sábado, 23 de janeiro de 2016

O diário de um lunático - Parte III

11 de janeiro
As coisas estão muito ruins por aqui, estou há três dias inteiros sem dormir e sem sair de casa. Posso sentir que aquelas baratas malditas estão tramando alguma coisa, de certo e alguma espécie de vingança por eu ter tentando exterminá-las com veneno. 

As baratas agora estão todas juntas e seu numero aumenta constantemente, as vejo passando por mim todo o tempo em posição de desafio, balançando aquelas anteninhas nojentas, especialmente aquela com manchas brancas no casco. Tenho medo do que possa acontecer durante a noite, por isso não durmo, estou vivendo a base de estimulantes. Pensei em sair e visitar a minha mãe, mas tenho medo do que elas possam fazer enquanto estou ausente.

Nesses três dias pensei em ir a secretária, mas os mesmo motivos me impediram de sair de casa. Imagino a cara azeda que o meu chefe deve está fazendo no momento.
 
13 de janeiro
O que mais temia aconteceu, não me aguentei e acabei adormecendo, quando acordei aquelas baratas haviam feito uma confusão dos infernos pelo apartamento. Interpretei essa atitude como uma declaração de guerra e prontamente a aceitei. Ainda hoje, tivemos nossa primeira batalha, onde tive uma retumbante vitória, matando e ferindo muitas baratas. Terminarei essa guerra em breve, ou não me chamo... Como me chamo mesmo? Bem não importa mais. O fato é que o que aconteceu aqui não tem mais volta. A sorte está lançada, como disse César, ou teria sido Napoleão?

Ano 3150. Fronteira final.
Hoje é um dia muito especial! As baratas têm um novo Imperador. Este Imperador sou eu. Depois de longas e sangrentas batalhas, finalmente consegui derrotar o líder da rebelião das baratas e me tornei o seu Imperador. Mas agora, depois de tudo acabado, uma coisa está realmente me perturbando. Como serei conhecido? Pensei primeiro em me auto-proclamar: Imperador Sem Nome, o Grande. Logo depois decidi que ficaria melhor algo como, Imperador Sem Nome, o Cruel e por fim decidi mudar meu titulo para Imperador Sem Nome, o Belo. No final acabei escolhendo o titulo de Imperador Sem nome, o Grande, Cruel e Belo.

Mal posso esperar para ir à secretária e mostrar para toda aquela gente invejosa o que me tornei. É minha pobre mãe então, aposto que irá chorar de emoção com o cargo que seu filho conseguiu.

Sem data, não houve mês tampouco.

Tive uma revelação hoje, não sou somente o Imperador das baratas, isso é muito pouco para mim. Eu sou um Deus, sim vejam só, um Deus, somente hoje fui descobri. Confesso que fui inundado por uma luz durante um sonho e uma voz me fez essa revelação. Não compreendo como não fui perceber isso antes, como fui pensar que era um simples Imperador. Como este pensamento extravagante pode penetrar na minha cabeça? Felizmente ninguém teve a idéia de me trancafiar em um hospício por essa loucura. 

Antes eu não compreendia meu lugar no mundo, mas agora está tudo claro em minha mente, eu sou um Deus, e agirei como tal. Exigirei respeito dessas malditas baratas, e não somente respeito, mas devoção. Exigirei esse respeito, essa devoção, de todas elas e perseguirei com a minha cólera aquela que mo recusar.
 
74 dia de Januário.
As coisas ficaram complicadas depois que descobrir que sou um Deus. Tentei criar um culto baseado no amor e no respeito ao próximo, mas as baratas não aceitaram muito bem essa idéia e se recusaram a me idolatrar. Assim, não tive escolha, cometi longas e sangrentas matanças para conquistar o respeito daqueles insetos miseráveis, tendo conquistado isso, somente depois de quase dizimar toda a população delas.

Depois de muitas matanças, decidi que estava na hora de ser bonzinho para com elas e realizei alguns milagres. Deixei uma fatia de queijo apodrecido aqui, um pouco de leite acolá, um resto de comida no chão. E assim, aos poucos, o número delas foi aumentando, até que em poucos dias, já existia um número maior do que quando comecei a exterminá-las. Como se reproduzem rápido esses insetos.

