sábado, 23 de janeiro de 2016

O diário de um lunático - Parte II

19 de novembro
Como era de se esperar acabei comprando aquele apartamento com escritório. Passei a semana toda cuidando dos detalhes da mudança. Já comprei os móveis, todos de uma madeira escura para combinar com o apartamento. Comprei também alguns eletrodomésticos de primeira necessidade: geladeira, fogão, televisão etc.
Já está tudo pronto para mudança, e devo fazer isso a qualquer momento, falta apenas me despedir de minha mãe. Estou um pouco ansioso com isso e tenho medo de deixá-la sozinha. A coitada já está velha e viúva, tudo bem que a casa possui algumas empregadas, mas elas não iram cuidar dela como eu.
Passei a semana toda treinando para a minha despedida, não quero que ela ache que não sou capaz de morar sozinho e por isso tenho que me mostrar forte durante a provável cena sentimental que ela fará. Devo fazer isso amanha, que Deus me de forças para agüentar esse tormento.
 
21 de novembro
A despedida ocorreu muito melhor que eu esperava, acho que minha mãe e eu tivemos a mesma idéia, pois ela tentou parecer forte durante todo o tempo. A pobrezinha fez até uma festa surpresa de despedida para mim e repetiu com lagrimas nos olhos que meu pai ficaria muito feliz de ver isso. A felicidade era tanta que ela prometeu realizar uma missa em homenagem a uma santa, que não me recordo mais o nome, para agradecer esse milagre. Achei aquilo um exagero e sabia que na verdade tudo isso, toda aquela felicidade, não passava de uma tentativa de esconder a tristeza que estava sentido, para que eu não ficasse preocupado em deixá-la sozinha.
Antes de sair lhe dei um abraço e disse emocionado. “Mãe, sei que a senhora está muito triste, mas agora sou um homem, tenho mais de trinta e oito anos e sei me cuidar sozinho”. A coitadinha concordou com tudo muito emocionada e disse para eu não me preocupar, que não lhe fizesse visitas nos próximos meses, e que ela ficaria muito bem sem mim.
O primeiro dia no novo apartamento foi maravilhoso, passei o dia todo tirando coisas das caixas de mudanças e colocando nos seus devidos lugares. Gostei particularmente da mobília que comprei para o escritório: uma grande escrivaninha, um belo divã e uma grande estante que pretendo preencher com muitos livros. Passei algumas cansativas horas arrumando tudo, mas ao chegar ao final, fiquei muito satisfeito com o resultado, tudo no novo apartamento está muito bonito, tirando o excesso de sujeira e insetos que me referi anteriormente. Tenho que tirar que um dia para fazer uma grande limpeza nesse lugar e assim me livrar dessas horríveis baratas que infestam o apartamento.
 
26 de novembro
Ainda não tive tempo de fazer a faxina que há tanto tempo prometo a mim mesmo. As coisas no trabalho estão muito complicadas e nervosas. Parece que o novo prefeito irá diminuir o número de secretarias da cidade. Serão extintas as duas secretarias com os mais baixos índices de produtividade e corre o boato pelos corredores da secretária que a nossa está entre as três piores, assim, para evitar a sua extinção é necessário aumentar enormemente a sua produtividade nesses pouco mais de trinta dias que nos restam até o fim do ano.
O chefe da sessão, aquele cara de ovelha, ficou ainda mais insuportável nesses últimos dias, está sempre reclamando comigo: “Como é possível que nunca acertes nada, faz sempre um confusão medonha, escreve os títulos dos processos errado, nunca coloca as datas e os números, meu Deus, tudo está sempre errado. Será possível que não consegue fazer nada direito”, é o que repetia constantemente. Sujeito mais desagradável, ás vezes, enquanto ele está reclamando de tudo e de todos, tenho uma sensação curiosa de que ele não é um legitimo ser humano, mas uma espécie de fantoche. Não é o cérebro desse imbecil que fala, e sim sua laringe. O que sai de sua boca é constituído de palavras, mas não é fala genuína: e um barulho inconsciente, como o grasnido de um pato. Aquele homem certamente parece um pato. Talvez sua mãe seja uma pata.
Com efeito, já ouvi falar sobre casos semelhantes. Parece que alguns políticos não possuem mãe, sendo gerados por ovos de galinhas chocados por sapos. Li também que um certo presidente americano é filho de uma burra com uma cavalo, de forma que, talvez, aquele homem seja filho de uma pata, cara para isso ele tem.
 
