a doenças, mas não posso negar que tive significativas melhoras desde que passei a visitar um deles. 

A melhora foi tanta que vou até me mudar. Sim meus amigos, finalmente, depois de anos morando com meus pais, vou me mudar para um apartamento e morar sozinho. Bem verdade que ainda não fui procurar um bom lugar e que também não possuo muito dinheiro, por isso não espero um palácio. Mas depois de tantos anos vivendo sobre as asas dos meus pais, uma mudança fará muito bem para mim.
Amanha sairei para procurar um bom lugar para morar, aguardem novidades para os próximos dias.
 
12 de novembro
Acordei tarde hoje e, quando minha mãe entrou no meu quarto para trazer meu café da manha, perguntei a ela que horas eram. Quando me disse que já passava das dez, levantei-me e me vesti rapidamente. Em menos de dez minutos já estava arrumado e pronto para sair para o trabalho, estava quase na rua quando minha mãe me avisou que hoje era sábado. 

Fiquei aliviado com essa descoberta, o clima na secretária anda muito tenso nesses últimos dias com a eleição de um novo prefeito e chegar tão atrasado no trabalho com certeza me traria muitos aborrecimentos, especialmente com o chefe da minha seção que a um bom tempo vem me perseguindo com a sua cara feia. 

Há algum tempo ele vem dizendo: “Como é possível que tu sempre chegues atrasado rapaz? Todos aqui conseguem chegar no horário marcado, menos você. Acorde para vida rapaz, seus atrasos não vão ser tolerados para sempre”. Sujeitinho desagradável, de certo tem ciúmes de mim, pois sou amigo pessoal do próprio secretário. Este sim um homem formidável, extraordinário, de conduta irrepreensível. Foi um dos melhores amigos de meu finado pai, quantas vezes não passou a noite toda em minha casa conversando besteiras até o dia amanhecer.
E não é somente o meu chefe que tem ciúmes da minha relação com o secretario. Todos nessa maldita seção tem ciúmes de mim e me odeiam secretamente. Pensam que não escuto as conversinhas na sala do café, os sussurros pelas minhas costas. Estão sempre dizendo: “É um idiota, só está aqui porque é protegido do secretário”. Bando de invejosos. Mas deixe esses recalcados para lá, o que eu queria mesmo falar era sobre o resto do meu dia.

Depois de acordado, tirei o dia para procurar um apartamento para morar. Passei a tarde visitando vários apartamentos. É impressionante como os novos apartamentos são minúsculos, alguns dos que visitei eram pequenos até para apenas um morador, fiquei imaginando uma família grande morando neles e sem perceber a imagem de uma lata de sardinha apareceu na minha mente, sendo substituída logo depois por uma de um pote de palmito em conserva. Hummm, sardinha com palmito... Estava (e estou) ficando com fome...  

Quando meus pensamentos foram interrompidos pela voz do corretor, que falava alguma besteira a qual não prestei muita atenção.

O fato é que o dia estava quase acabando e eu não havia gostado de nenhum dos apartamentos que havia visitado: ou eram muito pequenos ou muito caros. Já estava quase desistindo de achar um apartamento hoje, quando o corretor me perguntou se eu gostaria de ver mais um local. Disse que sim e pouco tempo depois estávamos subindo as escadas de um velho apartamento.

Há principio não fui muito com a cara do local, prédio era muito velho e ainda por cima não possuía elevador, mas logo que entrei no apartamento minha opinião mudou completamente, o local era enorme, possuía três quartos grandes, dois bons banheiro uma boa cozinha, uma grande sala e o melhor de tudo, possuía um escritório. Sempre quis morar em um local com escritório, acho isso coisa de gente poderosa. Logo que vi que havia um escritório já comecei a imaginar coisas. Imaginei um casal de visitantes chegando ao meu apartamento e sendo atendidos por um dos meus empregados, muito bem vestido, que lhes diria: “Sentem-se aqui – diria ele apontando para um belo sofá – O patrão está em seu escritório, mas logo estará aqui”. 

Compreendem, meus amigos, nenhum homem importante (e eu sou um homem importante) possui uma casa sem escritório. Fiquei instantaneamente atraído por aquele apartamento, que além de todas essas vantagens que já falei, ainda era muito barato e próximo tanto da casa de meus pais, como do meu trabalho. O único defeito que pude perceber durante a visita era que o local estava um pouco sujo e infestado de insetos, especialmente baratas, mas nada que uma limpeza e um pouco de veneno não resolvam.

Voltei para casa muito animado e conversei com minha mãe sobre o apartamento, ela me mandou procurar mais algumas opções, mas não estou muito inclinando em fazer isso. Fui dormir pensando naquele apartamento, meu Deus um escritório, isso é muito mais do que eu imaginava.

Nenhum comentário:

Postar um comentário