Depois disso, imaginei que o melhor a fazer era deixá-las em paz, para que elas conquistassem suas coisas sozinhas, sem a ajudar de um Deus. Foi nesse exato momento que as coisas saíram do controle, uma vez acostumadas com a boa vida de milagres que levavam, as baratas se recusaram a trabalhar e não mais saiam para procurar comida por conta própria, sempre esperando que as coisas caíssem do céu.
Acontece que, o número de baratas era enorme agora, e eu não possuía comida para todas, assim, não achei justo dar comida para algumas e deixar outras com fome. Resolvi que o melhor a fazer era deixá-las abandonas a própria sorte. Esperava com isso, que na hora que a fome apertasse, elas sairiam atrás de comida por conta própria.

Mas eu estava completamente enganado, em vez de saírem atrás de comida como eu havia imaginado. O que aconteceu foi que algumas delas, cansadas de tanto rezarem, acabaram perdendo a sua fé em mim e criando um novo Deus, falso é óbvio, para elas.

Pouco tempo depois as baratas já se dividiam em vários grupos, cada um com um deus diferente. Logo surgiram algumas baratas que diziam ter o poder de se comunicar com Deus em troca de algumas oferendas, e assim, multidões de baratas saíram em busca de alimentos, enfrentando longas horas de trabalho, para alimentarem esses poucos privilegiados que podiam falar com Deus.

Depois disso, essas dezenas de grupos, influenciadas por aquelas baratas medonhas que diziam poder falar com Deus, criaram uma dezena de religiões diferentes, mas ao mesmo tempo iguais. Iguais porque todas, apesar de terem um Deus diferente, agiam da mesma maneira: primeiro construíram grandes templos, pirâmides e palácios para Deus, com o objetivo que ele se compadecesse do esforço daquelas baratas e realizasse alguns milagres. Confesso que esse truque quase funcionou comigo, o templo feito de pedacinhos de queijo podre, construído em minha homenagem tocou o meu coração e quase me deixei levar pela emoção.

Depois de construído o templo, cada uma dessas religiões, criou, por intermédio das baratas que podiam falar com Deus, um conjunto de regras que não poderiam ser quebras pelos seguidores daquela religião (por ironia as baratas que falavam com Deus eram as primeiras a quebrá-las), caso essas regras fossem desobedecidas por uma barata, Deus a mandaria um local criado por ele, cheio de fogo, humilhações, tortura e dor por toda a eternidade, isso claro porque ele a amava.
É tudo muito confuso com essas baratas. Os falsos Deuses criados por elas, são todos idênticos. Como elas não percebem que e o sou o único e verdadeiro Deus. O mais interessante desses falsos Deuses criados por essas baratas e que eles são todos perfeitos: onipresentes e oniscientes, mas por alguma razão que desconheço, sempre precisam de dinheiro e oferendas.

Não sei como essas estúpidas baratas não conseguem notar que há algo de errado com os seus Deuses. Por toda a parte dessa sociedade de insetos estúpidos existe guerra, fome, mortes, doenças, violência, torturas e corrupção. Se isso é o melhor que seus Deuses podem fazer, eu não estou impressionado. Posso fazer algo muito melhor. Essas realizações não são compatíveis com um Deus super poderoso.

Com o tempo, esses grupos começaram a brigar entre si, para decidiram qual Deus era o melhor, o mais verdadeiro e o mais bondoso. Muitos massacres ocorreram, populações inteiras de baratas foram exterminadas, de forma que, se não fosse a minha intervenção, as baratas teriam se destruído completamente.

O problema é que depois de minha intervenção, as baratas novamente se acostumaram com milagres, e tudo que vos narrei agora pouco acaba acontecendo novamente em um ciclo vicioso que nunca acaba.
Ser um Deus realmente não é algo fácil. Eu que sou um Deus para as baratas, não tenho poupado muitas delas.

30 de fevereiro
Recebi a visita de minha mãe hoje, junto dela veio aquele conspirador maldito do meu médico. Os dois queriam saber por que abandonei o meu trabalho. Contei-lhes a história das baratas e de como me tornei um Deus. Era de se ver o silêncio respeitoso que então se fez! Mas eu fiz apenas um gesto com a mão, dizendo: “Não quero nenhum tipo de demonstração de submissão, sei da minha superioridade”.