7 de dezembro
Finalmente um dia de folga depois de tanto trabalho, pensei em tirar o dia para arrumar o apartamento e me livrar de uma vez por todas dessas malditas baratas que infestam o lugar, mas estava muito cansado, ando trabalhando muito e por isso passei o dia assistindo televisão.
Um fato curioso aconteceu em quanto eu assistia isso. Havia acabado de ligar o aparelho quando surgiu na televisão à imagem de uma violenta perseguição policial, com vários disparos de fuzis, acidentes de carro e até mesmo algumas explosões. Imaginei logo que se tratava de um desses filmes americanos, mas não, para a minha surpresa, poucos minutos depois, vi que aquilo se tratava do noticiário.
É impressionante como as noticias parecem piorar a cada dia, depois do primeiro tiroteio, que foi motivado por um assalto, mais três tiroteios, com vitimas fatais, foram noticiados, estes por sua vez, motivados pela guerra do tráfico. Malditos viciados. Estão acabando com esse país.
Todas essas noticias ruins me deixaram muito nervoso de forma que acabei ficando com muito dor de cabeça e insônia, por isso, antes de dormir tive que tomar alguns goles de gim e alguns de meus remédios.
 
20 de dezembro
O trabalhou aumentou insuportavelmente nesse último mês, tive que fazer varias horas extras e não me sobrou tempo para nada, a única coisa boa de tudo isso é que irei ganhar um pouco mais de dinheiro no fim do mês. Pretendo com isso, comprar vários livros para colocar no meu escritório, para deixá-lo como o escritório do secretário. Certa vez fui chamado para conversar com ele em seu escritório e fiquei maravilhado com a quantidade de livros que havia naquele lugar. O seu gabinete está tomado por uma biblioteca cheia de livros. Li os títulos de alguns deles e não compreendi muito bem sobre o que falavam, mais certamente era sobre um assunto muito importante.
O secretário certamente é um homem muito inteligente, talvez seja o homem mais inteligente do mundo. Meu pai com certeza também fora um homem muito inteligente em vida, quem sabe mais inteligente que o próprio secretário. Meu Deus, um pensamento singular acabou de me ocorrer, com a morte de meu pai, talvez eu seja, como o seu legítimo herdeiro, o homem mais inteligente do mundo.
Sim, agora tudo faz sentindo, sou o homem mais inteligente do mundo e por isso, por ser tão inteligente eu desperto tanta inveja, por isso sou perseguido por aquilo sujeitinho invejoso com cara de pato.
 
27 de dezembro
Passei o feriado do natal quase todo em casa, apareci na casa de minha mãe apenas por alguns minutos e logo voltei para casa, pois odeio o natal. Sempre odiei o natal. Nada mais ridículo que todo o sentimentalismo barato que invade o coração das pessoas no natal. De um dia para outro as pessoas são invadidas por um falso espírito de bondade, como se ser bom durante o natal perdoasse as pessoas pelo os outros 364 dias do ano de ruindade.
Vejam só, até mesmo meu chefe, aquele ganso, foi invadido pelo espírito natalino e na noite anterior ao natal, organizou uma pequena comemoração natalina, com direito até a comes e bebes. Sujeitinho desagradável, como se isso me fizesse esquecer os outros 364 dias de perseguições e ataques.
 
1 de janeiro
Finalmente tenho algumas boas novas, aproveitei o feriado de ano novo para finalmente arrumar a sujeira do apartamento, mas infelizmente não consegui me livrar das malditas baratas, esses insetinhos parecem ser imunes ao veneno, acho que vou ter que fazer uma dedetização em todo lugar.
Comprei, como o planejado, quase duas dezenas de livros para o meu escritório, de certo que ainda não tive tempo para ler nenhum deles, mas o escritório ficou muito mais bonito com eles. Qualquer pessoa que o viste agora irá pensar, “Como é culto esse homem”, de forma que estou muitíssimo orgulhoso disso.
 