Depois de ouvir essas minhas palavras, minha mãe não se conteve e caiu em prantos, emocionada. Não a consolei, pois sei que não é todo dia que se descobre ser seu filho um Deus. Até mesmo o conspirador reconheceu minha divindade. Escutei-o dizendo baixinho para minha mãe: “Não devemos contrariá-lo, pode ser perigoso”. Sim não se deve contrariar um Deus como eu. Posso ser muito cruel quando preciso, pergunte as baratas como posso ser cruel.

O médico e minha mãe, que permaneceu o tempo todo chorando, ficaram me idolatrando durante longos minutos. Depois disso recebi em meu apartamento a visita de alguns homens vestidos de branco que se diziam meus servos. Os homens me conduziram, juntamente com minha mãe e o médico, para um grande carro branco. Perguntei-lhes o que era tudo aquilo. O médico me explicou que estavam me levando para o meu palácio e de lá minha divindade séria anunciada para todo o mundo. A coisa realmente fazia sentindo porque fui conduzido por um carro que tinha uma sirene muito barulhenta, possivelmente para anunciar ao mundo a minha chegada.

Não gostei muito da aparência do meu palácio, e uma casa velha, suja e ainda por cima cheira a repolho velho. A qualidade dos meus servos também não é das melhores, são um bando de homens de cabelo raspados que não respondem a nenhuma de minha ordens, até mesmo as baratas eram mais inteligentes e capazes que os servos que me arranjaram. 

Reclamei disso com o maldito conspirador e ele disse para me acalmar, um novo palácio está sendo construído e novos servos estão sendo treinados. Fiquei mais calmo depois dessa notícia, acho até que vou poupar esse mundo.
Dia do mesmo ano que sucedeu ao dia anterior.
Não consigo entender a forma usada por essas pessoas para me adorar. Hoje rasparam a minha cabeça contra a minha vontade, depois disso fui levado a um médico que começou a me fazer perguntar estranhas. Vejam só, esse maldito conspirador acha que eu sou louco. As perguntas eram sobre a minha infância, cada resposta que eu dava era para ele um claro sinal de demência. Mas eu percebi o que aquilo significava, os médicos e farmacêuticos com certeza já descobriram que eu sei tudo sobre a sua conspiração para dominar o mundo e por isso estão tentando me eliminar.

Depois disso fui carregado pelo braço por um homem muito mal encarado, o homem estava me segurando muito forte, e algumas vezes chegava até a me empurrar. Por causa disso dei-lhe um tapa no rosto e disse: “Não é assim que se trata um Deus”. O homem então me duas pancadas nas costas com um grande bastão de madeira, o que me fez cair no chão rolando de dor. Logo depois fui amarrado por vários homens a uma maca e levado para uma sala estranha, onde fui deixado sozinho.

Eles me amarraram na maca de uma forma que não podia me mexer. Fiquei sozinho na sala por poucos minutos, logo surgiram alguns homens de aventais brancos e colocaram um pesado aparelho sobre a minha cabeça. Duas almofadinhas, que pareciam um tanto úmidas, foram colocadas na minha cabeça e um aparelho foi ligado.

Nesse momento uma grande explosão aconteceu na minha cabeça e fiquei desacordado. Quando recobrei a consciência estava trancado em cubículo, minha cabeça não doía, mas em algum lugar dela eu sentia uma vasta área vazia. Como se me tivessem tirado um pedaço do cérebro.
 
4 de Julio césares de 1888
Ainda estou trancando nesse lugar maldito, tudo culpa desses conspiradores que ainda duvidam das minhas faculdades mentais. Tentei, inutilmente, explicar para o médico o funcionamento da minha religião e por qual eu sou um Deus. Ela nada difere das outras religiões que existem pelo mundo e nem por isso as pessoas são trancafiadas e injuriadas como estou sendo. Mas todas as minhas tentativas de argumentação foram inúteis e continuo sendo considerado um louco.

Mas se eu sou realmente um louco, então todas as pessoas também são loucas, porém, são ainda mais doentes, sem duvidas, aqueles que veem nos outros, sinais de loucuras que não veem em si mesmos.

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