2 de janeiro
Hoje aconteceu comigo algo de muito estranho, passei toda noite fazendo um maldito relatório para o cara de sapo do meu chefe, quando finalmente o finalizei, guardei-o em uma pasta. Mas no outro dia, já na secretária, quando abrir a pasta, o documento simplesmente não se encontrava lá. Quando contei o acontecido para o cara de pato do meu chefe ele ficou irado e me chamou para conversar em uma sala reservada.
- O que você tem na cabeça? Vamos lá, pense bem? Já está quase com quarenta não é mesmo? É tempo de ter juízo. O que estás pensando? Que o secretário vai te proteger para o resto da vida? Ele tem quase setenta anos, mais dois ou três anos ira se aposentar, e aí? Quem você acha que ainda vai te manter aqui eim? Olha bem para ti, pensa no que tu és? Um inútil, um lunático, um peso morto. Nada mais que isso. Tens quase quarenta anos e ainda morava com mãe.
Como mil diabos! Que sujeito desagradável, sua cara parece mais com a de um pato morrendo afogado. Mas não pense vocês que me senti abalado com as suas palavras. Não mesmo, compreendi muito bem o motivo de tudo aquilo. Ciúmes, sim meus amigos, aquele pobre infeliz morria de ciúmes de mim.
Como ele mesmo disse, em dois ou três anos o secretário irá se aposentar e o cargo ficar vago, e mais que óbvio que aquele cara de coruja tem esperanças de ser nomeado para o cargo, mas ele sabe, alias todos nessa repartição sabem, que eu serei o nomeado para o cargo, afinal não existe em toda a cidade ninguém mais capaz que isso, e o secretário, aquele grande homem, já deu sinais claros disso. E por isso, pelo mais puro despeito e inveja, que aquele idiota vem tentando me desestabilizar ao longo dos últimos anos. Além do mais, qual é o problema em ter trinta e oito anos, nos tempos de hoje e idade na qual mal se esta começando uma carreira... Que mil diabos o carreguem.
 
3 de janeiro
Algo de estranho, algo realmente estranho está acontecendo nessa casa. Hoje depois do trabalho resolvi procurar o documento perdido, procurei por toda a casa é não achei nenhum sinal dele, é como se alguém tivesse entrando na casa e sumido com ele. Mas o mais estranho não é isso, enquanto eu estava procurando pelo documento, encontrei um grupo de baratas, dessas que infestam o local. As baratas estavam todas juntas em uma espécie de circulo, era como, não sei bem definir, era como se estivessem planejando alguma coisa. Ao me verem, todas elas saíram correndo como loucas, menos uma, totalmente diferente das demais. Era uma barata grande, de cor preta e com algumas manchinhas brancas espalhadas pelo casco. Essa barata, ao me ver, não correu como as demais, ficou me observando por alguns instantes, nos quais pude sentir pelo balançar daquelas pequenas antenas que ela estava planejando alguma coisa contra mim.
Pode ter sido apenas uma impressão minha, mas sinto algo diferente na atmosfera desse apartamento.
 
6 de janeiro
As baratas realmente estão tramando alguma coisa, hoje resolvi chegar um pouco mais cedo do trabalho e encontrei um grupo delas revirando as coisas do meu quarto. Ainda não descobri o que elas pretendem, mas é certo que estão tramando alguma coisa.
 
8 de janeiro
Hoje fui ao médico e descobri que as coisas são piores do que eu pensava. Quando lhe contei o episódio envolvendo as baratas ele soltou uma grande gargalhada e ficou um longo tempo me fazendo perguntas estranhas e tentando me persuadi que as baratas não estavam planejando nada, que tudo era fruto da minha imaginação. Acabei fingindo que concordei. Desta forma não deixei transparecer que eu descobrir seu plano. Todos eles: médicos, farmacêuticos, o meu chefe e as baratas faziam parte de uma grande conspiração para dominar o mundo. Mas eu sou mais astuto, eles nunca vão me enganar. No final da consulta, o fingido passou uma enorme lista de remédios que eu deveria tomar e me deu recomendações para voltar ao seu consultório em duas semanas. Obviamente que joguei aquela receita no lixo logo que sair de seu consultório. Malditos conspiradores, que mil diabos os carreguem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário